O Gargalhada – J.D. Salinger

By | March 24, 2023

Em 1928, quando tinha nove anos de idade, eu pertenci, com o máximo esprit de corps, a uma organização conhecida como Clube Comanche. Toda tarde depois da escola, às três horas, vinte e cinco Comanches eram apanhados pelo nosso Cacique na saída dos meninos da Escola Primária 165, na rua 109 perto da avenida Amsterdam. Nós então abríamos caminho a socos e empurrões até o ônibus comercial reformado do Cacique, e ele nos levava (segundo seu acordo financeiro com nossos pais) até o Central Park. No resto da tarde, se o clima permitisse, nós jogávamos futebol, americano ou não, ou beisebol, a depender (de modo muito pouco estrito) da temporada do ano. Nas tardes chuvosas, o Cacique invariavelmente nos levava ou ao Museu de História Natural ou ao Metropolitan Museum of Art. Nos sábados e quase sempre nos feriados nacionais o Cacique ia nos pegar de manhã cedo nos prédios em que morávamos e, com seu ônibus com jeito de condenado, levava todos nós para fora de Manhattan, para os espaços comparativamente amplos do Van Cortlandt Park ou das Palisades. Se estivéssemos pensando só em esporte, íamos até o Van Cortlandt, onde os campos eram oficiais e o time adversário não incluía carrinhos de bebê ou uma velhinha furibunda e sua bengala. Se nossos corações comanches estivessem decididos a acampar, íamos até as Palisades encarar a natureza. (Lembro de ter ficado perdido num certo sábado em algum ponto daquele pedaço complicado do terreno entre a placa da Linit e a base oeste da ponte George Washington. Mas eu não perdi a cabeça. Só fui sentar à majestosa sombra de um gigantesco outdoor e, ainda que às lágrimas, abri os trabalhos da minha lancheirinha, semiconfiante de que o Cacique me encontraria. O Cacique sempre nos encontrava.)

Em suas horas de liberdade dos Comanches, o Cacique era John Gedsudski, de Staten Island. Ele era um rapaz extremamente tímido e delicado, de seus vinte e dois ou vinte e três anos de idade, aluno de direito na NYU, e de maneira geral uma pessoa muito memorável. Não vou tentar elencar aqui suas várias realizações e virtudes. Apenas de passagem, ele era Escoteiro Pioneiro, um defensor de futebol americano que quase ficou entre os melhores de 1926, e todos sabiam que tinha sido convidado para a peneira do time de beisebol dos New York Giants. Era um árbitro imparcial e inabalável no caos dos nossos eventos esportivos, expert em construção e apagamento de fogueiras, e dotado de competência e ausência de desprezo pelos primeiros socorros. Cada um de nós, do menor ao maior dos baderneiros, adorava e respeitava o Cacique.

A aparência física do Cacique em 1928 ainda está clara na minha memória. Se a vontade conferisse estatura, todos os Comanches diriam de pronto que se tratava de um gigante. Mas como a vida real é diferente, ele era troncudo, com um e sessenta ou um e sessenta e dois — nada mais. Seu cabelo era preto azulado e começava bem baixo na testa, seu nariz era grande e carnudo, e seu torso tinha praticamente o comprimento das pernas. Com sua jaqueta de couro, ele tinha ombros imponentes, mas estreitos e caídos. Na época, no entanto, me parecia que todos os traços mais fotogênicos de Buck Jones, Ken Maynard e Tom Mix tinham sido perfeitamente amalgamados no Cacique.

Toda tarde, quando ficava escuro o suficiente para que o time que estivesse perdendo pudesse ter uma desculpa para os erros em várias bolas altas no beisebol ou passes longos no futebol americano, os Comanches confiavam sólida e egoisticamente no talento de narrador do Cacique. Àquela hora nós normalmente éramos um grupinho agitado e irritadiço, e brigávamos uns com os outros — com os punhos cerrados ou com nossas vozes agudas — pelos assentos do ônibus mais próximos do Cacique. (O ônibus tinha duas fileiras paralelas de assentos de palha. A da esquerda tinha três assentos a mais — os melhores de todos — que se estendiam até a altura do perfil do motorista.) O Cacique subia no ônibus apenas quando estivéssemos acomodados. Aí ele sentava ao contrário no banco do motorista e, com sua voz de tenor fanhosa mas modulada, nos fornecia o novo capítulo de “O Gargalhada”. Depois que ele começava a narrar, nosso interesse nunca diminuía. “O Gargalhada” era a história perfeita para um Comanche. Podia até ter dimensões clássicas. Era uma história com tendências a se espalhar por toda parte, e mesmo assim se mantinha essencialmente portátil. Você sempre podia levar a história para casa com você e ficar refletindo a respeito dela enquanto, digamos, esperava sentado a água escorrer pelo ralo da banheira.

