O tio Novelo em Connecticut – J.D. Salinger

By | March 29, 2023

Eram quase três horas da tarde quando Mary Jane finalmente encontrou a casa de Eloise. Ela explicou a Eloise, que foi recebê-la na entrada da garagem, que tudo correu perfeitamente, que ela lembrou o caminho exatamente, até sair da Merrick Parkway. Eloise disse, “Merritt Parkway, meu anjo”, e lembrou a Mary Jane que ela já havia encontrado a casa em duas outras ocasiões, mas Mary Jane simplesmente uivou um lamento ambíguo, algo a respeito de sua caixa de lenços de papel, e voltou correndo para o conversível. Eloise ergueu a gola do sobretudo de lã de camelo, deu as costas para o vento, e ficou esperando. Mary Jane num minutinho estava de volta usando um lenço de papel e ainda com uma cara transtornada, e até contrafeita. Eloise disse animada que a droga do almoço todo tinha queimado — miúdos, tudo —, mas Mary Jane disse que já tinha comido mesmo, na estrada. No que as duas iam até a casa, Eloise perguntou a Mary Jane como tinha acontecido de ela conseguir o dia livre. Mary Jane disse que não tinha o dia todo livre; era só que o sr. Weyinburg estava com uma hérnia e ficou em casa, em Larchmont, e ela tinha que levar a correspondência dele e pegar umas cartas toda tarde. Ela perguntou a Eloise, “Mas uma hérnia é o quê, exatamente?”. Eloise, largando o cigarro na neve suja em que pisava, disse que não sabia de verdade, mas que Mary Jane não precisava ficar com medo de pegar. Mary Jane disse, “Ah”, e as duas moças entraram na casa.

Vinte minutos depois, as duas terminavam de beber seus primeiros highballs na sala de estar e conversavam daquela maneira que é característica, e provavelmente exclusiva, das ex-colegas de quarto. As duas tinham um laço ainda mais forte; nenhuma delas se formou. Eloise abandonou a universidade no meio do segundo ano, em 1942, uma semana depois de ter sido flagrada com um soldado num elevador fechado do terceiro andar do alojamento. Mary Jane abandonou — mesmo ano, mesma turma, quase no mesmo mês — para se casar com um cadete da aeronáutica lotado em Jacksonville, Flórida, um rapaz magro de Dill, Mississippi, que só pensava em voar e tinha passado dois dos três meses que durou seu casamento com Mary Jane preso por esfaquear um deputado.

“Não”, Eloise estava dizendo. “Na verdade era vermelho.” Ela estava esticada no sofá, com as pernas finas mas muito bonitas cruzadas na altura do tornozelo.

“Eu ouvi dizer que era loiro”, Mary Jane repetiu. Estava sentada na poltrona azul de encosto reto. “A fulaninha lá jurou de pé junto que era loiro.”

“Nananinanão. Certeza.” Eloise bocejou. “Eu estava praticamente ali com ela quando ela tingiu. O que foi? Não tem mais cigarro lá?”

“Tudo bem. Eu tenho um maço cheio”, Mary Jane disse. “Em algum lugar.” Ela revistou a bolsa.

“A tonta daquela empregadinha”, Eloise disse sem se mexer no sofá. “Eu larguei dois maços novinhos bem na cara dela tem coisa de uma hora. Daqui a pouco ela vai me aparecer aqui perguntando o que é pra fazer com eles. Onde é que eu estava mesmo?”

“A Thieringer”, Mary Jane ajudou, acendendo um de seus próprios cigarros.

“Ah, é. Eu lembro perfeitamente. Ela tingiu o cabelo na véspera do casamento com aquele Frank Henke. Você lembra dele pelo menos?”

“Só meio mais ou menos. Um recrutinha? Pra lá de feioso?” “Feioso. Jesus! Ele parecia um Bela Lugosi encardido.”

Mary Jane jogou a cabeça para trás e rugiu. “Sensacional”, ela disse, retornando à posição em que podia beber.

“Me dá o seu copo”, Eloise disse, jogando um pé só de meia para o chão, e se levantando. “Honestamente, aquela boFó. Eu só faltei mandar o Lew fazer amor com ela pra convencer a dita a vir pra cá com a gente. Agora até lamento eu — Onde foi que você arranjou isso aí?”

“Isso? ”, disse Mary Jane, tocando um broche de camafeu que tinha na garganta. “Eu já tinha isso no tempo da universidade, meu Deus. Era da minha mãe.”

