O segredo do salão de provas – Bernard Shaw

By | June 25, 2022

Era dia de provas; e os convidados para o baile Shakespeare, de pé, em frente aos espelhos do costureiro, examinavam os últimos retoques nas fantasias que iam vestir naquela noite.

— É inútil — disse Iago, descontente. — Não pareço bem e não me sinto bem.

— Garanto-lhe, Senhor — protestou o costureiro. — Está um retrato perfeito.

— Posso parecer um retrato, mas não estou a caráter.

— Que caráter?

— O caráter de Iago, é claro. O meu caráter.

— Senhor — disse o costureiro — permite-me dizer-lhe um segredo cuja revelação pode arruinar-me?

— Tem alguma relação com este traje?

— Cem por cento, Senhor.

— Então diga.

— Pois bem, a verdade é que eu não posso vestir Iago a caráter, visto ele não ser um caráter.

— Não é um caráter! Iago não é um caráter! Você é doido? Está bêbado? É analfabeto? Imbecil? Ou blasfemo?

— Efetivamente, devo parecer presunçoso, Senhor, depois de tantos críticos escreveram longos capítulos analisando o caráter de Iago; essa profunda, complexa, enigmática criação do nosso maior poeta dramático. Mas repare, Senhor; jamais alguém escreveu longos artigos sobre o meu caráter.

— Mas porque haviam de o fazer?

— Sim, porquê? Eu não encerro enigma algum. Nenhuma profundeza. Se muito se escrevesse sobre o meu caráter, estou certo de que o Senhor seria o primeiro a suspeitar que eu tivesse algum.

— Se aquele busto de Shakespeare pudesse falar — disse Iago, com severidade — pediria para ser removido imediatamente para um nicho apropriado na fachada do Teatro Nacional de Shakespeare, em vez de ficar aqui sendo insultado.

— De forma alguma — disse o busto de Shakespeare. — O fato é que eu posso falar. Não é fácil um busto falar, mas até as pedras falariam se ouvissem um homem honesto como este ser censurado por dizer a verdade. E eu sou apenas de gesso.

— Que brincadeira tão idiota — gaguejou Iago, lutando com os efeitos do susto que o Bardo lhe pregara. — Você tem um fonógrafo naquele busto. Ao menos, podia lhe ter colocado um disco de versos brancos.

— Dou-lhe a minha palavra de honra, Senhor — protestou o pálido costureiro — que, até agora, nunca troquei uma única palavra com aquele busto… desculpe, com o Senhor Shakespeare.

— A razão porque você não consegue vesti-lo a caráter, é muito simples — disse o busto. — Eu fiz uma miscelânea de Iago, pois os vilões são pessoas tão estúpidas e enfadonhas que eu nunca os pude suportar. Posso aguentar cinco minutos com um vilão como Don John em… em… oh, como se chama?… vocês sabem… aquela comédia onde entrava um polícia cômico. Mas se eu tivesse de criar um vilão e fazer do seu papel, o principal, acabaria não obstante os meus esforços, por o tornar um sujeito agradável. Era superior às minhas forças. Enquanto praticavam ações razoáveis, ainda a coisa ia bem; mas quando chegava o momento de começarem a cometer toda a sorte de assassínios, de mentiras e canalhices, sentia-me envergonhado. Não tinha o direito de o fazer.

— Certamente — interrompeu Iago — o Senhor não considera, Iago, um sujeito agradável.

— Um dos caráteres mais populares do palco — disse o busto.

— Eu! — exclamou Iago, estupefato.

O busto acenou com a cabeça e imediatamente caiu com o nariz no chão, pois o escultor não o fizera para acenar com a cabeça.

O costureiro acorreu, e com muito solícitas expressões de pesar, limpou-lhe o pó e tornou a colocá-lo intacto, em seu pedestal.

— Lembro-me da peça onde você entrava — continuou o busto imperturbável, apesar do percalço sofrido — Deixei a pena correr sobre o papel: e que belos versos foram. Podia ouvir-se as almas das pessoas chorando ao simples som das estrofes. Não me preocupei com o sentido — limitei-me a declamar todas as palavras bonitas do meu vocabulário. Oh, era admirável, garanto-lhes. Tambores e trombetas; o Pelosponto e o Helosponto; um maligno árabe de Aleppo; e olhos que derramavam lágrimas, mais depressa do que aquelas árvores árabes, a sua goma medicinal; o disparate mais flagrante de que há memória, mas com que música!… Ora eu comecei a peça com dois terríveis vilões: Um homem e uma mulher.

— Uma mulher? — perguntou Iago. — O Senhor está fazendo confusão. Não há nenhuma vilã no Othelo.

— Já lhe assegurei que não há vilões em toda a peça — disse o imortal William. — Mas eu comecei com uma vilã.

— Quem?