Filho único de um casal muito rico de missionários, o Gargalhada foi raptado ainda na infância por bandidos chineses. Quando o rico casal de missionários se recusou (por convicção religiosa) a pagar o resgate do filho, os bandidos, nitidamente irritados, colocaram a cabeça do menino numa prensa de carpinteiro e giraram a alavanca adequada várias vezes em sentido horário. A vítima dessa experiência singular chegou à vida adulta com uma cabeça calva, em formato de noz-pecã, e um rosto que apresentava, em vez de uma boca, uma imensa cavidade oral abaixo do nariz. O nariz, por sua vez, consistia em duas narinas fechadas pela carne. Em consequência, quando o Gargalhada respirava, o hediondo buraco desprovido de alegria que ficava sob seu nariz se dilatava e se contraía como (na minha imaginação) alguma espécie monstruosa de vacúolo. (O Cacique demonstrava, mais do que explicava, o método de respiração do Gargalhada.) Desconhecidos desmaiavam de pronto ao verem o horrendo rosto do Gargalhada. Seus conhecidos o evitavam. Mas curiosamente os bandidos permitiam que ele ficasse pelo seu quartel-general — desde que mantivesse o rosto coberto por uma leve máscara cor-de-rosa, feita de pétalas de papoula. A máscara não apenas poupava os bandidos da visão do rosto de seu filho adotivo, mas também os deixava capazes de sentir seu paradeiro; nessas circunstâncias, ele fedia a ópio.

Toda manhã, em sua extrema solidão, o Gargalhada se esgueirava (ele tinha o passo leve de um gato) até a densa floresta que cercava o esconderijo dos bandidos. Ali fez amizade com todo tipo e toda espécie de animais: cães, camundongos brancos, águias, leões, jiboias, lobos. Mais ainda, ele tirava a máscara e conversava com eles, baixinho, melodiosamente, na língua dos bichos. Eles não o achavam feio.

(O Cacique precisou de uns meses para chegar a esse ponto da história. A partir daí, ele foi ficando cada vez mais ditatorial com seus capítulos, o que agradava absolutamente aos Comanches.)

O Gargalhada era uma pessoa que prestava muita atenção, e rapidamente descobriu os mais valiosos segredos profissionais dos bandidos. Mas ele não os tinha em muito alta conta, e nem pensou duas vezes antes de iniciar um sistema particular dele, mais eficiente. Primeiro numa escala bem pequena, começou a trabalhar por conta própria no interior da China, roubando, raptando, e assassinando quando estritamente necessário. Logo seus engenhosos métodos criminais, somados a seu singular amor pelo jogo limpo, renderam-lhe um lugar afetivo no coração da nação. Por mais estranho que parecesse, seus pais adotivos (os bandidos que originalmente o levaram a pensar na vida de crime) estiveram entre os últimos a ficar sabendo de suas realizações. Quando souberam, foram tomados por um ciúme enlouquecedor. Certa noite, eles todos fizeram fila ao lado da cama do Gargalhada, achando que as drogas que lhe haviam dado teriam metido o sujeito num sono profundo, e com seus machetes eles foram golpeando a figura que estava sob os cobertores. Mas no fim a vítima era a mãe do bandido-chefe — uma pessoa desagradável e reclamona. O fato apenas aumentou a sede dos bandidos pelo sangue do Gargalhada, e ele acabou sendo obrigado a trancar todos num mausoléu profundo mas com uma decoração agradável. Eles de vez em quando escapavam e lhe causavam algum aborrecimento, mas ele se recusava a matá-los. (Havia um lado piedoso no personagem do Gargalhada que me deixava praticamente louco.)

Logo o Gargalhada já atravessava o tempo todo a fronteira chinesa para ir a Paris, onde gostava de exibir seu gênio incrível mas modesto diante de Marcel Dufarge, detetive internacionalmente famoso, espirituoso e tuberculoso. Dufarge e sua filha (uma menina linda, ainda que tivesse algo de travesti) tornaram-se os piores inimigos do Gargalhada. Vezes sem fim tentaram passar a perna no Gargalhada. Só para se divertir, o Gargalhada normalmente deixava que eles encaminhassem bem seus planos e então sumia, frequentemente sem deixar sequer a mais vagamente razoável indicação de seu método de fuga. De vez em quando ele deixava um bilhetinho incisivo de adeus no sistema de esgotos de Paris, que era imediatamente entregue à bota de Dufarge. Os Dufarge passavam uma enormidade de seu tempo chapinhando pelos esgotos de Paris.

