Tom Jones e a moralidade – G. K. Chesterton

By | March 29, 2023

O segundo centenário do nascimento de Henry Fielding é com muita justiça celebrado, mesmo que, até onde é possível saber, seja celebrado só pelos jornais. Seria esperar muito que um incidente meramente cronológico como esse fosse induzir as pessoas que escrevem sobre Fielding a lê-lo; esse tipo de negligência não passa de um outro nome para a glória. Um grande clássico significa um homem que se pode elogiar sem que se o tenha lido. lsso, em si, não é de todo injusto; tão só implica um certo respeito pela compreensão e as conclusões estabelecidas pela massa da humanidade. Nunca li Píndaro (quero dizer que nunca li o Píndaro grego; Peter Pindar eu li certinho), mas o simples fato de eu não ter lido Píndaro, creio eu, não deve me impedir e certamente não me impedirá de falar das “obras-primas de Píndaro” ou dos “grandes poetas como Píndaro ou Ésquilo”. Os homens eruditos de verdade são acentuadamente não esclarecidos sobre este assunto bem como sobre muitos outros; e a posição que adotam é mesmo inteiramente desarrazoada. Se um jornalista qualquer ou um homem de cultura geral alude a Villon ou Homero, consideram uma zombaria bastante triunfante dizer ao homem: “Você não é capaz de ler francês medieval” ou “Você não é capaz de ler grego homérico”. Mas isso não é uma zombaria triunfante – ou, afinal, sequer uma zombaria. Um homem tem todo o direito de empregar em sua fala os fatos tradicionais e estabelecidos da história humana, tal como tem de empregar qualquer outro elemento de informação humana comum. E é tão sensato a um homem que nada sabe de francês admitir que Villon era um bom poeta quanto seria a um homem sem ouvido algum para música admitir que Beethoven era um bom músico. Que ele não tivesse ouvidos para música, não é isso motivo para que ele supusesse que a raça humana não tenha ouvidos para música. De que eu seja ignorante (como sou) não se segue que eu deva supor que esteja enganado. O homem que não elogiasse Píndaro a menos que já o tivesse lido seria um camarada deprimido, pouco confiável, a pior espécie de cético, que duvida não apenas de Deus, mas do homem. Ele seria como o homem que não pudesse chamar o Monte Everest de alto a menos que já o tivesse escalado. Ele seria como o homem que não admitiria que o Polo Norte é frio a menos que já tivesse estado lá.

Mas creio que exista um limite, e um limite altamente legítimo, a esse processo. Penso que um homem possa elogiar Píndaro sem saber sequer uma letra de grego. Mas penso que se um homem vai injuriá-lo, se vai denunciá-lo, refutá-lo e expô-lo completamente, se ele vai mostrar Píndaro como o estúpido completo e o impostor afrontoso que ele é, então creio que seria bem justo – creio que, de qualquer modo, não faria mal algum – se ele soubesse um pouco de grego e até tivesse lido um pouco de Píndaro. E creio que a mesma situação estaria em questão se o crítico estivesse preocupado com observar que Píndaro fora escandalosamente imoral, perniciosamente cínico ou degradante ou bestial em sua visão da vida. Quando as pessoas fazem tais ataques à moralidade de Píndaro, devo lamentar que não sejam capazes de ler o grego; e, quando fazem tais ataques à moralidade de Fielding, lamento muito que não sejam capazes de ler o inglês.

Parece correr por aí a ideia extraordinária de que Fielding tenha de algum modo sido um escritor imoral ou ofensivo. Assombrei-me com o número de manchetes, artigos literários e outros artigos escritos sobre ele, há pouco tempo, no qual há um tom curioso de quem desculpa o homem. Um crítico diz que, afinal de contas, ele não podia tê-lo evitado, porque ele viveu no século XVlll; outro diz que devemos aprovar a mudança de maneiras e ideias; outro diz que ele não era inteiramente desprovido de sentimentos humanos e generosos; outro sugere, enfim, que ele se agarrou febrilmente a umas poucas virtudes entre as menos importantes. O que diabos isso significa? Fielding descreveu Tom Jones a seguir por um determinado caminho pelo qual, muitíssimo infelizmente, um grande número de homens jovens de fato segue. É desnecessário dizer que Henry Fielding sabia que era um caminho infeliz pelo qual seguir. Até mesmo Tom Jones sabia disso. Ele disse claramente que esse era um caminho infeliz a ser seguido; ele disse, pode-se quase dizer, que isso arruinou a sua vida; tal passagem está lá em benefício de quem quer que se incomode de ler o livro. Existe abundante evidência (ainda que esta seja de um tipo indireto e místico) – existe abundante evidência de que Fielding provavelmente pensou que fosse melhor ser Tom Jones do que ser um completo covarde ou um homem vil. Não existe sequer um farrapo ou fio ou grão de evidência a mostrar que Fielding pensava que fosse melhor ser Tom Jones do que ser um homem bom. Tudo que está em questão aqui é a descrição de um tipo definido e muito real de jovem; o jovem cujas paixões e cujas necessidades egoístas às vezes parecem ser mais fortes que tudo o mais nele.

