Lá no bote – J.D. Salinger

By | April 1, 2023

Passava um pouco das quatro horas de uma tarde de calor inesperado. Umas quinze ou vinte vezes desde a hora do almoço, Sandra, a empregada, voltou com a boca tensa da janela da cozinha que dava para o lago. Dessa vez, ao voltar, ela desatou e reatou distraída a fita do seu avental, ocupando a pequena folga que sua cintura imensa concedia. Então retornou para a mesa esmaltada e depositou seu corpo recém-uniformizado na cadeira que estava diante da sra. Snell. A sra. Snell, que havia terminado de limpar a casa e passar a roupa, estava tomando sua tradicional xícara de chá antes de descer a rua até o ponto de ônibus. A sra. Snell estava de chapéu. Era o mesmo chapelinho interessante, de feltro preto, que ela vinha usando não apenas durante todo o verão, mas nos três últimos verões — atravessando ondas de calor inéditas, uma mudança de vida, dúzias de diferentes tábuas de passar, pilotando dezenas de aspiradores. A etiqueta da Hattie Carnegie ainda estava ali dentro, desbotada mas (podia-se dizer) orgulhosa.

“Eu não vou ficar preocupada”, Sandra anunciou, pela quinta ou sexta vez, dirigindo-se à sra. Snell mas também a si própria. “Eu decidi que não vou ficar preocupada. Pra quê?”

“Isso mesmo”, disse a sra. Snell. “Eu é que não ia me preocupar. Não mesmo. Você me passa a minha bolsa, meu anjo?”

Uma bolsinha de couro, extremamente gasta, mas que carregava uma etiqueta tão importante quanto a que ficava por dentro do chapéu da sra. Snell, estava na despensa. Sandra conseguiu pegar a bolsa sem levantar da cadeira. Ela a passou pela mesa para a sra. Snell, que a abriu e tirou dali um maço de cigarros mentolados e uma caixinha de fósforos do Stork Club.

A sra. Snell acendeu um cigarro e depois levou a xícara de chá até a boca, mas imediatamente a recolocou no pires. “Se isso aqui não der jeito de esfriar de uma vez, eu vou é perder o ônibus.” Deu uma espiada em Sandra, que estava olhando fixo, de maneira torturada, na direção geral das caçarolas de cobre enfileiradas contra a parede. “Pare de se preoFupar com isso”, a sra. Snell ordenou. “De que é que adianta você ficar toda preocupada. Ou ele conta ou não conta pra ela. E pronto. De que é que adianta ficar preocupada?”

“Eu não estou preocupada”, Sandra reagiu. “A última coisa que eu vou fazer é ficar preocupada. Mas é de te deixar maluca, o jeito desse menino ficar andando na pontinha dos pés pela casa. Não dá pra ouvir o moleque, sabe. Assim, ninguém ouve o menino, sabe. Dia desses ainda eu estava debulhando feijão — bem nessa mesa aqui — e quase que eu piso na mão dele. Ele estava sentado bem debaixo da mesa.”

“Bom. Mas eu é que não ia ficar me preocupando.”

“Assim, tem que pensar em tudo antes de falar, com ele por perto”, Sandra disse. “É de te deixar doida.”

“E ainda não dá pra eu tomar esse negócio”, a sra. Snell disse. “… Isso é um horror. Quando você tem que pensar em tudo antes de falar e tal.”

“É de te deixar doida! Sério. Eu vivo quase maluca.” Sandra espanou migalhas imaginárias do colo, e riu pelo nariz. “Um menino de quatro aninhos!”

“É um moleque bonito”, disse a sra. Snell. “Com aquele olhão preto e tudo.”

Sandra riu de novo pelo nariz. “Ele vai ter o nariz do pai, escritinho.” Ela ergueu a xícara e tomou um gole sem dificuldade alguma. “Eu é que não sei por que eles querem ficar por aqui o mês de outubro inteiro”, ela disse insatisfeita, baixando a xícara. “Assim, nenhum deles nem chega perto da água agora. Ela não entra, ele não entra, o menino não entra. Ninguém entra, agora. Eles nem pegam mais aquele barco doido deles. Não sei por que eles foram pagar aquela grana no barquinho.”