“Jesus”, Eloise disse, com os copos vazios nas mãos. “Eu não tenho nenhuma dessas porcarias sagradas pra usar. Se um dia a mãe do Lew morrer — ha, ha —, ela provavelmente vai me deixar um picador de gelo antigo, com as iniciais dela.”

“Como é que você está se dando com ela ultimamente, afinal?” “Engraçadinha”, Eloise disse enquanto seguia para a cozinha.

“Esse é definitivamente o último pra mim!”, Mary Jane gritou para ela. “Mas nem a pau. Quem foi que ligou pra quem? E quem foi que chegou duas horas atrasada? A senhora vai ficar aqui até eu cansar da sua cara. Que se dane essa sua carreirazinha de nada.”

Mary Jane jogou a cabeça para trás e rugiu de novo, mas Eloise já tinha entrado na cozinha.

Com reduzida capacidade, ou capacidade nenhuma, de ficar sozinha num cômodo, Mary Jane se levantou e foi até a janela. Ela afastou a cortina e apoiou o pulso numa das travessas entre os painéis de vidro, mas, sentindo poeira, tirou o pulso dali, limpou com a outra mão e adotou uma postura mais ereta. Lá fora, a neve derretida e imunda estava visivelmente virando gelo. Mary Jane soltou a cortina e voltou como quem não quer nada à poltrona azul, passando por duas estantes lotadas de livros sem nem espiar os títulos. Sentada, abriu a bolsa e usou o espelho para conferir os dentes. Fechou a boca e passou a língua com força pelos dentes frontais superiores, então olhou de novo.

“Está ficando tão gelado lá fora”, ela disse, virando-se para a outra. “Jesus, que rapidez. Você não pôs soda?”

Eloise, com um drinque novo em cada mão, estacou no caminho. Ela estendeu os dois indicadores, como canos de arma de fogo, e disse, “Ninguém nem se mexa. Eu mandei cercar isso aqui tudo”.

Mary Jane riu e guardou seu espelho.

Eloise veio com as bebidas. Colocou a de Mary Jane instável sobre o porta-copos, mas ficou com a sua na mão. Esticou-se de novo no sofá. “Que que cê acha que ela tá fazendo lá fora?”, ela disse. “Está lá sentada em cima daquela bundona preta, lendo O Manto Sagrado. Eu derrubei as fôrmas de gelo quando fui pegar. Ela até me deu uma olhada com cara de poucos amigos.”

“Esse é o meu último. Sem brincadeira”, Mary Jane disse, pegando seu coquetel. “Ah, escuta! Sabe quem eu vi semana passada? No piso principal da Lord & Taylor?”

“Mm-hm”, disse Eloise, ajeitando uma almofada embaixo da cabeça. “Akim Tamiroff.”

“Quem? ”, disse Mary Jane. “Quem é esse aí?”

“Akim Tamiroff. Ele é do cinema. Ele sempre fala ‘Você non leva a sério — ha?’. Eu adoro esse sujeito… Eu não suporto nenhuma almofada da droga dessa casa. Quem foi que você viu?”

“A Jackson. Ela estava —” “Qual delas?”

“Não sei. A que estava na nossa turma de psi, a que sempre —” “As duas estavam na nossa turma de psi.”

“Bom. A que tinha aquela maravilha de — ”

“Marcia Louise. Eu topei com ela uma vez também. Ficou tagarelando sem parar?”

“Meu Jesus amado, e como! Mas só que, sabe o que ela me contou? Que a dra. Whiting morreu. Ela disse que recebeu uma carta da Barbara Hill dizendo que a Whiting teve câncer no verão e morreu e tudo mais. Ela estava pesando só vinte e oito quilos. Quando morreu. Não é uma coisa horrorosa?”

“Não.”

“Eloise, você está virando uma desalmada.” “Mm. Que mais que ela disse?”

“Ah, ela acabou de voltar da Europa. O marido dela estava lotado na Alemanha, acho eu, e ela estava com ele. A casa deles tinha quarenta e sete cômodos, ela disse, só eles e mais outro casal, e coisa de uns dez criados. Um cavalo só dela, e o cavalariço deles tinha sido professor de equitação do Hitler, acho eu. Ah, e ela começou a me contar que por pouco ela não foi estuprada por um soldado de cor. Bem no piso principal da Lord & Taylor ela começou a me contar — você conhece a Jackson. Ela disse que o sujeito era chofer do marido dela, e que estava levando ela pro mercado, acho eu, uma manhã. Ela disse que ficou com tanto medo que nem —”

“Espera só um segundinho.” Eloise ergueu a mão e a voz. “É você, Ramona?”