Logo o Gargalhada tinha amealhado a maior fortuna pessoal do mundo. Quase tudo ele doava anonimamente para os monges de um mosteiro local — humildes ascetas que dedicavam a vida à criação de cães policiais alemães. O que restava de sua fortuna, o Gargalhada convertia em diamantes, que casualmente mergulhava, dentro de cofres de esmeralda, no mar Negro. Suas necessidades pessoais eram poucas. Ele vivia exclusivamente de arroz e sangue de águia, numa cabana minúscula com um ginásio esportivo e uma pista de tiro ao alvo no subterrâneo, no tempestuoso litoral do Tibete. Quatro comparsas cegamente leais moravam com ele: um volúvel lobo cinzento chamado Asa Negra, um anão adorável chamado Omba, um mongol gigante chamado Hong, que tivera a língua queimada pelos brancos, e uma lindíssima moça eurasiana, que, movida pelo amor não correspondido que sentia pelo Gargalhada e por uma profunda preocupação com a segurança dele, por vezes tinha uma atitude desagradável quanto à vida de crimes. O Gargalhada dava suas ordens ao bando através de uma tela de seda negra. Nem mesmo Omba, o adorável anão, tinha autorização para ver seu rosto.

Eu não estou dizendo que vou fazer isso, mas se quisesse eu podia ficar horas conduzindo o leitor — por força, se fosse necessário — em idas e vindas pela fronteira Paris-China. Eu na verdade considero o Gargalhada alguma espécie de ancestral extra famoso da minha família — uma espécie de Robert E. Lee, digamos, com as devidas virtudes conservadas na água ou no sangue. E essa ilusão é meramente moderada na comparação com a que eu tinha em 1928, quando me considerava não apenas descendente direto do Gargalhada, mas seu único descendente legítimo vivo. Eu não era nem filho dos meus pais em 1928, mas um impostor diabolicamente sutil, à espera do menor deslize deles como desculpa para agir — se possível, mas não necessariamente, sem violência — e afirmar minha verdadeira identidade. Como precaução para não partir o coração da minha falsa mãe, eu planejava levá-la para trabalhar comigo no submundo em alguma função não definida mas adequadamente nobre. Mas a principal coisa que eu tinha que fazer em 1928 era tomar cuidado. Fingir que participava daquela farsa. Escovar os dentes. Pentear o cabelo. A qualquer custo, conter minha horrenda gargalhada natural.

Na verdade, eu não era o único descendente legítimo vivo do Gargalhada. Havia vinte e cinco Comanches no Clube, ou vinte e cinco descendentes legítimos vivos do Gargalhada — todos nós circulando agourentos e anônimos pela cidade inteira, de olho nos ascensoristas, arqui-inimigos em potencial, sussurrando ordens fluentes mas dadas pelo canto da boca para algum cocker spaniel, desenhando alvos, com o indicador, na testa de professoras de matemática. E sempre esperando, esperando uma oportunidade decente de provocar pavor e admiração no coração medíocre mais próximo de nós.

Numa tarde de fevereiro, logo depois de iniciada a temporada de beisebol dos Comanches, eu percebi um novo elemento no ônibus do Cacique. Sobre o espelho retrovisor do para-brisa, havia uma pequena fotografia emoldurada de uma garota com uma beca e um capelo acadêmicos. Eu sentia que a foto de uma garota não combinava com aquele tom apenas-para-homens do ônibus, e acabei perguntando sem meias palavras ao Cacique quem era ela. Ele primeiro tergiversou, mas acabou admitindo que se tratava de uma garota. Eu lhe perguntei o nome dela. Ele respondeu sem muita boa vontade, “Mary Hudson”. Eu lhe perguntei se ela era artista de cinema ou alguma coisa assim. Ele disse que não, que ela frequentava o Wellesley College. Acrescentou, num comentário que pareceu lhe surgir lentamente, que o Wellesley College era uma universidade de altíssimo nível. Mas eu perguntei para que a foto dela estava no ônibus. Ele deu de ombros, levemente, como que para insinuar, ao que me parecia, que a foto tinha lhe sido basicamente imposta.