“Não sei como é que você consegue tomar o seu. Eu nem consigo tomar o meu.”

Sandra encarou rancorosamente a parede do outro lado. “Eu vou ficar tão feliz de voltar pra cidade. Sem brincadeira. Eu odeio esse lugar maluco.” Ela lançou um olhar hostil para a sra. Snell. “Tudo bem pra senhora, que a senhora mora aqui o ano todo. A senhora tem uma vida social aqui e tal. Aí tanto faz.”

“Eu vou tomar isso aqui nem que eu morra”, a sra. Snell disse, olhando para o relógio acima do fogão elétrico.

“O que é que a senhora fazia se fosse eu?”, Sandra perguntou abruptamente. “Assim, o que é que a senhora fazia? Fala a verdade.”

Era o tipo de pergunta que caía na sra. Snell como se fosse um casaco de vison. Ela imediatamente largou a xícara. “Bom, em primeiro lugar”, ela disse, “eu não ia ficar preocupada. O que eu ia sim fazer era que eu ia procurar outra —”

“Eu não estou preocupada”, Sandra interrompeu.

“Eu sei, mas o que eu ia fazer era simplesmente conseguir —”

A porta de vaivém da sala de estar se abriu e Boo Boo Tannenbaum, a dona da casa, entrou na cozinha. Era uma moça de vinte e cinco anos de idade, pequena, quase sem quadril, com um cabelo quebradiço, sem corte e sem cor, preso atrás das orelhas, que eram muito grandes. Estava usando uma bermuda jeans, um pulôver preto de gola rulê e mocassins com meias. Descontado aquele nome ridículo, descontada sua ausência de atrativos, ela era — em termos de rostos comuns, permanentemente memoráveis e exageradamente perceptivos — uma moça deslumbrante e definitiva. Foi direto até a geladeira e a abriu. Enquanto olhava ali dentro, de pernas abertas e mãos nos joelhos, ela assoviava, de modo nada melódico, entre dentes, marcando o compasso com um leve movimento pendular e desinibido do traseiro. Sandra e a sra. Snell ficaram caladas. A sra. Snell apagou seu cigarro, sem pressa.

“Sandra…”

“Sim, senhora?” Sandra olhou atenta por sobre o chapéu da sra. Snell. “Não tem mais picles? Eu queria levar um pra ele.”

“Ele comeu”, Sandra relatou de modo inteligente. “Comeu antes de ir dormir ontem de noite. Só tinha mais dois.”

“Ah. Bom, vou comprar mais quando eu for até a estação. Eu pensei que talvez desse pra arrancar ele daquele barco.” Boo Boo fechou a porta da geladeira e foi até a janela do lado para dar uma olhada. “A gente precisa de mais alguma coisa?”, ela perguntou, na janela.

“Só pão.”

“Eu deixei o seu cheque na mesa da entrada, sra. Snell. Obrigada.”

“Tá”, disse a sra. Snell. “Acho que o Lionel já vai fugir.” Ela deu uma risadinha.

“Olha que parece mesmo”, Boo Boo disse, e meteu as mãos nos bolsos de trás da bermuda.

“Pelo menos ele não vai muito longe quando foge”, a sra. Snell disse, dando outra risadinha.

À janela, Boo Boo mudou levemente de posição, para não ficar totalmente de costas para as duas mulheres à mesa. “Não”, ela disse, e prendeu alguns fios atrás da orelha. Acrescentou, de maneira puramente informativa: “Ele mete o pé na estrada direto desde os dois anos de idade. Mas nunca muito longe. Acho que o mais longe que ele chegou — na cidade, pelo menos — foi o mall que atravessa o Central Park. Só a umas quadras de casa. O menos longe — ou mais perto — que ele chegou foi a porta da frente do nosso prédio. Ele ficou por ali pra dar tchau pro pai”.