“Sou eu”, respondeu a voz de uma criança pequena. “Feche a porta, por favor”, Eloise gritou.

“É a Ramona? Ah, eu estou morrendo de saudade dela. Você sabe que eu não vejo a Ramona desde que ela —”

“Ramona”, Eloise gritou, de olhos fechados, “vá lá pra cozinha e deixe a Grace tirar as suas galochas.”

“Tudo bem”, disse Ramona. “Vem, Jimmy.”

“Ah, mas que saudade dela”, Mary Jane disse. “Ah, meu Deus! Olha o que eu fui fazer. Eu sinto muito, El.”

“Deixa. Deixa”, disse Eloise. “Eu odeio essa droga desse tapete mesmo.

Eu pego outro pra você.”

“Não, olha, ainda sobrou mais da metade!” Mary Jane ergueu seu copo. “Certeza?”, disse Eloise. “Me dá um cigarro.”

Mary Jane estendeu seu maço de cigarros, dizendo, “Ah, mas que saudade dela. Ela está parecida com quem, agora?”.

Eloise acendeu um isqueiro. “Akim Tamiroff.” “Não, sério.”

“O Lew. Ela parece o Lew. Quando a mãe dele vem aqui, eles parecem trigêmeos.” Sem sentar mais reta, Eloise estendeu a mão para uma pilha de cinzeiros que estava na outra ponta da mesinha dos cigarros. Conseguiu erguer o primeiro e o largou em cima da barriga. “Eu preciso é de um cocker spaniel ou alguma coisa assim”, ela disse. “Alguém que seja parecido comigo.”

“Como é que está a vista dela agora?”, Mary Jane perguntou. “Assim, não piorou, né?”

“Cruzes, não que eu saiba.”

“Ela consegue enxergar sem aqueles óculos? Assim, se ela levantar de noite pra usar o toalete e tal?”

“Ela não fala nada. Ela é um poço de segredinhos.”

Mary Jane se virou na cadeira. “Mas, oi, Ramona!”, ela disse. “Ah, mas que vestido bonitinho!” Ela largou o coquetel. “Aposto que você nem lembra de mim, Ramona.”

“Claro que ela lembra. Quem é essa moça, Ramona?” “Mary Jane”, disse Ramona, e se coçou.

“Que maravilha!”, disse Mary Jane. “Ramona, você me dá um beijinho?” “Pare com isso”, Eloise disse para Ramona.

Ramona parou de se coçar.

“Você me dá um beijinho, Ramona?”, Mary Jane perguntou de novo. “Eu não gosto de ficar beijando as pessoas.”

Eloise conteve uma risada, e perguntou, “Cadê o Jimmy?”. “Ele está aqui.”

“Jimmy é quem?”, Mary Jane perguntou a Eloise.

“Ah, Jesus! O namoradinho dela. Onde ela vai ele vai também. Faz o que ela fizer. O maior bafafá.”

“Verdade? ”, disse Mary Jane empolgada. Ela se inclinou para a frente. “Você tem um namoradinho, Ramona?”

Os olhos de Ramona, por trás de grossas lentes antimiopia, não refletiram nem uma fração do entusiasmo de Mary Jane.

“A Mary Jane te fez uma pergunta, Ramona”, Eloise disse. Ramona introduziu um dedo no seu narizinho largo.

“Pare com isso”, Eloise disse. “A Mary Jane te perguntou se você tem um namoradinho.”

“Tenho”, disse Ramona, ocupada com o nariz.

“Ramona”, Eloise disse. “Corta essa. Mas agorinha mesmo.” Ramona baixou a mão.

“Bom, eu acho isso tudo uma maravilha”, Mary Jane disse. “Como é o nome dele? Você quer me dizer o nome dele, Ramona? Ou é um segredo muito sério?”

“Jimmy”, Ramona disse.

“Jimmy? Ah, mas eu adoro o nome Jimmy! Jimmy de quê, Ramona?” “Jimmy Jimmereeno”, disse Ramona.

“Pare de se sacudir”, disse Eloise.