Durante as semanas seguintes, o retrato — por mais que tivesse sido imposto ao Cacique por força ou por acaso — não foi retirado do ônibus. Ele não foi recolhido com as embalagens de chocolate e os pedaços de doce de alcaçuz que caíam. Contudo, nós, os Comanches, acabamos nos acostumando com ele. Ele aos poucos ganhou a personalidade opaca de um velocímetro.

Mas um dia, enquanto íamos para o parque, o Cacique encostou o ônibus na Quinta Avenida, na altura da rua 60, quase um quilômetro antes do nosso campo de beisebol. Uns vinte palpiteiros imediatamente exigiram explicação, mas o Cacique não os atendeu. Em vez disso, ele simplesmente assumiu sua posição de narrador e caiu prematuramente num novo capítulo de “O Gargalhada”. Mas mal tinha começado quando alguém bateu na porta do ônibus. Os reflexos do Cacique estavam afiadíssimos naquele dia. Ele literalmente rodopiou no assento, deu um puxão na alavanca que abria a porta, e uma garota com um casaco de pele de castor subiu no ônibus.

Assim de improviso, eu só consigo lembrar de três garotas na minha vida toda que me deram a impressão de ter uma beleza inclassificavelmente grande à primeira vista. Uma foi uma menina magra com um maiô preto que estava tendo muita dificuldade para armar um guarda-sol alaranjado em Jones Beach, lá por 1936. A segunda foi uma moça que estava a bordo de um navio de cruzeiro no Caribe em 1939, que jogou seu isqueiro num boto. E a terceira foi a garota do Cacique, Mary Hudson.

“Estou muito atrasada?”, ela perguntou ao Cacique, sorrindo para ele. Daria na mesma se ela tivesse perguntado se era feia.

“Não!”, o Cacique disse. Com um leve toque de descontrole, ele olhou para os Comanches que estavam perto de seu banco e fez sinal para que aquela fileira abrisse espaço. Mary Hudson sentou-se entre mim e um menino chamado Edgar não sei das quantas, que tinha um tio cujo melhor amigo fabricava bebida clandestina. Nós lhe abrimos todo o espaço do mundo. Então o ônibus deu partida, num ritmo arrastado, peculiar, amadorístico. Os Comanches, do primeiro ao último, estavam calados.

Na volta até o lugar onde normalmente nós estacionávamos, Mary Hudson se inclinou para a frente e fez ao Cacique um relato entusiasmado dos trens que tinha perdido e do trem que não tinha perdido; ela morava em Douglaston, Long Island. O Cacique estava muito nervoso. Ele não apenas deixou de contribuir com algo para a conversa; mal conseguia ouvir o que ela dizia. A bola da alavanca de câmbio saiu na mão dele, eu lembro.

Quando descemos do ônibus, Mary Hudson ficou bem ali conosco. Tenho certeza de que quando chegamos ao campo de beisebol cada um dos Comanches tinha no rosto uma expressão de certas-garotas-simplesmente- não-sabem-a-hora-de-ir-embora. E para o cúmulo da desgraça, quando outro Comanche e eu estávamos jogando cara ou coroa para decidir qual time ia arremessar primeiro, Mary Hudson toda esperançosa manifestou seu desejo de participar do jogo. A reação a isso não poderia ter sido mais inequívoca. Se antes os olhos dos Comanches estavam simplesmente fixos na sua mulheridade, agora ficaram arregalados. Ela sorriu em resposta. Foi um pouco desorientador. Então o Cacique tomou as rédeas da situação, revelando um talento antes oculto para a incompetência. Ele levou Mary Hudson para longe, só o suficiente para os Comanches não poderem ouvir, e pareceu se dirigir a ela de maneira solene e racional. Depois de um tempo, Mary Hudson o interrompeu, e sua voz foi perfeitamente audível para os Comanches. “Mas eu quero”, ela disse. “Eu quero jogar sim!” O Cacique concordou com a cabeça e tentou de novo. Ele apontou na direção do campo onde ficavam as bases, todo encharcado e cheio de buracos. Ele pegou um taco oficial e demonstrou seu peso. “E daí?”, Mary Hudson disse nitidamente. “Eu viajei isso tudo até Nova York — pro dentista e tudo mais — e eu vou jogar.” O Cacique concordou de novo com a cabeça e desistiu. Ele caminhou cautelosamente até a base, onde os Bravos e os Guerreiros, os dois times comanches, estavam à espera, e olhou para mim. Eu era o capitão dos Guerreiros. Ele mencionou o nome do meu center fielder habitual, que estava doente em casa, e sugeriu que Mary Hudson ficasse no lugar dele. Eu disse que não precisava de center fielder. O Cacique me perguntou que diabo era aquilo de não precisar de center fielder. Eu fiquei chocado. Foi a primeira vez que vi o Cacique usar uma palavra mais pesada. E mais ainda, eu podia sentir o sorriso que Mary Hudson me dedicava. Para não perder a elegância, peguei uma pedra e joguei contra uma árvore.