As duas mulheres à mesa riram.

“O mall é onde eles vão patinar lá em Nova York”, Sandra disse muito sociável para a sra. Snell. “As crianças e tal.”

“Ah!”, disse a sra. Snell.

“Ele tinha só três aninhos. Foi agora, ano passado”, Boo Boo disse, tirando um maço de cigarros e uma caixinha de fósforos de um bolso lateral da bermuda. Ela acendeu um cigarro, enquanto as duas mulheres a observavam intrepidamente. “O maior fuzuê. A gente botou a polícia toda atrás dele.”

“E acharam ele?”, disse a sra. Snell.

“Claro que acharam ele!”, disse Sandra com desprezo. “A senhora pensa o quê?”

“Acharam ele às onze e quinze da noite, no meio de — Jesus amado, fevereiro, acho que era. Nenhuma criança no parque. Só ladrõezinhos, acho, e um punhado de degenerados sem-teto. Ele estava sentado no coreto, jogando uma bolinha de gude pra frente e pra trás numa fresta do piso. Quase morrendo de frio e com cara de —”

“Credo em cruz!”, disse a sra. Snell. “Como que ele me fez uma coisa dessas? Assim, ele estava fugindo era de quê?”

Boo Boo soprou um único e defeituoso anel de fumaça contra um vidro da janela. “Uma criança qualquer no parque, de tarde, veio falar com ele com a delirante informação equivocada de que ‘Você é um bostinha’. Pelo menos é por isso que a gente acha que ele fugiu. Eu não sei, sra. Snell. A coisa é meio complicada demais pra mim.”

“Tem quanto tempo que ele apronta dessas?”, perguntou a sra. Snell. “Assim, tem quanto tempo que ele apronta dessas?”

“Bom, com dois anos e meio de idade”, Boo Boo disse biograficamente, “ele se escondeu embaixo de uma pia no porão do nosso prédio. Lá na lavanderia. A Naomi não sei das quantas — uma amiguinha dele — disse que ele estava com uma minhoca na garrafinha térmica. Pelo menos foi o que a gente conseguiu arrancar dele.” Boo Boo suspirou e se afastou da janela equilibrando uma longa cinza no cigarro. Seguiu na direção da porta de tela. “Vou dar mais uma tentada”, ela disse, como um adeus para as duas mulheres.

Elas riram.

“Mildred”, Sandra, ainda rindo, dirigiu-se à sra. Snell, “você vai perder o ônibus se não se sacudir.”

Boo Boo fechou a porta de tela ao sair.

Ela parou no leve declive do gramado da casa, com o sol baixo do fim da tarde pelas costas. Cerca de duzentos metros à frente, seu filho Lionel estava sentado no banco de popa do bote do pai. Amarrado e privado da vela grande e da bujarrona, o bote flutuava num perfeito ângulo reto em relação à ponta do píer. Cerca de quinze metros mais longe, um esqui aquático perdido ou abandonado boiava de cabeça para baixo, mas não havia barcos de recreação no lago; só se via a popa da lancha do condado que seguia para Leech’s Landing. Boo Boo achou estranhamente difícil manter Lionel em foco. O sol, ainda que não estivesse especialmente quente, estava mesmo assim brilhante a ponto de fazer qualquer imagem um pouco mais afastada — menino ou bote — parecer quase tão trêmula e refratada quanto um bastão mergulhado na água. Depois de alguns minutos, Boo Boo desistiu de tentar. Ela desmanchou seu cigarro à maneira militar e foi na direção do píer.

Era outubro, e as tábuas do píer não tinham mais a capacidade de agredir seu rosto com o calor que refletiam. Ela caminhava assoviando “Kentucky Babe” entre dentes. Quando chegou à ponta do píer, ela se agachou, com os joelhos estralando, na borda direita, e olhou de cima para Lionel. Ele estava a menos de um remo de distância dela. Ele não ergueu os olhos.