“Puxa vida! Mas que nome. E cadê o Jimmy? Você quer me contar, Ramona?”

“Aqui”, disse Ramona.

Mary Jane olhou ao redor, depois olhou de novo para Ramona, com o sorriso mais provocativo que conseguiu. “Aqui onde, querida?”

“Aqui ”, disse Ramona. “Eu estou de mão dada com ele.”

“Não entendi essa”, Mary Jane disse a Eloise, que estava dando cabo de seu coquetel.

“Nem olhe pra mim”, disse Eloise.

Mary Jane olhou de novo para Ramona. “Ah, entendi. O Jimmy é só um menininho de faz de conta. Que maravilha.” Mary Jane se inclinou cortês. “Como vai, Jimmy?”, ela disse.

“Ele não vai falar com você”, disse Eloise. “Ramona, fale do Jimmy pra Mary Jane.”

“Falar o quê? ”

“Endireite essas costas, por favor… Diga pra Mary Jane como é a aparência do Jimmy.”

“Ele tem olho verde e cabelo preto.” “Que mais?”

“Não tem mamãe nem papai.” “Que mais?”

“Não tem sarda.” “Que mais?”

“Uma espada.” “Que mais?”

“Não sei”, disse Ramona, e começou a se coçar de novo.

“Mas parece que ele é lindo!”, Mary Jane disse, e se inclinou ainda mais para a frente, sem sair da cadeira. “Ramona. Me diga. O Jimmy também tirou as galochas quando vocês entraram?”

“Ele tem botas”, Ramona disse.

“Que maravilha”, Mary Jane disse a Eloise.

“Você que pensa. Pra mim é o dia inteiro isso aí. O Jimmy come com ela. Toma banho com ela. Dorme com ela. Ela dorme toda encolhida num canto da cama, pra não rolar e machucar o Jimmy.”

Parecendo interessadíssima e encantada com essa informação, Mary Jane prendeu o lábio inferior, e depois o soltou para perguntar, “Mas de onde foi que saiu esse nome?”.

“Jimmy Jimmereeno? Vai saber!” “Provavelmente de algum menininho do bairro.”

Eloise, bocejando, sacudiu a cabeça. “Não tem menininho no bairro. Não tem criança nenhuma. Eles me chamam de Parideira, quando eu não estou —”

“Manhê”, Ramona disse, “posso ir brincar lá fora?” Eloise olhou para ela. “Você acabou de entrar”, ela disse. “O Jimmy quer sair de novo.”

“E por quê, se é que se pode saber?” “Ele deixou a espada lá fora.”

“Ah, ele e a porcaria dessa espada”, Eloise disse. “Bom. Então vai. Ponha as galochas de novo.”

“Pode pegar isso aqui?”, Ramona disse, tirando um fósforo queimado do cinzeiro.

“Posso pegar isso aqui. Sim. Não me vá pra rua, por favor.” “Até mais, Ramona!”, Mary Jane disse melodiosamente. “Tchau”, disse Ramona. “Vem, Jimmy.”

Eloise de repente se pôs de pé num salto. “Me dá esse copo”, ela disse. “Não, de verdade, El. Eu tinha que estar em LarFhmont. O sr. Weyinburg é tão doce, sabe, eu odeio —”

“Liga pra ele e diz que te assassinaram. Larga o diabo desse copo.”

“Não, sério, El. Assim, está ficando gelado pacas. Eu quase não tenho fluido anticongelamento no carro. Quer dizer, se eu não —”

“Deixa congelar. Pega o telefone. Diz que você morreu”, disse Eloise. “Me dá isso aqui.”

“Bom… Cadê o telefone?”

“Ele foi”, disse Eloise, levando os copos vazios na direção da sala de jantar, “— praqueles lados.” Ela estacou na tábua do piso que separava a sala de estar da de jantar e executou um rebolado e um tranco. Mary Jane deu uma risadinha.

“Assim, você não conheceu de verdade o Walt”, disse Eloise às quinze para as cinco, deitada de costas no chão, bebida equilibrada sobre o peito de seios pequenos.

“De todos os sujeitos que eu conheci na vida, ele era o único que sabia me fazer rir. Assim, rir de verdade.” Ela olhou para Mary Jane. “Lembra aquela noite — no nosso último ano — em que a doida da Louise Hermanson me entra usando aquele sutiã preto que ela tinha comprado em Chicago?”