Nós arremessamos primeiro. A center fielder não teve o que fazer no primeiro inning. De onde eu estava, na primeira base, de vez em quando dava uma espiada para trás. Toda vez que eu espiava, Mary Hudson acenava alegre para mim. Estava usando uma luva de apanhador, por sua própria e inflexível escolha. Era uma visão horrorosa.

Mary Hudson era a nova rebatedora dos Guerreiros. Quando eu a informei dessa situação, ela fez uma carinha e disse, “Bom, então vamos logo com isso”. E para falar a verdade parece que nós nos apressamos mesmo. Ela teve chance de rebater já no primeiro inning. Tirou seu casaco de castor — e a luva de apanhador — para a ocasião, e seguiu para a base com um vestido marrom-escuro. Quando lhe dei um taco, ela me perguntou por que era tão pesado. O Cacique abandonou sua posição de árbitro atrás do arremessador e se aproximou angustiado. Ele disse para Mary Hudson descansar a ponta do taco no ombro direito. “Eu estou fazendo isso”, ela disse. Ele lhe disse para não apertar demais as mãos no taco. “Eu não estou apertando”, ela disse. Ele lhe disse para ficar bem de olho na bola. “Eu vou ficar”, ela disse. “Sai da frente.” Ela sentou o braço na primeira bola que arremessaram para ela, que passou por cima da cabeça do left fielder. Normalmente valeria duas bases, mas Mary Hudson chegou à terceira — de pé.

Quando meu assombro passou, e depois minha reverência, e depois meu encanto, eu olhei para o Cacique. Parecia que ele não estava meramente atrás do arremessador, mas sim flutuando acima dele. Era um homem absolutamente feliz. Lá da terceira base, Mary Hudson acenava para mim. Eu acenei também. Não teria conseguido evitar, mesmo que quisesse. Descontadas as suas habilidades com o taco, ela simplesmente era uma garota que sabia acenar para alguém lá da terceira base.

No restante do jogo, ela ganhou bases toda vez que rebateu. Por algum motivo, parecia que ela odiava a primeira base; não tinha como segurar a moça ali. Pelo menos três vezes ela chegou à segunda.

Ela não podia ser pior quando o time estava na defesa, mas nós estávamos ganhando bases demais para que isso fosse um grande problema. Acho que teria sido melhor se ela tentasse pegar bolas com praticamente qualquer coisa, menos uma luva de apanhador. Só que ela não tirava a luva. Dizia que era bonitinha.

Durante mais ou menos um mês, depois disso, ela jogou beisebol com os Comanches algumas vezes por semana (sempre que tinha consulta com o dentista, aparentemente). Às vezes encontrava o ônibus na hora certa, às vezes chegava atrasada. Às vezes ela falava pelos cotovelos no ônibus, às vezes só ficava sentada fumando seus cigarros Herbert Tareyton (com filtros de cortiça). Quando você ficava do lado dela no ônibus, ela tinha o cheiro de algum perfume maravilhoso.

Num dia frio de abril, depois de parar para nos pegar como sempre às três horas na esquina da 109 com a Amsterdam, o Cacique virou o ônibus lotado para a 110 e desceu tranquilamente a Quinta Avenida. Mas seu cabelo estava penteado e úmido, ele estava com seu sobretudo em vez da jaqueta de couro, e eu supus com alguma segurança que Mary Hudson iria se juntar a nós. Quando passamos direto pela nossa entrada do parque, eu tive certeza. O Cacique estacionou o ônibus na esquina, na altura da rua 60, que era adequada a essas ocasiões. Então, para matar o tempo de modo indolor para os Comanches, ele virou para trás, abraçando o encosto do banco com as pernas, e soltou mais um capítulo de “O Gargalhada”. Eu lembro do capítulo nos mínimos detalhes, e preciso fazer um breve resumo dele.