“Ó de bordo”, Boo Boo disse. “Amigo. Pirata. Bandido. Voltei.”

Ainda sem erguer os olhos, Lionel abruptamente pareceu sentir que precisava demonstrar sua competência de navegador. Ele virou a inútil cana do leme toda para a direita, e então a trouxe imediatamente de volta com um puxão. Manteve os olhos exclusivamente no convés do barco.

“Eis-me aqui”, Boo Boo disse. “Vice-almirante Tannenbaum. Em solteira, Glass. Para a inspeção dos estermáforos.”

Não houve resposta.

“Você não é almirante. Você é mulher ”, Lionel disse. As frases dele normalmente tinham ao menos um lapso de controle de respiração, de modo que muitas vezes as palavras que ele enfatizava, em vez de subir, afundavam. Boo Boo não somente ouvia sua voz, parecia observá-la.

“Quem foi que te disse isso? Quem foi que te disse que eu não era almirante?”

Lionel respondeu, mas inaudível. “Quem? ”, disse Boo Boo.

“O papai.”

Ainda agachada, Boo Boo pôs a mão esquerda por entre o V das pernas, tocando as tábuas do píer para manter o equilíbrio. “O seu pai é um sujeito bacana”, ela disse, “mas ele é provavelmente o maior pé-seco que eu conheço. É absolutamente verdade que quando em terra eu sou uma mulher — isso é verdade. Mas a minha verdadeira vocação sempre foi, é e será o ilimitado —”

“Você não é almirante”, Lionel disse. “Você pode repetir?”

“Você não é almirante. Você é mulher o tempo todo.”

Houve um breve silêncio. Lionel preencheu esse tempo alterando de novo a rota de sua embarcação — ele usava duas mãos para operar a cana do leme. Estava vestindo um calção cáqui e uma camiseta branca limpa com uma estampa, no peito, que exibia Jerônimo Avestruz tocando violino. Ele estava bem bronzeado, e seu cabelo, que era quase exatamente como o da mãe em termos de cor e textura, estava um pouco descolorido no topo da cabeça pela ação do sol.

“Muita gente acha que eu não sou almirante”, Boo Boo disse, olhando para ele. “Só porque eu não fico contando vantagem.” Mantendo o equilíbrio, ela tirou um cigarro e os fósforos do bolso lateral da bermuda. “Eu quase nunca me vejo tentada a discutir a minha patente naval com as pessoas. Especialmente menininhos que nem me olham quando eu falo com eles. Iam me expulsar da porcaria da marinha.” Sem acender o cigarro, ela de repente se pôs de pé, ficou exageradamente ereta, fez um oval com polegar e indicador da mão direita, levou o oval até a boca e — como num kazoo — soltou algo que parecia um toque de clarim. Lionel imediatamente ergueu os olhos. É quase certo que ele soubesse que o toque era inventado, mas mesmo assim pareceu muito excitado; ficou boquiaberto. Boo Boo tocou o clarim — uma singular fusão dos toques de Silêncio e Alvorada três vezes, sem pausas. Então, cerimoniosamente, ela prestou continência para a outra margem do lago. Quando finalmente voltou à sua posição agachada na borda do píer, pareceu fazê-lo com o máximo de arrependimento, como se tivesse ficado profundamente tocada por uma das virtudes da tradição naval que são vedadas ao público e a meninos pequenos. Ela ficou um momento encarando o mesquinho horizonte do lago, então pareceu lembrar que não estava totalmente só. Olhou — veneravelmente — para Lionel lá embaixo, que ainda estava de boca aberta. “Foi um toque secreto de clarim, que só os almirantes podem ouvir.” Ela acendeu o cigarro e soprou o fósforo com um jato de fumaça teatralmente fino e longo. “Se alguém ficasse sabendo que eu deixei você ouvir esse toque —” Ela sacudiu a cabeça. Novamente cravou no horizonte o sextante de seus olhos.