Mary Jane deu uma risadinha. Estava deitada de barriga no sofá, queixo no braço do móvel, virada para Eloise. Sua bebida estava no chão, ao seu alcance.

“Bom, conseguia me fazer rir daquele jeito”, Eloise disse. “Ele conseguia quando conversava comigo. Conseguia por telefone. Conseguia até por carta. E a melhor parte era que ele nem tentava ser engraçado — ele simplesmente era engraçado.” Ela virou levemente a cabeça na direção de Mary Jane. “Mas olha só, que tal me arrumar um cigarrinho aí?”

“Eu não alcanço”, Mary Jane disse.

“Bolas.” Eloise olhou de novo para o teto. “Uma vez”, ela disse, “eu caí. Eu ficava sempre esperando por ele no ponto de ônibus, bem na frente da Base, e um dia ele chegou atrasado, justo na hora que o ônibus ia saindo. A gente foi correr pra pegar e eu caí e torci o tornozelo. Ele disse, ‘Coitadinho do tio Novelo’. Ele estava falando do meu tornozelo. Coitadinho do tio Novelo, ele disse… Jesus, como ele era bacana.”

“E o Lew não tem senso de humor?”, Mary Jane disse. “Como assim?”

“E o Lew não tem senso de humor?”

“Ah, meu Deus! Vai saber? Tem. Acho que tem sim. Ele ri dos cartuns e tal.” Eloise ergueu a cabeça, tirou o copo do peito, e bebeu.

“Bom”, Mary Jane disse. “Isso não é tudo. Assim, não é tudo.” “O que que não é?”

“Ah… você sabe. Rir e tal.”

“Quem é que disse que não?”, Eloise disse. “Escuta, se você não vai virar freira ou sei lá o quê, é melhor dar umas risadas na vida.”

Mary Jane riu. “Você é terrível”, ela disse.

“Ah, meu Deus, como ele era bacana”, Eloise disse. “Ele ou era engraçado ou querido. Mas também não tinha nada daquele jeitinho querido de menino. Era um querido especial. Sabe o que ele fez uma vez?”

“Hã-hã”, Mary Jane disse.

“A gente estava indo de trem de Trenton pra Nova York — isso logo depois dele ter sido convocado. Estava frio no vagão e eu tinha posto o meu sobretudo meio por cima da gente, assim. Eu lembro que por baixo eu estava com o cardigã da Joyce Morrow — lembra daquele cardigã azul lindinho que ela tinha?”

Mary Jane concordou com a cabeça, mas Eloise não olhou para ela para perceber seu gesto.

“Bom, ele estava meio que com a mão na minha barriga. Você sabe. Enfim, do nada ele disse que a minha barriga era tão linda que ele queria que algum oficial aparecesse e desse uma ordem pra ele socar a janela com a outra mão. Ele disse que queria fazer o que era justo. Aí ele tirou a mão dali e disse pro condutor endireitar a postura. Disse pro sujeito que se tinha uma coisa que ele não suportava era um homem que não parecia se orgulhar do uniforme. O condutor só falou pra ele ir dormir de novo.” Eloise refletiu por um momento, então disse, “Não era sempre o que ele dizia, mas o jeito de dizer. Você sabe”.

“Alguma vez você falou dele pro Lew — assim, qualquer coisa?”

“Ah”, Eloise disse. “Eu comecei, uma vez. Mas a primeira coisa que ele me perguntou foi a patente dele.”

“Qual era a patente dele?” “Ha!”, disse Eloise. “Não, eu só queria —”

Eloise riu de repente, a partir do diafragma. “Sabe o que ele disse uma vez? Ele disse que achava que estava progredindo no exército, mas numa direção diferente dos outros. Ele disse que quando conseguisse a primeira promoção, em vez de receber divisas iam arrancar as mangas dele. Disse que quando chegasse a general ele ia estar completamente nu. Ele só ia estar usando um botão da infantaria no umbigo.” Eloise deu uma olhada em Mary Jane, que não estava rindo. “Você não achou engraçado?”

“Achei. Só que, por que você não fala dele pro Lew uma hora dessas?” “Por quê? Porque ele é tapado pra cacete, minha filha”, Eloise disse.

“Além de tudo. Escuta aqui, trabalhadora. Se um dia você casar de novo, não conte nada pro seu marido. Está me ouvindo?”
“Por quê?”, disse Mary Jane.