Um fluxo de circunstâncias jogou o melhor amigo do Gargalhada, seu lobo cinzento chamado Asa Negra, numa armadilha física e intelectual preparada pelos Dufarge. Os Dufarge, sabendo do elevado senso de lealdade do Gargalhada, ofereceram-lhe a liberdade de Asa Negra em troca da sua. Com a maior boa-fé do mundo, o Gargalhada concordou com essas condições. (Alguns detalhes menores da mecânica de seu gênio ficavam muitas vezes sujeitos a misteriosas pequenas panes.) Combinou-se que o Gargalhada iria encontrar os Dufarge à meia-noite num certo trecho da densa floresta que cercava Paris, e ali, à luz da lua, Asa Negra seria libertado. Contudo, os Dufarge não tinham a menor intenção de libertar Asa Negra, que temiam e odiavam. Na noite da transação, eles acorrentaram outro lobo cinzento no lugar de Asa Negra, tingindo primeiro de um branco igual ao da neve a sua pata traseira esquerda, para que ficasse parecida com a de Asa Negra.

Mas havia duas coisas com que os Dufarge não tinham contado: a sentimentalidade do Gargalhada e seu domínio da língua dos lobos cinzentos. Assim que permitiu que a filha de Dufarge o prendesse com arame farpado a uma árvore, o Gargalhada sentiu o desejo de levantar sua linda voz melodiosa, numas poucas palavras de adeus a seu suposto velho amigo. O substituto, a poucos enluarados metros dali, impressionou-se com o domínio da língua demonstrado pelo desconhecido e ficou educadamente ouvindo por um momento esses últimos conselhos, pessoais e profissionais, que o Gargalhada ia fornecendo. Mas no fim o substituto foi ficando impaciente e começou a se mexer inquieto. Abruptamente, e de maneira algo desagradável, ele interrompeu o Gargalhada com a informação de que, em primeiro lugar, seu nome não era Asa Escura ou Asa Negra ou Perna Cinza ou alguma bobagem dessas, era Armand, e, em segundo lugar, ele nunca estivera na China na sua vida toda, e não tinha a menor intenção de ir até lá.

Devidamente enfurecido, o Gargalhada afastou sua máscara com a língua e confrontou os Dufarge com seu rosto exposto à luz da lua. A reação de Mlle. Dufarge foi desmaiar na mesma hora. Seu pai teve mais sorte. Por acaso, ele estava no meio de um de seus ataques de tosse no momento e portanto perdeu a letal revelação. Quando o ataque de tosse passou e ele viu a filha esticada de costas no chão iluminado pela lua, Dufarge somou dois e dois. Protegendo os olhos com a mão, ele disparou todo o pente de balas de sua automática na direção do som da respiração pesada e sibilante do Gargalhada.

O capítulo acabou ali.

O Cacique tirou seu Ingersoll baratinho do bolso do relógio, deu uma olhada, depois girou de novo no banco e ligou o motor. Eu verifiquei o meu próprio relógio. Eram quase quatro e meia. Enquanto o ônibus seguia adiante, eu perguntei ao Cacique se ele não ia esperar por Mary Hudson. Ele não me respondeu, e antes que eu pudesse repetir a minha pergunta ele inclinou a cabeça para trás e se dirigiu a todos nós: “Vamos ficar um pouco em silêncio na droga desse ônibus”. Sem levar em conta qualquer outra coisa, a ordem já era basicamente insensata. O ônibus estivera, e estava, muito quieto. Quase todo mundo pensava na situação em que o Gargalhada havia sido deixado. Nós já tínhamos passado fazia muito tempo do ponto em que nos preocupávamos com seu destino — tínhamos confiança demais nele para isso —, mas jamais ultrapassamos o ponto em que aceitaríamos em silêncio seus momentos mais arriscados.

No terceiro ou quarto inning do nosso jogo de beisebol daquela tarde, eu lá da primeira base vi Mary Hudson. Ela estava sentada num banco, uns cem metros à minha esquerda, ensanduichada entre duas babás com carrinhos de bebê. Vestia seu casaco de castor, estava fumando um cigarro, e parecia estar olhando na direção do nosso jogo. Fiquei empolgado com a minha descoberta e berrei a informação para o Cacique, atrás do arremessador. Ele veio apressado, não exatamente correndo, falar comigo. “Onde?”, ele me perguntou. Eu apontei de novo. Ele encarou por um momento a direção correta, depois disse que voltava rapidinho e saiu do campo. Saiu lentamente, abrindo o sobretudo e colocando as mãos nos bolsos traseiros das calças. Eu sentei na primeira base e fiquei assistindo. Quando o Cacique chegou até Mary Hudson, seu sobretudo já estava novamente abotoado, e suas mãos estavam do lado do corpo.

