Linda a bota, e verdes meus olhos – J.D. Salinger

By | March 21, 2023

Quando o telefone tocou, o homem grisalho perguntou à garota, não sem um pouco de deferência, se ela por acaso preferia que ele não atendesse. A garota ouviu o que ele dizia como que de longe, e virou o rosto para ele, um olho — do lado da luz — bem fechado, seu olho aberto muito, ainda que insinceramente, grande, e azul a ponto de parecer quase violeta. O homem grisalho pediu a ela que se apressasse, e ela se apoiou um pouco no antebraço direito com velocidade suficiente para que o movimento não parecesse tão perfunctório. Tirou o cabelo da testa com a mão esquerda e disse, “Jesus. Sei lá. Assim, o que é que você acha?”. O homem grisalho disse que na opinião dele não fazia tanta diferença se sim ou se não, e passou a mão esquerda por sob o braço de apoio da garota, acima do cotovelo, subindo aos poucos com os dedos, criando espaço para eles entre as superfícies mornas do braço e da parede do tórax dela. Pegou o telefone com a mão direita. Para pegar o aparelho sem ter que tatear, ele teve que se erguer um pouco, o que levou a parte de trás de sua cabeça a roçar numa quina do abajur. Naquele instante, a luz ficou particular, ainda que algo vividamente bonita em seu cabelo grisalho, praticamente branco. Apesar de estar desgrenhado naquele momento, tinha obviamente sido cortado recentemente — ou, na verdade, recém-retocado. A nuca e as têmporas tinham sido aparadas de uma maneira convencionalmente baixa, mas as laterais e a parte de cima tinham ficado mais que um pouco compridas, e estavam, na verdade, um pouco “distintas”. “Alô?”, ele disse ressonante no telefone. A garota permaneceu apoiada no antebraço, olhando para ele. Os olhos dela, mais simplesmente abertos do que alertas, ou especulativos, refletiam principalmente seu próprio tamanho, e sua cor.

Uma voz masculina — gélida e morta, mas mesmo assim algo rude, quase obscenamente reavivada para a ocasião — estava do outro lado da linha: “Lee? Te acordei?”.

O homem grisalho lançou um rápido olhar para a esquerda, para a garota. “Quem é?”, ele perguntou. “Arthur?”

“Isso — te acordei?”

“Não, não. Eu estou na cama, lendo. Alguma coisa errada?” “Certeza que eu não te acordei? Jura por Deus?”

“Não, não — imagina”, o homem grisalho disse. “A bem da verdade, eu ando dormindo na média uma porcaria de umas quatro —”

“O motivo de eu ter ligado, Lee, por acaso você viu quando a Joanie estava saindo? Por acaso você viu se ela foi embora com os Ellenbogen, quem sabe?”

O homem grisalho olhou de novo para a esquerda, mas dessa vez alto, longe da garota, que agora o observava como um jovem policial irlandês de olhos azuis. “Não, não vi, Arthur”, ele disse, olhos no canto distante e escuro do quarto, onde a parede se encontrava com o teto. “Ela não foi embora com você?”

“Não. Não mesmo. Você nem viu ela sair, então?”

“Bom, não, na verdade não vi mesmo, Arthur”, o homem grisalho disse. “Se você quer saber, na verdade, eu não vi merda nenhuma a noite toda. Assim que eu pisei lá dentro, já me vi preso numa droga de uma história infindável com aquele merdinha daquele francês, ou merdinha daquele vienense — sei lá que bosta ele era. Esses estrangeirinhos de merda, sempre de olho aberto pra conseguir conselho jurídico de graça. Por quê? O que foi? A Joanie sumiu?”

“Ah, Jesus. Vai saber? Eu é que não sei. Você sabe como ela é quando fica toda tontinha e louca de vontade de ir embora. Eu é que não sei. Ela pode simplesmente ter —”

“Você ligou pros Ellenbogen?”, o homem grisalho perguntou.

“Liguei. Eles ainda não chegaram em casa. Sei lá. Jesus, eu nem sei direito se ela foi com eles. Uma coisa eu sei. Uma merda de uma coisa eu sei. Cansei de ficar fritando os miolos aqui. Sério. Dessa vez é sério. Chega. Cinco anos. Jesus.”