A moralidade prática de Tom Jones é ruim, ainda que não tão ruim, espiritualmente, quanto a moralidade prática de Arthur Pendennis ou a moralidade prática de Pip, e certamente nem de longe ruim como a profunda imoralidade prática de Daniel Deronda. A moralidade prática de Tom Jones é ruim; mas não consigo ver prova alguma de que a sua moralidade teórica fosse particularmente ruim. Não há necessidade de mandar a maior parte dos homens jovens gozarem a vida de acordo com ética teórica de Henry Fielding. Eles subitamente se ergueriam à estatura de arcanjos se gozassem a vida de acordo com a ética teórica do pobre Tom Jones. Tom Jones ainda está vivo, com todo o seu bem e todo o seu mal; ele está andando pelas ruas; encontramo-lo todos os dias. Nós nos reunimos com ele, bebemos com ele, fumamos com ele, falamos com ele, passeamos com ele. A única diferença é que não temos mais coragem intelectual para escrever sobre ele. Nós dividimos o supremo e central ser humano, Tom Jones, em um monte de aspectos separados. Permitimos ao Sr. J. M. Barrie escrever sobre ele em seus bons momentos e torná-lo melhor do que ele realmente é. Permitimos a Zola escrever sobre ele em seus maus momentos e torná-lo muito pior do que realmente é. Permitimos a Maeterlinck celebrar aqueles momentos de terror espiritual que ele sabe serem covardes; permitimos ao Sr. Rudyard Kipling celebrar aqueles momentos de brutalidade que ele sabe serem bem mais covardes. Permitimos a escritores obscenos escreverem sobre as obscenidades desse homem ordinário. Permitimos a escritores puritanos escrever sobre as purezas desse homem ordinário. Olhamos pelo buraco de uma caixa de fotografias que faz dos homens uns diabos e chamamos a isso de nova arte. Olhamos pelo buraco de outra caixa de fotografias que faz dos homens uns anjos e chamamos a isso de nova teologia. Mas se tiramos da estante alguns velhos livros empoeirados, se viramos algumas velhas páginas emboloradas e se, nessas trevas e decadência, encontramos alguns ínfimos indícios de uma fábula sobre o homem completo, um homem tal como aquele andando na calçada lá fora, nós subitamente ficamos de cara enfezada e chamamos a isso de a moral grosseira de uma era passada.

A verdade é que tudo isso assinala uma certa mudança na visão geral da moral; não, penso eu, uma mudança para melhor. Viemos a associar a moralidade em um livro com uma espécie de otimismo e lindeza; de acordo conosco, um livro moral é um livro sobre pessoas morais. Mas a velha ideia era quase o exato oposto; um livro moral era um livro sobre pessoas imorais. Um livro moral estava cheio de imagens como a “Gin Lane” ou os “Estágios da Crueldade”, de Hogarth,[44] ou registrava, tal como a invectiva popular, “o terrível Julgamento de Deus” contra algum blasfemador ou assassino. Existe um motivo filosófico para essa mudança. O ceticismo sem lar de nossa época alcançou o sentimento subconsciente de que a moralidade é, de algum modo, meramente uma questão de gosto – um acaso da psicologia. E, se a bondade só existe em determinadas mentes humanas, um homem que deseje elogiar a bondade irá naturalmente exagerar a sua quantidade nas mentes humanas ou o número de mentes humanas na qual ela é suprema. Toda confissão de que o homem é vicioso é uma confissão de que a virtude é visionária. Todo livro que admite que o mal é real é tido, de uma forma vaga, como a admitir que o bem é irreal. O instinto moderno é o de que, se o coração do homem é mau, não existe nada que permaneça de bom. Mas a intuição mais antiga era a de que, se o coração do homem alguma vez foi tão mal, alguma coisa de bom permanecera nele – a bondade permanecera boa. Uma verdadeira virtude vingadora existia fora da raça humana; a ela os homens se ergueram ou a perderam de vista. Portanto, é claro, essa lei mesma estava demonstrada tanto na transgressão quanto na observância. Se Tom Jones violava a moralidade, tanto pior para Tom Jones. Fielding não sentiu, como o pode ter sentido um homem moderno melancólico, que todo pecado de Tom Jones estivesse de alguma forma quebrando o encanto ou, podemos dizer, destruindo a ficção da moralidade. Os homens falam do pecador quebrando a lei; mas era antes a lei que o quebrava. E o que os modernos chamam de a baixeza e liberdade de Fielding é, em geral, a severidade e rigidez moral de Fielding. Ele não teria achado que estaria acatando à moral de forma alguma se tivesse escrito um livro só sobre pessoas boas. Fielding teria considerado o Sr. lan Maclaren extremamente imoral; e há algo a ser dito acerca dessa opinião. Dizer a verdade sobre a terrível luta da alma humana é certamente uma parte muito elementar da ética da honestidade. Se os personagens não forem maus, o livro o será.

Essa mais antiga e mais firme concepção do certo a existir para além da fraqueza humana e sem referência ao erro humano, pode-se senti-la nas mais amenas e relaxadas obras da literatura inglesa. É bastante sem sentido chamar Shakespeare de um grande moralista; mas, sob esse aspecto em particular, Shakespeare era um moralista bem típico. Onde quer que aluda a certo e errado, é sempre com essa velha insinuação. O certo é certo, mesmo que ninguém o faça. O errado é errado, mesmo que todo mundo esteja errado a esse respeito.

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