Ele ficou de pé ao seu lado por cerca de cinco minutos, aparentemente conversando com ela. Então Mary Hudson se levantou, e os dois vieram na direção do campo de beisebol. Eles não conversaram enquanto andavam, nem se olharam. Quando chegaram ao campo, o Cacique assumiu sua posição atrás do arremessador. Eu berrei para ele, “Ela não vai jogar?”. Ele me disse para ficar quietinho. Eu fiquei quietinho, olhando para Mary Hudson. Ela caminhou lentamente por trás da base, com as mãos nos bolsos do casaco de castor, e finalmente sentou num banco de jogadores da reserva, logo depois da terceira base. Acendeu outro cigarro e cruzou as pernas.

Quando os Guerreiros estavam rebatendo, eu fui até o banco e perguntei se ela estava com vontade de jogar de left fielder. Ela sacudiu a cabeça. Perguntei se ela estava gripada. Ela sacudiu de novo a cabeça. Eu lhe disse que não tinha quem jogasse pela esquerda. Disse que eu estava com um sujeito cobrindo o central e a esquerda. Essa minha informação não gerou resposta. Joguei minha luva de primeira base para cima e tentei fazer com que caísse na minha cabeça, mas ela caiu numa poça de lama. Eu limpei a lama nas calças e perguntei a Mary Hudson se ela queria ir jantar na minha casa um dia desses. Eu lhe disse que o Cacique ia sempre. “Me deixe em paz”, ela disse. “Por favor, só me deixe em paz.” Eu fiquei olhando para ela, então fui na direção do banco dos Guerreiros, tirando uma tangerina do bolso e jogando a fruta para cima. Mais ou menos na metade do caminho, sobre a linha de falta da terceira base, eu dei meia-volta e comecei a caminhar de costas, olhando para Mary Hudson e segurando minha tangerina. Eu não tinha ideia do que estava se passando entre o Cacique e Mary Hudson (e ainda não tenho nenhuma ideia que ultrapasse um nível bem elementar e intuitivo), mas mesmo assim não podia estar mais seguro de que Mary Hudson estaria permanentemente fora da escalação dos Comanches. Era o tipo de certeza plena, apesar de independente da soma de seus fatos, que pode deixar o ato de caminhar de costas ainda mais perigoso que o normal, e eu trombei direto com um carrinho de bebê.

Depois de mais um inning, a luz ficou ruim para jogar. O jogo foi encerrado, e nós começamos a catar todo o equipamento. Na última boa olhada que dei em Mary Hudson, ela estava lá perto da terceira base, chorando. O Cacique segurava a manga de seu casaco de castor, mas ela escapou. Saiu correndo do campo para o caminho pavimentado, e continuou correndo, até eu não poder mais vê-la. O Cacique não foi atrás. Ele só ficou observando enquanto ela sumia. Então se virou e voltou para a base para pegar nossos dois tacos; nós sempre deixávamos os tacos para ele carregar. Eu fui até ele e perguntei se ele e Mary Hudson tinham brigado. Ele me mandou pôr a camisa para dentro.

Como sempre, nós, os Comanches, fizemos correndo o trecho final da distância que nos separava do lugar onde o ônibus estava estacionado, gritando, trocando empurrões, testando manobras de estrangulamento nos colegas, mas todos muito conscientes do fato de que era novamente hora de “O Gargalhada”. Correndo pela Quinta Avenida, alguém derrubou uma blusa extra ou abandonada, e eu tropecei nela e me estatelei. Consegui terminar a corrida até o ônibus, mas os melhores assentos estavam ocupados àquela altura e eu tive que sentar no meio do ônibus. Irritado com a situação, dei uma cotovelada nas costelas do menino sentado à minha direita, então olhei para o outro lado e fiquei vendo o Cacique atravessar a avenida. Ainda não estava escuro lá fora, mas uma penumbra das cinco e quinze tinha se instalado. O Cacique atravessou a rua com a gola erguida, tacos debaixo do braço esquerdo, com toda a sua concentração dedicada à rua. Seu cabelo preto, que antes estava penteado e úmido, agora estava seco e soprado pelo vento. Eu lembro de ter desejado que o Cacique tivesse luvas.