— Desdêmona, é claro — replicou o Bardo. — Tive uma tremenda inspiração ao criar a super sutil e extremamente corrupta dama veneziana que devia levar Othelo ao desespero, atraiçoando-o. Está tudo no primeiro ato. Mas, por fim, fraquejei. Bem contra a minha vontade ela tornou-se amável em minhas mãos. Além disso, vi que não era necessário… e que eu podia alcançar um efeito mais retumbante, fazendo dela uma vítima inocente. Cedi à tentação; nunca pude resistir a um efeito. Era um pecado contra a natureza humana e fui bem recompensado pois a modificação transformou a peça numa farsa.

— Numa farsa! — exclamaram Iago e o costureiro, ao mesmo tempo, sem acreditar no que ouviam — Othelo, uma farsa!

— Nem mais nem menos — disse o busto, com ênfase, — Vocês julgam ser a farsa, uma peça em que algum grotesco palhaço faz rir as outras pessoas. Isso só prova a vossa ignorância. Eu considero a farsa, uma peça em que as confusões não são naturais, mas mecânicas. Fazendo de Desdêmona uma pobre e honesta mulher e Othelo, um homem superior, fiz desaparecer todos os motivos para um ciúme natural. Para criar uma situação lógica, teria do fazer, ou dela, uma mulher má, como idealizara anteriormente, ou dele, um homem ciumento, traiçoeiro e egoísta, tal como Leontes na Fábula. Mas eu não podia diminuir a figura de Othelo daquela maneira; e assim, estupidamente, diminui-o de outra, transformando-o numa vítima de uma infernal e ridícula intriga com um lenço. É por esta razão que a peça não agrada ao público intelectual. Não passa de uma dissoluta sequência de patifarias e crimes. Lamento tal fato, mas sempre queria saber se há algum escritor moderno capaz de escrever coisa tão boa.

— Mas o Senhor não modificou a sua opinião sobre mim — lamuriou Iago.

— Modifiquei, sim senhor — retrucou Shakespeare — Tinha resolvido criar a figura do homem mais detestável desta terra; um tipo sem pretensões, contente por ser o satélite de homens com mais estilo, mas abominavelmente grosseiro e possuindo aquele estúpido egoísmo que torna o homem incapaz de compreender o dano que as suas intrigas podem fazer, ou incapaz de as deixar de fazer se vê que lucra alguma coisa com elas. Mas o meu desprezo e nojo por tal criatura — e o que era pior, o intenso aborrecimento que ele me inspirava — venceram-me antes do segundo ato. A crua verdade e as coisas naturais que ele dizia, eram tão enjoativamente grosseiras que, por fim, vi-me forçado a desistir. Apesar dos meus esforços, ele começou a ficar esperto e inteligente. E foi o fim. Era Ricardo III, outra vez. Transformei-o num cão humorístico. Fui mais longe; dei-lhe o meu próprio divino desprezo pelas loucuras da humanidade e por ele próprio, em vez da inveja infernal da divindade humana. Era coisa que me acontecia habitualmente. Em algumas peças, melhorava-a, mas o fato é que desta vez, destruiu a essência de Othelo. As pessoas sensíveis não gostam de ver uma mulher esganada por engano. É verdade que muita gente iria até ao fim do mundo, só para ver uma mulher a ser estrangulada, fosse por engano ou não; mas tal público não me interessa, embora o seu dinheiro seja tão bom como o de outro qualquer.

O busto, cujas faculdades de conversação começavam a alarmar o costureiro, apressado como estava, preparava-se para prosseguir, quando a porta do salão se abriu, de par em par, e Lady Macbeth entrou. Por acaso era a mulher de Iago; e por esse motivo, o costureiro não julgou necessário chamar-lhe a atenção de que aquele salão era o de provas de cavalheiros. Além disso, era uma Senhora de temperamento exaltado; e o pobre costureiro tinha-lhe tanto medo que nem ousou fechar a porta, receoso de que a dama considerasse a sua ação, como uma censura muda por a deixar aberta.

— Tenho a certeza de que este vestido está mal feito — disse ela. — Todos me dizem que estou um retrato perfeito, mas a verdade é que não me sinto nada Lady Macbeth.

— Deus a livrasse de tal, Senhora — disse o costureiro. — Podemos modificar-lhe a aparência, mas nunca a natureza.

— Ora! — exclamou a Senhora — a minha natureza modifica-se com cada vestido que visto. Santo Deus, o que é aquilo? — acrescentou, ao ver que o busto dava uma risadinha de aprovação.

— É o busto — disse Iago. — Fala como uma pessoa. Aliás, suspeito de que é o próprio Shakespeare.

— Que patranha! — disse a Senhora. — Os bustos não falam.

— Falam, sim — disse Shakespeare. — Eu estou a falar e sou um busto.

— Pois eu digo-lhe que não falam — teimou a Senhora. — Não faz sentido.

— Então, impeça-me de falar se for capaz. Nunca ninguém o foi, quando eu era vivo.