“Porque eu mandei, e pronto”, disse Eloise. “Eles querem achar que você passou a vida toda vomitando toda vez que um rapaz chegava perto de você. Sem brincadeira, viu. Ah, você pode contar as coisas pra eles. Mas nunca com sinceridade. Assim, nunca com sinceridade. Se você diz pra eles que uma vez você conheceu um rapaz bonito, tem que dizer na mesma horinha que ele era bonito além da conta. E se você diz que conheceu um rapaz esperto, tem que dizer que o problema é que ele era meio metido, ou sabichão. Se não, eles te jogam esse coitado desse rapaz na cara toda hora que tiverem chance.” Eloise parou um momento para tomar um gole de seu copo e pensar. “Ah”, ela disse, “eles ficam escutando de um jeito muito maduro e tudo mais. Até fazem a maior cara de inteligentes. Mas não caia nessa. Vai por mim. Vai ser o inferno se você der crédito pra essa inteligência deles. Pode crer.”

Mary Jane, parecendo deprimida, ergueu o queixo do braço do sofá. Para variar, apoiou o queixo no antebraço. Ela considerou o conselho de Eloise. “Você não pode dizer que o Lew é tapado”, disse em voz alta.

“Quem é que não pode?”

“Assim, ele não é inteligente?”, Mary Jane disse inocente.

“Ah”, disse Eloise, “de que adianta ficar falando? Vamos parar. Eu só vou te deixar deprimida. Me mande calar a boca.”

“Bom, mas aí casou com ele por quê, então?”, Mary Jane disse.

“Ah, Jesus! Sei lá. Ele me disse que adorava Jane Austen. Ele me disse que os livros dela eram muito importantes pra ele. Foi exatamente o que ele disse. Eu descobri, depois que a gente tinha casado, que ele nunca leu um livro dela. Sabe quem que é o escritor favorito dele?”

Mary Jane sacudiu a cabeça.

“L. Manning Vines. Já ouviu falar?” “Hã-hã.”

“Nem eu. Nem ninguém mais. Ele escreveu um livro sobre quatro sujeitos que morreram de fome no Alasca. O Lew não lembra o nome, mas é o livro com a prosa mais linda que ele leu na vida. Jesus amado! Ele nem tem a honestidade de dizer de uma vez que gostou do livro porque era sobre quatro sujeitos que morreram de fome num iglu ou sei lá onde. Ele tem que dizer que a prosa era linda.”

“Você é crítica demais”, Mary Jane disse. “Assim, você é crítica demais.

Vai ver que era um livro —”

“Vai por mim, não tinha como ser”, Eloise disse. Ela pensou por um momento, depois disse, “Pelo menos você tem emprego. Assim, pelo menos você —”.

“Mas só que, escuta”, disse Mary Jane. “Você acha que um dia pelo menos você vai dizer que o Walt morreu? Assim, ele não ia ficar com ciúmes, não é, se soubesse que o Walt — enfim. Que ele morreu e tal.”

“Ah, que encanto! Sua trabalhadorazinha inocente, coitada”, disse Eloise. “Ele ia ficar pior. Ele ia ser um monstro. Escuta. Ele só sabe que eu dei umas voltas com alguém que se chamava Walt — um soldadinho espertalhão. A última coisa que eu ia fazer era contar que ele morreu. Mas a última coisa. E se contasse, e eu não vou contar — mas se contasse, eu ia dizer que ele foi morto em combate.”

Mary Jane empurrou o queixo mais para a frente, contornando o antebraço.

“El…”, ela disse. “Oi?”

“Por que você não quer me dizer como ele morreu? Eu juro que não conto pra ninguém. De verdade. Por favor.”

“Não.”

“Por favor. De verdade. Eu não conto pra ninguém.”

Eloise tomou o resto da bebida e colocou de novo no peito seu copo vazio. “Você ia contar pro Akim Tamiroff”, ela disse.

“Não ia não! Assim, eu não ia contar pra ninguém —”

“Ah”, disse Eloise, “o regimento dele estava descansando em algum lugar. Entre batalhas ou sei lá o quê, foi um amigo dele que me escreveu que disse. O Walt e um outro sujeito estavam colocando um forninho japonês numa embalagem. Um coronel lá queria mandar o negócio pra família. Ou eles estavam tirando da embalagem pra embrulhar de novo — eu não sei direito. Enfim, estava cheio de gasolina e essas porcarias, e o treco explodiu na cara deles. O outro sujeito só perdeu um olho.” Eloise começou a chorar. Ela pôs a mão no copo vazio que tinha no peito, para garantir seu equilíbrio.