O ônibus, como sempre, estava quieto quando ele entrou — quieto na mesma proporção, pelo menos, em que estaria um teatro onde as luzes da plateia vão se apagando. As conversas iam sendo encerradas num sussurro apressado ou abandonadas de todo. Mesmo assim, a primeira coisa que o Cacique nos disse foi, “Tudo bem, vamos parar com o barulho, senão não tem história”. Num instante, um silêncio incondicional tomou o ônibus, privando o Cacique de qualquer alternativa a não ser a de assumir sua posição narrativa. Quando o fez, ele pegou um lenço e metodicamente assoou o nariz, uma narina de cada vez. Nós o observávamos com paciência e até com certa nota de interesse de espectadores. Quando não precisava mais do lenço, ele o dobrou criteriosamente e o repôs no bolso. Então nos deu o novo capítulo de “O Gargalhada”. Do começo ao fim, não durou mais que cinco minutos.

Quatro das cinco balas de Dufarge atingiram o Gargalhada, duas delas no coração. Quando Dufarge, que ainda cobria os olhos para não ver o rosto do Gargalhada, ouviu uma estranha exalação de agonia provinda da direção do alvo, ele ficou felicíssimo. Com seu coração de pedra batendo enlouquecido, foi correndo até a filha inconsciente e a despertou. O par, fora de si de tanta alegria e tomado pela coragem dos covardes, ousou agora olhar para o Gargalhada. Sua cabeça estava curvada como a de um morto, com o queixo apoiado em seu peito ensanguentado. Lenta e avidamente, pai e filha foram examinar seu prêmio. Uma bela surpresa os aguardava. O Gargalhada, nada morto, estava contraindo os músculos da barriga de uma maneira secreta. Quando os Dufarge chegaram perto o bastante, ele subitamente ergueu o rosto, soltou uma terrível risada e cuidadosamente, minuciosamente até, regurgitou todas as quatro balas. O impacto de seu feito sobre os Dufarge foi tão agudo que o coração dos dois literalmente estourou, e eles caíram mortos aos pés do Gargalhada. (Se o capítulo devia ser dos curtos mesmo, podia ter acabado aí; os Comanches poderiam ter dado um jeito de racionalizar a morte súbita dos Dufarge. Mas ele não acabou aí.) Por dias a fio, o Gargalhada continuou atado à árvore pelo arame farpado, com os Dufarge se decompondo aos seus pés. Sangrando abundantemente e longe de seu suprimento de sangue de águia, ele nunca esteve mais perto de morrer. Contudo, um dia, com uma voz roufenha mas eloquente, ele pediu ajuda aos animais da floresta. Ele os convocou para ir buscar Omba, o adorável anão. E eles foram. Mas ir e voltar pela fronteira Paris-China era uma viagem longa, e quando Omba chegou à cena com um kit médico e um suprimento fresquinho de sangue de águia, o Gargalhada estava em coma. O primeiro de todos os atos de misericórdia de Omba foi recuperar a máscara do mestre, que tinha sido soprada pelo vento para cima do torso infestado de vermes de Mlle. Dufarge. Ele a colocou respeitosamente sobre os traços hediondos, e então começou a tratar dos ferimentos.

Quando os olhinhos do Gargalhada finalmente se abriram, Omba ergueu ansiosamente o frasco de sangue de águia para a máscara. Mas o Gargalhada não bebeu do frasco. Em vez disso, pronunciou sem energia o nome de seu amado Asa Negra. Omba curvou a própria cabeça levemente distorcida e revelou ao mestre que os Dufarge tinham matado Asa Negra. Um singular e dolorosíssimo soluço de dor final saiu do Gargalhada. Ele estendeu uma mão pálida para o frasco de sangue de águia e o esmagou. O pouco de sangue que ele ainda continha escorreu num fio fino por seu pulso. Ordenou que Omba se afastasse e, soluçando, Omba obedeceu. O último gesto do Gargalhada, antes de virar o rosto para o chão ensanguentado, foi arrancar sua máscara.

A história, é claro, acabou aí. (E jamais foi retomada.) O Cacique deu partida no ônibus. Na fileira de assentos paralela à minha, Billy Walsh, que era o mais novo de todos os Comanches, caiu no choro. Nenhum de nós disse para ele calar a boca. Quanto a mim, eu lembro que meus joelhos tremiam.

Poucos minutos depois, quando eu saí do ônibus do Cacique, a primeira coisa que vi, por acaso, foi um pedaço de papel de seda vermelho que, soprado pelo vento, tremulava contra a base de um poste de luz. Parecia a máscara de papoula de alguém. Cheguei em casa com os dentes batendo de maneira incontrolável, e me mandaram direto para a cama.

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