— Nada neste mundo me fará acreditar em tal coisa — disse a Senhora. — É simples superstição medieval. Mas, adiante: com este vestido pareço-me com alguém prestes a cometer um crime?

— Não se preocupe com isso — disse o Bardo. — Você faz parte dos meus fracassos. Eu queria que Lady Macbeth fizesse qualquer coisa de pavoroso; mas, pouco a pouco, ela foi se transformando na minha mulher que nunca cometeu um crime em toda a sua vida — pelo menos um crime rápido.

— A sua mulher! Ann Hathaway! Ela parecia-se com Lady Macbeth?

— Muito — afirmou Shakespeare. — Notem que Lady Macbeth tem uma única característica consistente: a de pensar que todas as coisas que o marido faz, são mal feitas, e que ela poderia fazê-las muito melhor. Se eu tivesse assassinado alguém, Ann censurar-me-ia por não ter cometido bem o crime, e iria para o quarto para se exercitar nela própria. Sempre que dávamos uma festa, ela pedia desculpas aos convidados, pelo meu comportamento. Tirando isso, desafio alguém a encontrar qualquer senso comum em Lady Macbeth. Jamais ocorreria a uma pessoa, assassinar outra daquela maneira. Tudo que pude fazer, chegado o momento fatal, foi corar de vergonha e dar-lhe um ou dois pequenos retoques de natureza — tirados de Ann — para fazer as outras pessoas acreditarem em sua existência real.

— Sinto-me desiludida, desgostosa — disse a Senhora. — Ao menos, podia ter guardado essa revelação para depois do baile.

— Mais um motivo para me agradecer — respondeu o busto. — Eu era um homem gentil. Foi pena ter nascido dez vezes mais esperto do que os outros, gostar dos meus semelhantes e, contudo, ter de desprezá-los pelas suas vaidades e ilusões. Os homens são uns imbecis, mesmo os mais espertos. A minha crueldade não ia a ponto de ofuscar os outros, com a superioridade do meu intelecto.

— Mas que toleirão! — comentou a Senhora levantando o nariz.

— Que pode um homem fazer? Pensa por acaso que eu seria capaz de dizer a qualquer um que era uma pessoa vulgar?

— Não creio que o Senhor tenha consciência — disse a dama. — Aliás, já tem sido um problema muito discutido.

— Consciência! — gritou o busto. — Ora essa! Foi ela quem estragou a minha melhor criação. Comecei a escrever uma peça sobre Henrique V. Queria mostrá-lo na sua pervertida juventude e planeei a criação de um personagem, uma espécie de Hamlet, que devia lançar pragas aos quatro ventos e acompanhar sempre o Príncipe, apontando a moral e adornando a lenda — desculpem o anacronismo; O Dr. Johnson, creio, o único homem que até hoje escreveu alguma coisa de verdadeiro a meu respeito. Poins, era o nome deste modelo. Ora, acreditem em mim, que ainda não entrara bem no âmago da peça quando um ator de segunda categoria a quem estava destinado um papel antipático e que se limitaria a entrar em duas cenas para roubar algum mercador, e acabar por ser roubado pelo Príncipe e por Poins — uma criatura insignificante, enfim — tornou-se, de súbito, numa magnífica reencarnação de Silenus. Ele matou Poins; matou toda a essência da peça. Resvalei nele; fui absorvido, criei um pequeno círculo de pessoas desavergonhadas unicamente destinado a fazê-lo sobressair. Eu tinha a certeza de que por muito que os outros personagens se transformassem, ele jamais o faria. Certa tarde em que atravessava Eastcheap, na companhia de um jovem amigo (um jovem com um brilhante futuro à sua frente) passámos por um velho balofo, meio bêbado, encostado a uma mulher que podia passar por nova mas não era. Naquele momento, a consciência segredou-me: “William, isto tem graça?” Preguei um sermão tão longo ao meu jovem amigo que este, por fim, protestando um encontro marcado, retirou-se. Então, fui para casa e estraguei o resto da peça. Mas não o fiz bem. Eu tinha de fazer com que o homem acabasse os seus dias miseravelmente; e tinha de enforcar os seus imundos parasitas ou atirá-los para o esgoto ou para o hospital. Devemos sempre refletir com cuidado antes de tomarmos uma resolução. A propósito, podem fechar aquela porta? Acho que vou ficar resfriado.

— Desculpe — disse a dama. — Eu me distrai.

E dizendo isso, correu e fechou a porta antes que o costureiro pudesse antecipar-se.

Mas era demasiado tarde.

— Vou espirrar — disse o busto — mas duvido que o possa fazer.

Num esforço sobre-humano, conseguiu reprimir por momentos o espirro que se aproximava, encolhendo o nariz e fechando os olhos. Seguiu-se uma formidável explosão. O busto jazia no solo, desfeito em pedaços.

E não voltou a falar.

59 Visualizações