“Tudo bem, tente dar uma relaxada agora, Arthur”, o homem grisalho disse. “Em primeiro lugar, se eu conheço os Ellenbogen, eles provavelmente entraram todos num táxi e foram pro Village ficar mais umas horas. Os três vão provavelmente aparecer —”

“Eu estou com uma sensação de que ela mandou brasa com algum desgraçado na cozinha. Só uma sensação. Ela sempre começa a se enroscar com algum desgraçado na cozinha quando fica tonta. Chega. Juro por Deus que dessa vez é sério. Poxa, são cinco —”

“Onde é que você está agora, Arthur?”, o homem grisalho perguntou. “Em casa?”

“Isso. Em casa. Lar doce lar. Jesus.”

“Bom, só tente dar — Mas você está como? — bêbado ou não?” “Sei lá. Como é que eu vou saber, diabo?”

“Tudo bem, então, escuta. Relaxe. Só relaxe”, o homem grisalho disse. “Você conhece os Ellenbogen, meu Deus. O que provavelmente aconteceu foi que eles provavelmente perderam o último trem. Os três provavelmente vão aparecer aí na sua casa a qualquer minuto, cheios daquelas conversas inteligentes de —”

“Eles foram de carro.” “Como é que você sabe?”

“A babá. A gente andou batendo uns papos geniais pra cacete. Unha e carne. Cara de um, focinho do outro.”

“Tudo bem. Tudo bem. E daí? Quer ficar quietinho aí e relaxar, então?”, disse o homem grisalho. “Os três vão provavelmente aparecer aí na sua casa a qualquer minuto. Vai por mim. Você conhece a Leona. Eu não sei que merda que acontece — Eles ficam cheios dessa animação de Connecticut quando chegam a Nova York. Você sabe.”

“É. Eu sei. Eu sei. Só que sei lá.”

“Claro que sabe. Use a imaginação. Os dois provavelmente arrastaram fisicamente a Joanie —”

“Escuta. Nunca ninguém precisou arrastar a Joanie pra lugar nenhum.

Não me venha com isso de arrastarem ela.”

“Ninguém está querendo vir com essa de arrastarem ela, Arthur”, o homem grisalho disse tranquilo.

“Eu sei, eu sei! Desculpa. Jesus. Eu estou perdendo a cabeça. Jura por Deus, sério que eu não te acordei?”

“Se você tivesse me acordado eu te dizia, Arthur”, o homem grisalho disse. Distraído, ele tirou a mão que estava entre o braço e a parede do tórax da garota. “Olha, Arthur. Você quer um conselho?”, ele disse. Segurou o fio do telefone entre os dedos, logo abaixo do aparelho. “Assim, sobre isso, agora. Quer um conselho?”

“Quero. Sei lá. Jesus, eu não estou te deixando dormir. Por que é que eu não vou direto cortar os —”

“Escuta um minuto”, o homem grisalho disse. “Primeiro — assim, sobre isso, agora — vá pra cama e relaxe. Prepare uma bela de uma saideira pra você mesmo e se meta embaixo dos —”

“Saideira! Você está de brincadeira? Jesus, eu entornei quase um litro nas últimas duas horas, cacete. Saideira! Eu estou tão travado agora que eu mal—”

“Tudo bem. Tudo bem. Vá pra cama, então”, o homem grisalho disse. “E relaxe — tá me ouvindo? De verdade. Vai fazer algum bem você ficar aí sentado queimando os miolos?”

“É, eu sei. Eu não ia nem me preocupar, meu Deus, só que não dá pra confiar nela! Juro por Deus. Juro por Deus que não dá. Dá pra confiar nela só de ir até ali na — sei lá onde. Aaah, mas pra quê? Eu estou perdendo a porra da cabeça.”

“Tudo bem. Esqueça, agora. Esqueça, agora. Você consegue me fazer um favor e tenta tirar essa coisa toda da cabeça?”, o homem grisalho disse. “Vai que no fundo você está fazendo — eu sinceramente acho que você está fazendo uma tempestade —”

“Sabe o que eu faço? Você sabe o que eu faço? Eu morro de vergonha de dizer, mas sabe a merda que eu faço quase toda noite? Quando eu chego em casa? Quer saber?”