“Toca de novo.” “Impossível.” “Por quê?”

Boo Boo deu de ombros. “Pra começo de conversa, tem muito oficial de patente baixa por aqui.” Ela mudou de posição, sentando-se de pernas cruzadas, como uma índia. Ergueu as meias. “Mas eu vou fazer o seguinte”, ela disse, objetivamente. “Se você me contar por que você está fugindo, eu te mostro todos os toques secretos de clarim que eu conheço. Tudo bem?”

Lionel imediatamente baixou de novo os olhos para o convés. “Não”, ele disse.

“Por que não?” “Porque sim.” “Mas por quê?”

“Porque eu não quero”, disse Lionel, e deu um tranco na cana do leme para acrescentar ênfase.

Boo Boo protegeu do sol o lado direito do rosto. “Você me falou que tinha parado com isso de fugir”, ela disse. “A gente conversou e você me falou que tinha parado. Você jurou pra mim.”

Lionel deu uma resposta, mas ela não se fez ouvir. “O quê?”, disse Boo Boo.

“Eu não jurei.”

“Ah, jurou sim. Jurou mesmo.”

Lionel voltou a cuidar do leme de seu barco. “Se você é almirante”, ele disse, “cadê a sua esquadra?”

“A minha esquadra. Fico feliz que você tenha perguntado”, Boo Boo disse, e começou a descer para o bote.

“Sai!”, Lionel ordenou, mas sem cair num gritinho, e mantendo os olhos baixos. “Ninguém pode entrar.”

“Ah, não?” O pé de Boo Boo já estava tocando a proa do barco. Ela obedientemente o trouxe de volta ao nível do píer. “Ninguém mesmo?” Ela voltou à sua posição de índia. “Por que não?”

A resposta de Lionel foi completa, mas, de novo, não teve volume suficiente.

“O quê?”, disse Boo Boo. “Porque ninguém tem direito.”

Boo Boo, de olhos firmemente fixos no menino, ficou um minuto inteiro sem falar.

“Mas que pena”, ela disse, finalmente. “Eu ia adorar entrar no seu barco. Eu fico tão sozinha sem você. Com tanta saudade. Eu fiquei o dia todo sozinha em casa sem ninguém pra conversar comigo.”

Lionel não moveu a cana do leme. Examinava a textura da madeira da manopla. “Você pode conversar com a Sandra”, ele disse.

“A Sandra está ocupada”, Boo Boo disse. “E além do mais eu não quero conversar com a Sandra, eu quero conversar com você. Eu quero descer pro seu barco e conversar com você.”

“Você pode conversar daí mesmo.” “O quê?”

“Você pode conversar daí mesmo.”

“Não posso não. É muito longe. Eu tenho que ficar pertinho.” Lionel moveu o leme. “Ninguém pode entrar”, ele disse.

“O quê?”

“Ninguém pode entrar.”

“Bom, você pode me dizer daí mesmo por que você está fugindo?”, Boo Boo perguntou. “Depois de me jurar que tinha parado com isso?”

Uma máscara de mergulho estava no convés do bote, perto do banco da popa. Como resposta, Lionel prendeu a tira da máscara entre o dedão e o segundo dedo do pé direito e, com um hábil e breve movimento da perna, jogou a máscara por sobre a amurada. Ela imediatamente afundou.

“Que bacana. Que construtivo”, disse Boo Boo. “É do seu tio Webb. Ah, ele vai ficar tão contente.” Ela tragou o cigarro. “Era do seu tio Seymour.”

“Não estou nem aí.”