Mary Jane deslizou do sofá e, de joelhos, deu três passos na direção de Eloise e começou a lhe acariciar a testa. “Não chore, El. Não chore.”

“E quem é que está chorando?”, Eloise disse.

“Eu sei, mas não chore. Assim, nem vale a pena mesmo.” A porta da frente se abriu.

“É a Ramona que está voltando”, Eloise disse anasalada. “Me faça um favor. Vá lá na cozinha e diga pra fulaninha dar a janta dela mais cedo. Pode ser?”

“Tudo bem, mas só se você prometer que não vai chorar.”

“Prometo. Pode ir. Eu não estou com vontade de entrar na droga daquela cozinha agora.”

Mary Jane ficou de pé, perdendo e recuperando o equilíbrio, e saiu da sala.

Voltou em menos de dois minutos, com Ramona correndo à sua frente. Ramona batia em cheio a sola dos pés no chão, tentando fazer o máximo de barulho com suas galochas abertas.

“Ela não quis me deixar tirar as galochas”, Mary Jane disse.

Eloise, ainda de costas no chão, estava usando o lenço. Ela falou com a cara nele, dirigindo-se a Ramona. “Saia daqui e diga pra Grace tirar as suas galochas. Você sabe que não é pra entrar na —”

“Ela está no banheiro”, Ramona disse.

Eloise guardou o lenço e algo penosamente se pôs sentada. “Me dá o seu pé aqui”, ela disse. “Sente, primeiro, por favor… Não aí — aqui. Jesus!”

De joelhos, procurando os cigarros embaixo da mesa, Mary Jane disse, “Ah. Adivinha o que aconteceu com o Jimmy”.

“Nem faço ideia. O outro pé. O outro.”

“Foi atropelado”, disse Mary Jane. “Não é uma tragédia?” “Eu vi o Skipper com um osso”, Ramona contou a Eloise. “O que aconteceu com o Jimmy?”, Eloise lhe disse.

“Ele foi atropelado e morreu. Eu vi o Skipper com um osso, e ele não queria —”

“Me dá a sua testa um segundinho”, Eloise disse. Ela estendeu a mão e sentiu a testa de Ramona. “Você está meio febril. Vá dizer pra Grace que você vai jantar lá em cima. E aí você me vai direto pra cama. Eu subo depois. Anda, vai, por favor. Leve isso aqui com você.”

Ramona lentamente saiu da sala com passos de gigante.

“Me passa um aqui”, Eloise disse a Mary Jane. “Vamos tomar mais um coquetel.”

Mary Jane levou um cigarro até Eloise. “Que loucura, né? Isso do Jimmy? Que imaginação!”

“Mm. Você vai lá pegar a bebida, vai? E traz a garrafa… Eu não quero ir lá fora. Aquilo tudo está cheirando a suco de laranja.”

Às sete e cinco o telefone tocou. Eloise levantou do sofazinho da janela e tateou no escuro para achar os sapatos. Não conseguiu. De meias, caminhou com firmeza, quase com langor, até o telefone. O barulho não incomodava Mary Jane, que dormia no sofá, de cara para baixo.

“Alô”, Eloise disse no telefone, sem acender a luz do teto. “Olha, eu não posso ir te encontrar. A Mary Jane está aqui. Ela estacionou bem atrás de mim e não consegue achar a chave. Eu não tenho como sair. A gente ficou uns vinte minutos procurando lá naquilo lá — na neve e tal. Será que você não consegue uma carona com o Dick e a Mildred?” Ela ficou ouvindo. “Ah. Bom, peninha, rapaz. Por que os garotões aí não entram em formação e vêm marchando pra casa? Vocês podem dizer aquela coisa de ordinário- marchesquer-direi-tesquer. Você pode ficar dando uma de figurão.” Ela ficou ouvindo de novo. “Eu não sou engraçada”, ela disse. “Não mesmo. É só a minha cara.” Ela desligou.

Ela andou, com menos firmeza, de volta para a sala de estar. No sofazinho da janela, serviu o que restava da garrafa de uísque em seu copo. Deu quase um dedo. Ela virou tudo, estremeceu e sentou.