“Arthur, escuta, isso aqui não é —”

“Espera um segundo — eu vou te contar, cacete. Eu praticamente tenho que me conter pra não sair abrindo a porta de cada armário da merda do apartamento — juro por Deus. Toda noite eu chego em casa meio esperando encontrar um bando de filhos da puta escondidos por tudo quanto é lado. Ascensoristas. Entregadores. Policiais —”

“Tudo bem. Tudo bem. Vamos tentar levar isso com calma, Arthur”, o homem grisalho disse. Abruptamente ele lançou um olhar para a sua direita, onde um cigarro, aceso em algum momento anterior da noite, estava equilibrado num cinzeiro. Obviamente tinha se apagado, no entanto, e ele não o pegou. “Em primeiro lugar”, ele disse no telefone, “eu te disse várias, várias vezes, Arthur, que é exatamente aí que você comete o seu maior erro. Você sabe o que você faz? Quer que eu te diga o que você faz? Você faz questão — assim, sobre isso, agora — você literalmente faz questão de se torturar. A bem da verdade, você chega a inspirar a Joanie —” Ele se interrompeu. “Você tem uma sorte filha da puta dela ser uma menina ótima. Sério. Você não dá nenhum crédito pra menina, por ela ter bom gosto — ou cérebro, pelamordedeus, no fundo —”

“Cérebro! Você está de brincadeira? Ela não tem cérebro, cacete! Ela é um animal!”

O homem grisalho, com as narinas se dilatando, pareceu respirar bem fundo. “Nós todos somos animais”, ele disse. “Basicamente, nós todos somos animais.”

“Nem fodendo. Eu não sou animal, cacete. Eu posso ser um filho de uma puta de um imbecil todo estragado do século XX, mas animal eu não sou. Não me venha com essa. Eu não sou animal.”

“Olha, Arthur. Isso aqui não está —”

“Cérebro. Meu Deus, se você soubesse a graça que isso teve. Ela acha que é uma merda de uma intelectual. Isso que é engraçado, isso que é hilário. Ela lê a crítica de teatro no jornal, e assiste televisão até ficar praticamente cega — aí ela é intelectual. Você sabe com quem eu casei? Quer saber com quem eu casei? Eu casei com a maior atriz desconhecida em desenvolvimento, a maior romancista, psicanalista viva, com o maior gênio de Nova York, o gênio mais famoso e menos reconhecido, cacete. cê não sabia dessa, né? Jesus amado, é tão engraçado que me dá vontade de me esgoelar. A Madame Bovary dos Cursos de Extensão da Universidade Columbia. Madame —”

“Quem?”, perguntou o homem grisalho, soando irritado.

“Madame Bovary fazendo um curso de Apreciação de Televisão. Jesus, se você soubesse o quanto —”

“Tudo bem, tudo bem. Você está percebendo que assim a gente não chega a lugar nenhum”, o homem grisalho disse. Ele se virou e fez um sinal para a garota, com dois dedos perto da boca, de que queria um cigarro. “Em primeiro lugar”, ele disse, no telefone, “pra um sujeito inteligente pra diabo, é humanamente impossível você ter menos tato.” Ele endireitou a coluna para que a garota pudesse pegar os cigarros por trás dele. “Assim, desse jeito aí. Dá pra ver na sua vida particular, dá pra ver na sua —”

“Cérebro. Ah, meu Deus, essa foi de matar! Credo em cruz! Você já ouviu ela descrever alguém — algum sujeito, assim? Uma hora dessas quando você não tiver mais o que fazer, me faça o favor de pedir pra ela te descrever um sujeito. Ela descreve todo cara que vê como ‘extremamente atraente’. Pode ser o sujeito mais velho, mais fuleiro, mais seboso que —”

“Tudo bem, Arthur”, o homem grisalho disse cortante. “Isso aqui não está levando a nada. Mas nada mesmo.” Ele pegou um cigarro com a garota. Ela tinha acendido dois. “Só como quem não quer nada”, ele disse, soltando fumaça pelas narinas, “como é que foi hoje?”

“O quê?”