“Eu sei. Estou vendo que você não está nem aí mesmo”, Boo Boo disse. Seu cigarro estava curiosamente angulado entre os dedos; queimava perigosamente perto da dobra de uma das juntas. Subitamente sentindo o calor, ela deixou o cigarro cair na superfície do lago. Então tirou alguma coisa de um dos bolsos laterais. Era um pacote, mais ou menos do tamanho de um baralho, embrulhado em papel branco e amarrado com uma fita verde. “Isso é um chaveiro”, ela disse, sentindo que os olhos do menino se erguiam para ela. “Igualzinho o do papai. Mas com bem mais chaves que o dele. Este aqui tem dez chaves.”

Lionel se inclinou para a frente no seu banco, largando a cana do leme. Ele estendeu as mãos esperando um arremesso. “Joga?”, ele disse. “Por favor?”

“Vamos ficar onde estamos um minutinho, querido. Eu tenho que pensar um pouco. Eu devia era jogar esse chaveiro no lago.”

Lionel olhou para ela boquiaberto. Ele fechou a boca. “É meu”, ele disse com uma decrescente nota de justiça.

Boo Boo, olhando para ele, deu de ombros. “Eu não estou nem aí.”

Lionel lentamente sentou de novo, olhando para a mãe, e estendeu a mão para a cana do leme atrás de si. Seus olhos refletiam pura percepção, como sua mãe sabia que o fariam.

“Toma.” Boo Boo jogou o pacote para ele. Caiu-lhe bem no colo.

Ele olhou para o colo, pegou o pacote, olhou para o que tinha na mão e jogou — sem nem descolar o braço do corpo — no lago. Ele então ergueu imediatamente os olhos para Boo Boo, cheios não de desafio, mas de lágrimas. Em mais um instante, sua boca estava distorcida num 8 horizontal, e ele chorava vigorosamente.

Boo Boo se pôs de pé, cuidadosamente, como alguém cujo pé adormeceu no teatro, e desceu para o bote. Em segundos já estava no banco da popa, com o piloto no colo, e o embalava, beijando-lhe a nuca e lhe dando certas informações: “Marujo não Fhora, meu bem. Marujo nunFa chora. Só quando o navio afunda. Ou quando ele vira náufrago, de jangada e tudo, sem nada pra beber a não ser —”.

“A Sandra — disse pra sra. Smell — que o papai é um judeu — sovina.”

Boo Boo não conseguiu deixar de acusar o golpe, mas ergueu o menino e o colocou de pé à sua frente, tirando-lhe o cabelo da testa. “Ela falou isso, então?”, ela disse.

Lionel moveu enfaticamente a cabeça para cima e para baixo. Ele chegou mais perto, ainda chorando, para ficar entre as pernas da mãe.

“Bom, isso não é tão terrível assim”, Boo Boo disse, segurando o menino entre os tornos de seus braços e pernas. “Não é a pior coisa que podia acontecer.” Ela delicadamente mordeu a borda da orelha do menino. “Você sabe o que é um judeu sovina, meu bem?”

Lionel estava ou sem vontade ou sem capacidade de falar na hora. De qualquer maneira, ele esperou até que os soluços que vieram depois das lágrimas diminuíssem um pouco. Então sua resposta foi dada, abafada mas inteligível, no pescoço morno de Boo Boo. “É um daqueles Faras”, ele disse. “Aqueles caras que sovam o pão.”

Para poder olhar direito para ele, Boo Boo afastou um pouco o filho de si. Então pôs uma mão intrometida dentro dos fundilhos das calças dele, assustando consideravelmente o menino, mas quase imediatamente trouxe a mão de volta e decorosamente enfiou a camisa dele para dentro. “Olha o que a gente vai fazer”, ela disse. “A gente vai de carro até a cidade pra comprar picles e pão, e a gente vai comer os picles no carro, e aí a gente vai até a estação pra pegar o papai, e aí a gente traz o papai pra casa e faz ele levar a gente pra passear de barco. Você vai ter que ajudar a trazer as velas pra cá. Tudo bem?”

“Tudo bem”, disse Lionel.

Eles não voltaram andando para casa; apostaram corrida. Lionel ganhou.

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