Quando Grace acendeu a luz da sala de jantar, Eloise tomou um susto. Sem levantar, ela gritou para Grace, “É melhor você não servir antes das oito, Grace. O sr. Wengler vai se atrasar um pouquinho”.

Grace apareceu na luz da sala de estar, mas não veio até ela. “Foi embora a moça?”, ela disse.
“Está descansando.”

“Ah”, disse Grace. “Dona Wengler, eu tava pensando se tudo bem o meu marido passar a noite aqui. Tem bastante espaço lá no meu quarto, e ele só precisa voltar pra Nova York amanhã de manhã, e tá tão feio lá fora.”

“O seu marido? E ele está onde?”

“Bom, agora”, Grace disse, “ele tá na cozinha.”

“Bom, infelizmente ele não pode passar a noite aqui, Grace.” “Madame?”

“Eu estou dizendo que infelizmente ele não pode passar a noite aqui. Isso aqui não é hotel.”

Grace ficou um momento ali parada, então disse, “Tá bem, madame”, e foi para a cozinha.

Eloise saiu da sala de estar e subiu a escada, iluminada muito levemente pela luz que escapava da sala de jantar. Uma das galochas de Ramona estava largada no patamar. Eloise pegou a galocha e jogou, com toda a força, por cima da balaustrada; ela bateu no chão do hall de entrada com um baque violento.

Acendeu bruscamente a luz do quarto de Ramona e segurou o interruptor, como que se apoiando nele. Ficou por um momento olhando para Ramona. Então soltou o interruptor e foi rapidamente até a cama.

“Ramona. Acorda. Acorda.”

Ramona estava dormindo bem num cantinho da cama, com a nádega direita fora do colchão. Seus óculos estavam sobre um pequeno criado- mudo do Pato Donald, dobrados direitinho, hastes para baixo.

“Ramona!”

A criança acordou puxando forte a respiração. Seus olhos se abriram bem, mas quase no mesmo instante ela os apertou. “Mamãe?”

“Eu pensei que você tinha me dito que o Jimmy Jimmereeno morreu atropelado.”

“O quê?”

“Você me escutou”, Eloise disse. “Por que é que você está dormindo toda encolhida aqui?”

“Porque sim”, disse Ramona.

“Porque sim, nada. Ramona, eu não estou no clima de —” “Porque eu não quero machucar o Mickey.”

“Quem?”

“O Mickey”, disse Ramona, esfregando o nariz. “Mickey Mickeranno.”

Eloise levantou a voz, que se tornou um grito agudo, “Você vá já pro meio dessa cama. Anda”.

Ramona, extremamente assustada, só ficou olhando para Eloise.

“Tudo bem, então.” Eloise agarrou os tornozelos de Ramona e meio ergueu meio arrastou seu corpo até o meio da cama. Ramona nem resistiu nem chorou; ela se deixou ser puxada sem de fato ceder ao gesto.

“Agora durma”, Eloise disse, respirando pesado. “Feche os olhos… Você me ouviu, feche.”

Ramona fechou os olhos.

Eloise foi até o interruptor e apagou a luz. Mas ficou muito tempo ali na porta. Então, subitamente, foi apressada até o criado-mudo, batendo com o joelho no pé da cama, mas determinada demais para sentir qualquer dor. Pegou os óculos de Ramona e, segurando-os com as duas mãos, apertou-os contra o rosto. Lágrimas correram por sua face, molhando as lentes. “Coitadinho do tio Novelo”, ela disse várias vezes. Finalmente, colocou os óculos de novo no criado-mudo, com as lentes para baixo.

Ela se curvou, perdendo o equilíbrio, e começou a prender as cobertas da cama de Ramona. Ramona estava acordada. Estava chorando e estivera chorando. Eloise lhe deu um beijo úmido na boca e tirou o cabelo que lhe cobria os olhos, e então saiu do quarto.

Ela desceu a escada, já bem trôpega, e acordou Mary Jane.

“Quié? Quem? Hein? ”, disse Mary Jane, sentando de supetão no sofá. “Mary Jane. Escuta. Por favor”, Eloise disse, soluçando. “Lembra no nosso ano de calouras, que eu tinha aquele vestidinho marrom e amarelo que eu comprei em Boise, e a Miriam Ball me disse que ninguém usava aquele tipo de vestido em Nova York, e eu passei a noite inteira chorando?” Eloise sacudiu o braço de Mary Jane. “Eu era uma boa menina”, ela suplicava, “não era?”

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