“Como é que você se saiu hoje?”, o homem grisalho repetiu. “Como foi o seu caso?”

“Ah, meu Deus! Sei lá. Uma droga. Coisa de dois minutos antes de eu estar todo prontinho pra começar as minhas alegações finais, o advogado do querelante, o Lissberg, me aparece com uma camareirinha com uma pilha de lençóis como prova — tudo cheio de mancha de percevejo. Jesus!”

“E aí o que aconteceu? Cê perdeu?”, perguntou o homem grisalho, tragando mais uma vez seu cigarro.

“Sabe quem estava na promotoria? O Vittorio, aquela matrona. O que diabos aquele cara tem contra mim, isso eu nunca vou saber. Eu mal abro a boca e o sujeito já cai matando. Não dá pra discutir racionalmente com um cara assim. É impossível.”

O homem grisalho virou a cabeça para ver o que a garota estava fazendo. Ela tinha catado o cinzeiro, que estava colocando entre eles. “Cê perdeu então, ou não?”, ele disse no telefone.

“O quê?”

“Eu disse, você perdeu?”

“Perdi. Eu ia te dizer. Não tive como, lá na festa, com aquele fuzuê. Cê acha que o Junior vai dar chilique? Não que eu dê a mínima, mas o que você acha? Acha que ele vai?”

Com a mão esquerda, o homem grisalho deu forma à cinza de seu cigarro na borda do cinzeiro. “Eu não acho que ele necessariamente vá dar chilique, Arthur”, ele disse tranquilo. “Mas há excelentes chances, digamos, de que ele não morra de felicidade com a história toda. Você sabe há quanto tempo a gente cuida da porra da conta desses três hotéis? Foi o velho Shanley em pessoa que começou toda essa —”

“Eu sei, eu sei. O Junior me contou isso pelo menos cinquenta vezes. É uma das histórias mais lindas que eu ouvi na vida. Tudo bem, então eu perdi a droga do caso. Em primeiro lugar, não foi culpa minha. Primeiro, aquele lunático do Vittorio ficou o julgamento todo me atiçando. Aí aquela retardada da camareira me começa a passar aqueles lençóis cheios de percevejos —”

“Ninguém está dizendo que é culpa sua, Arthur”, o homem grisalho disse. “Você me perguntou se eu achava que o Junior ia dar chilique. Eu simplesmente fui honesto e te —”

“Eu sei — eu sei disso… sei lá. Que diabo. Eu posso acabar é voltando pro exército. Te falei dessa?”

O homem grisalho virou a cabeça de novo para a garota, talvez para lhe mostrar o quanto sua expressão era tolerante, e até estoica. Mas a garota perdeu a chance de ver. Ela acabava de virar o cinzeiro com o joelho e estava rapidamente, com os dedos, varrendo as cinzas para formar um montinho recolhível; seus olhos se ergueram para ele com um segundo de atraso. “Não, não falou, Arthur”, ele disse no telefone.

“É. Até posso. Eu ainda não sei. Eu não morro de amores pela ideia, claro, e não vou se der pra evitar. Mas talvez eu tenha que ir. Sei lá. Pelo menos é um exílio. Se eles me devolverem o meu capachinho e aquela mesona enorme e o meu mosquiteiro grandão, podia até não —”

“Eu queria era te dar na cara até você criar juízo, rapaz, isso é o que eu queria fazer”, o homem grisalho disse. “Pra um sujeito hiper— Pra um sujeito supostamente inteligente, você fala igualzinho a uma criança. E eu te digo isso com toda a sinceridade. Você deixa um monte de coisinhas miúdas virarem uma bola de neve de um tal jeito que elas ficam tão fundamentais na sua cabeça que você fica absolutamente imprestável pra qualquer —”

“Eu devia ter dado um pé na bunda dela. Quer saber? Eu devia ter dado jeito nisso no verão passado, quando eu estava com tudo a meu favor — quer saber? Sabe por que eu não fiz isso? Você quer saber por que eu não fiz isso?”

“Arthur. Pelamordedeus. Isso aqui não vai dar é em nada.”

“Espera um segundo. Deixeutecontar! Quer saber por que eu não fiz? Eu posso te dizer exatamente o porquê. Porque eu fiquei com pena dela. Essa é toda a verdade e nada mais que a verdade. Fiquei com pena dela.”

“Bom, sei lá. Assim, isso não é da minha alçada”, o homem grisalho disse. “Mas o que me parece é que a única coisa que aparentemente você está esquecendo é que a Joanie é uma mulher adulta. Sei lá, mas me parece que —”

“Adulta! cê pirou? Ela é uma criança crescida, pelamordedeus! Escuta, eu ali fazendo a barba — escuta só — eu ali fazendo a barba, e do nada ela me chama lá da puta que pariu do outro lado do apartamento. Eu vou lá ver o que ela quer — bem no meio da barba, com a cara toda lambrecada de espuma. Sabe o que ela quer? Ela quer me perguntar se eu acho que ela tem uma cabeça boa. Te juro por Deus. Ela é ridícula, vai por mim. Eu fico olhando quando ela está dormindo, e eu sei do que eu estou falando. Pode crer.”

“Bom, está aí uma coisa que você sabe melhor que — assim, isso não é da minha alçada”, o homem grisalho disse. “Mas o negócio, cacete, é que você não faz nadinha que seja construtivo pra —”

“A gente não combina, é isso. A história se resume a isso. A gente não combina nem a pau. Sabe do que ela precisa? Ela precisa de um puta de um safado que simplesmente apareça e quebre com ela — e aí volte lá pra terminar de ler o jornal dele. É disso que ela precisa. Eu sou fraco demais pra ela, cacete. Eu sabia quando a gente casou — te juro por Deus que eu sabia. Assim, você é inteligente, cara, você nunca foi casado, mas de vez em quando, antes da pessoa casar, ela tem esses lampejos do que vai ser depois do casamento. Eu ignorei. Eu ignorei a merda dos lampejos. Eu sou fraco. A coisa toda não passa disso.”

“Você não é fraco. Só não usa a cabeça”, o homem grisalho disse, aceitando um cigarro que a garota acabava de acender.

“Mas claro que eu sou fraco! Claro que eu sou fraco! Cacete, eu que sei se eu sou fraco ou não sou! Se eu não fosse fraco, você não acha que eu ia ter deixado tudo ficar tão — Aah, quequeadianta ficar falando? Claro que eu sou fraco… Jesus, eu vou te deixar acordado a noite toda. Por que é que você não bate logo essa merda desse telefone na minha cara? Sério. Desliga na minha cara.”

“Eu não vou desligar na sua cara, Arthur. Eu queria te ajudar, se for humanamente possível”, o homem grisalho disse. “No fundo, você é o seu pior —”

“Ela não me respeita. Ela nem me ama, cacete. Basicamente — em última análise, eu também não tenho mais amor por ela. Sei lá. Tenho e não tenho. Varia. Flutua. Jesus! Toda vez que eu me preparo todo pra marcar uma posição, a gente sai pra jantar, por alguma razão, e eu encontro com ela em algum lugar e ela me aparece com uma merda de uma luva branca ou sei lá o quê. Sei lá. Ou eu começo a pensar na primeira vez que a gente foi de carro pra New Haven, ver o jogo de Princeton. Um pneu furou assim que a gente saiu da Parkway, e estava um frio do diabo, e ela ficou segurando a lanterna enquanto eu trocava aquela porcaria — Você sabe como é isso. Sei lá. Ou eu começo a pensar — Jesus, é de dar vergonha — eu começo a pensar na merda do poeminha que eu mandei pra ela quando a gente começou a sair junto. ‘Rosa é minha cor, e branca; Linda a boca, e verdes meus olhos.’ Jesus, é de dar vergonha — isso fazia eu lembrar dela. Ela não tem olho verde — os olhos dela parecem umas conFhinhas, cacete —, mas me fazia lembrar mesmo assim… Sei lá. Quequeadianta falar? Eu estou perdendo a cabeça. Desligue na minha cara, anda! Sério.”

O homem grisalho limpou a garganta e disse, “Eu não tenho a intenção de desligar na sua cara, Arthur. Tem só uma —”.

“Ela me comprou um terno uma vez. Com o dinheiro dela. Te contei essa?”

“Não, eu —”

“Ela simplesmente entrou acho que na Tripler e comprou. Eu nem fui com ela. Assim, ela tem umas coisas pra lá de bacanas. O engraçado é que nem me caiu mal. Eu só tive que mandar fazer uma pence atrás — das calças — e na barra. Assim, ela tem umas coisas pra lá de bacanas.”

O homem grisalho ficou ouvindo por mais um momento. Então, abruptamente, ele se virou para a garota. O olhar que ele lhe deu, ainda que mero relance, informou-lhe plenamente o que estava subitamente acontecendo do outro lado da linha. “Agora, Arthur. Escuta. Isso não vai te levar a nada”, ele disse no telefone. “Isso não vai te levar a nada. Sério. Agora, escuta. Eu te digo isso com toda a sinceridade. Me faz o favor de pôr um pijama e ir pra cama, bem bonzinho? E relaxar? A Joanie provavelmente vai estar aí em dois minutos. Você não quer que ela te veja assim, não é verdade? Os filhos da puta dos Ellenbogen vão provavelmente aparecer aí com ela. Você não quer que a tropa toda te veja desse jeito, não é verdade?” Ele ficou ouvindo. “Arthur? Está me ouvindo?”

“Jesus, eu vou te deixar acordado a noite toda. Tudo que eu faço, eu —” “Você não está me deixando acordado a noite toda”, o homem grisalho disse. “Nem pense uma coisa dessas. Eu já te disse que eu ando dormindo uma média de quatro horas por noite. Mas o que eu queria fazer, desde que seja humanamente possível, é que eu queria te ajudar, rapaz.” Ele ficou ouvindo. “Arthur? Você está aí?”

“Estou. Estou aqui. Escuta. Eu já te deixei acordado a noite toda mesmo.

Posso passar aí na sua casa pra tomar alguma coisa? Tudo bem por você?”

O homem grisalho endireitou as costas e pôs a palma da mão no topo da cabeça, e disse, “Agora, assim?”.

“É. Assim, se por você estiver tudo bem. Vai ser rapidinho. Eu só queria sentar um pouco e — sei lá. Tudo bem?”

“Tudo bem, mas o negócio é que eu acho que você não devia, Arthur”, o homem grisalho disse, tirando a mão da cabeça. “Assim, claro que vai ser um prazer te receber, mas honestamente eu acho que você devia ficar bem quietinho aí e relaxar até a Joanie aparecer na porta. Honestamente. O que voFê precisa agora é que você precisa estar bem aí quando ela aparecer na porta. Eu tenho ou não tenho razão?”

“É. Sei lá. Juro por Deus que eu não sei.”

“Bom, mas eu sei, honestamente”, o homem grisalho disse. “Olha. Por que é que você não vai direto pra cama agora, relaxa, e aí depois, se você estiver a fim, me dá uma ligada. Assim, se você estiver a fim de conversar. E não se preoFupe. Isso que é o principal. Está me ouvindo? Você vai fazer isso agora?”

“Tudo bem.”

O homem grisalho ficou ainda um momento segurando o telefone contra a orelha, depois o colocou no gancho.

“O que foi que ele disse?”, a garota imediatamente perguntou.

Ele pegou seu cigarro que estava no cinzeiro — ou seja, selecionou o cigarro dentre um acúmulo de cigarros fumados e meio fumados. Arrancou- o dali e disse, “Ele queria passar aqui pra tomar alguma coisa”.

“Jesus! E você disse o quê?”, disse a garota.

“Você me ouviu”, o homem grisalho disse, e olhou para ela. “Você estava ouvindo. Não estava?” Ele amassou o cigarro.

“Você foi incrível. Absolutamente incrível”, a garota disse, olhando para ele. “Meu Deus, eu estou me sentindo uma droga!”

“Bom”, o homem grisalho disse, “é uma situação cabeluda. Não sei quanto eu fui incrível.”

“Foi sim. Você foi incrível”, a garota disse. “Eu estou mole. Eu estou todinha mole. Olha só!”

O homem grisalho olhou para ela. “Bom, no fundo é uma situação impossível”, ele disse. “Assim, a coisa toda é tão bizarra que nem —”

“Querido — Desculpa”, a garota disse rápido, e se inclinou para a frente. “Eu acho que você está pegando fogo.” Ela tocou o dorso da mão dele com um breve gesto enérgico da ponta dos dedos. “Não. Era só uma cinza.” Ela se reclinou. “Não, você foi incrível”, ela disse. “Meu Deus, eu estou me sentindo uma droga Fompleta!”

“Bom, é uma situação muito, mas muito complicada. O sujeito obviamente está passando por uma completa —”

O telefone subitamente tocou.

O homem grisalho disse, “Jesus!”, mas atendeu antes do segundo toque. “Alô?”, ele disse no aparelho.

“Lee? Você estava dormindo?” “Não, não.”

“Escuta, eu achei que você ia querer saber. A Joanie acabou de aparecer.” “Como?”, disse o homem grisalho, e cobriu os olhos com a mão esquerda, embora a luz estivesse atrás dele.

“É. Ela acabou de aparecer. Coisa de dez segundos depois que a gente desligou. Eu só quis te dar uma ligada enquanto ela está no banheiro. Escuta, muitíssimo obrigado, Lee. Sério — você sabe como é. Você não estava dormindo, né?”

“Não, não. Eu estava só — Não, não”, o homem grisalho disse, deixando os dedos diante dos olhos. Ele limpou a garganta.

“Então. O que aconteceu, parece, foi que a Leona ficou podre de bêbada e aí teve um ataque de choro dos diabos, e o Bob quis que a Joanie fosse tomar alguma coisa com eles em algum lugar pra ajeitar a situação. Sei lá eu. VoFê sabe. Hipercomplicado. Enfim, então ela está em casa. Que confusão. Juro por Deus, acho que é essa merda de Nova York. O que eu acho que talvez eu acabe fazendo é que, se tudo andar direitinho, a gente vai quem sabe comprar uma casinha em Connecticut. Não muito longe de tudo, necessariamente, mas longe o suficiente pra gente poder ter uma droga de uma vida normal. Assim, ela adora planta e essas coisas. Ela provavelmente ia ficar doidinha se tivesse um jardim e coisa e tal. Sabe como? Assim — fora você — quem que a gente conhece em Nova York, a não ser um bando de neurótico? Não tem como não afetar até a pessoa mais normal do mundo cedo ou tarde. Sabe como?”

O homem grisalho não tinha resposta. Seus olhos, por trás da mão, estavam fechados.

“Enfim, eu vou conversar com ela hoje. Ou amanhã, quem sabe. Ela ainda está meio mal das pernas. Assim, no geral ela é uma menina excelente, e se a gente tiver uma chance de botar as coisas em ordem, um pouco, a gente ia ser estúpido pra cacete se não desse pelo menos uma tentada. Aliás, eu também vou tentar ajeitar essa zona toda dos percevejos. Eu estava aqui pensando. Eu estava só pensando, Lee. Será que se eu fosse lá conversar pessoalmente com o Junior, você acha que eu podia —”

“Arthur, se você não se incomoda, eu ia agradecer —”

“Assim, eu não quero que você fique pensando que eu só te liguei de novo e tal porque estava preoFupado com a merda do meu emprego e tal. Não é isso. Assim, basicamente, poxa, eu estou pouco me lixando. Eu só estava pensando que se desse pra eu acertar as coisas com o Junior sem espremer os meus miolos, eu ia ser um imbecil se —”

“Escuta, Arthur”, o homem grisalho interrompeu, tirando a mão do rosto. “Eu fiquei com uma dor de cabeça horrorosa de repente. Não sei de onde que essa merda me apareceu. Tudo bem se a gente parar por aqui? A gente se fala de manhã — está certo?” Ele ficou mais um momento ouvindo, depois desligou.

De novo a garota falou imediatamente com ele, mas ele não respondeu. Catou um cigarro aceso — o da garota — no cinzeiro e foi levando até a boca, mas ele lhe escorregou por entre os dedos. A garota tentou ajudá-lo a pegar o cigarro antes que alguma coisa pegasse fogo, mas ele lhe disse para simplesmente ficar quietinha, pelamordedeus, e ela retirou a mão.

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