Para Esmé com amor e sordidez – J.D. Salinger

By | April 1, 2023

Recentemente, por correio aéreo, recebi o convite de um casamento que vai acontecer na Inglaterra, no dia 18 de abril. Por acaso é um casamento de que eu daria muito para poder participar, e quando o convite chegou, pensei que podia conseguir fazer a viagem para o exterior, de avião, dane-se a despesa. Contudo, depois discuti a questão de maneira bem ampla com minha esposa, uma mulher de um bom senso atordoante, e nós decidimos contra a ideia — para começo de conversa, eu tinha esquecido completamente que minha sogra está querendo passar as duas últimas semanas de abril conosco. Eu não tenho mesmo muitas oportunidades de ver a mãe Grencher, e ela não é mais criança. Está com cinquenta e oito. (Como seria a primeira a admitir.)

Mas mesmo assim, esteja onde estiver, não acho que eu seja o tipo de pessoa que não mexe uma palha para evitar que um casamento faça água. Por isso mesmo, acabei rabiscando umas poucas notas reveladoras a respeito da noiva, como eu a conheci quase seis anos atrás. Se as minhas notas gerarem para o noivo, que não conheço, um ou dois momentos incômodos, tanto melhor. Ninguém aqui está querendo agradar. Na verdade, é mais para edificar, instruir.

Em abril de 1944, eu estava num grupo de cerca de sessenta militares americanos que fizeram um curso de treinamento pré-invasão um tanto especializado, conduzido pela Inteligência Britânica, em Devon, na Inglaterra. E quando eu lembro me parece que éramos bastante singulares, aqueles sessenta, na medida em que não havia um único indivíduo social naquele grupo. Nós todos éramos figuras essencialmente epistolares, e quando conversávamos fora do horário de trabalho, era normalmente para perguntar se o outro tinha tinta sobrando. Quando não estávamos escrevendo cartas ou assistindo aulas, cada um de nós seguia basicamente o seu próprio caminho. O meu normalmente me levava, em dias abertos, a circular panoramicamente pelo campo. Quando chovia, eu normalmente ficava sentado em algum lugar seco e lia um livro, muitas vezes a não mais que um cabo de machado de distância de uma mesa de pingue-pongue.

O curso de treinamento durou três semanas, terminando num sábado de muita chuva. Às sete horas da última noite, nosso grupo todo embarcaria num trem para Londres, onde, diziam as más-línguas, seríamos distribuídos por divisões de infantaria ou de paraquedistas que estavam sendo reunidas para os desembarques do Dia D. Às três da tarde eu tinha guardado as minhas coisas na sacola de bivaque, inclusive um estojo de lona para máscaras de gás todo cheio de livros que eu tinha trazido do Outro Lado. (A máscara de gás propriamente dita eu tinha jogado por uma escotilha do Mauretania umas semanas antes, plenamente ciente de que se o inimigo de fato usasse gás eu nunca ia colocar aquela porcaria a tempo.) Lembro de ficar parado muito tempo diante de uma das janelas da extremidade do nosso barracão Quonset, olhando a chuva inclinada, melancólica, com o dedo do gatilho coçando levemente, ou nada. Podia ouvir atrás de mim o raspar nada amistoso de muitas canetas-tinteiro em muitas folhas de papel de carta. Abruptamente, sem nada especial em mente, eu me afastei da janela e coloquei minha capa de chuva, a echarpe de caxemira, galochas, luvas de lã e bibico (sendo que este último, pelo que ainda me dizem, eu usava num ângulo todo próprio — meio abaixado sobre as duas orelhas). Então, depois de sincronizar meu relógio de pulso com o da latrina, eu desci a longa ladeira de pedra molhada que levava à cidade. Ignorei os relâmpagos que estouravam à minha volta. Eles ou iam te pegar ou não iam. No centro, que era provavelmente a parte mais molhada da cidade, eu parei diante de uma igreja para ler o quadro de avisos, especialmente porque os numerais que apareciam ali, preto no branco, tinham chamado a minha atenção, mas em parte porque, depois de três anos no exército, eu tinha ficado viciado em ler quadros de avisos. Às três e quinze, dizia o quadro, haveria um ensaio do coro infantil. Olhei para o meu relógio de pulso, e de novo para o quadro. Uma folha de papel estava presa com tachinhas, listando os nomes das crianças que deveriam comparecer ao ensaio. Fiquei parado na chuva lendo todos os nomes, e entrei na igreja.

Cerca de uma dúzia de adultos estava entre os bancos, vários deles com pares de galochas pequenas, com as solas viradas para cima, no colo. Eu fui passando e sentei na primeira fila. No púlpito, sentadas em três fileiras apertadas de cadeiras de auditório, estavam cerca de vinte crianças, quase todas meninas, que variavam entre sete e treze anos de idade. No momento, sua professora de canto coral, uma mulher imensa vestida de tweed, estava aconselhando as crianças a abrirem mais a boca quando cantassem. Será que alguém já tinha ouvido falar do passarinho que ousou cantar sua linda melodia sem primeiro abrir o bico bem, bem, bem grandão? Aparentemente ninguém tinha ouvido. Ela recebeu olhares firmes, opacos. Disse então que queria que todas as suas crianças absorvessem o sentido das palavras que cantavam, sem apenas ficar repetindo, como uns papagaios bobinhos. Ela então soprou uma nota em seu diapasão, e as crianças, como halterofilistas mirins, ergueram seus hinários.

Cantaram sem acompanhamento instrumental — ou, mais precisamente no caso delas, sem qualquer interferência. Suas vozes eram melodiosas e nada sentimentais, quase até um ponto em que um homem um tanto mais afiliado do que eu a alguma religião poderia, sem grande esforço, ter se sentido levitar. Algumas das crianças bem mais novas atrasavam um pouco o compasso, mas de uma maneira que seria reprovável apenas pela mãe do compositor. Eu jamais havia ouvido o hino, mas fiquei torcendo para que tivesse uma dúzia de estrofes, ou mais. Ouvindo, passava os olhos pelo rosto das crianças, mas prestava atenção em um deles em particular, o da criança que estava mais perto de mim, na cadeira da ponta da primeira fileira. Tinha seus treze anos, cabelo liso, loiro acinzentado, que lhe batia na altura do lóbulo da orelha, uma testa linda e olhos blasés que, eu achei, podiam muito bem ter contado o público presente. Sua voz ficava nitidamente separada das vozes das outras crianças, e não só porque ela estava sentada mais perto de mim. Tinha o melhor registro agudo, com o som mais doce, mais seguro, e automaticamente levava as outras atrás de si. Mas a mocinha parecia levemente entediada com sua própria capacidade vocal, ou quem sabe só com o momento e o local; duas vezes, entre estrofes, eu vi que ela bocejava. Era um bocejo educado, de boca fechada, mas não havia como não ver; as abas de suas narinas entregavam tudo.

Assim que o hino acabou, a professora começou a dar sua longa opinião a respeito de quem não fica com os pés imóveis e o bico fechado durante o sermão do pastor. Entendi que a parte musical do ensaio tinha acabado, e antes que a dissonante fala da professora conseguisse quebrar de todo o enlevo gerado pelo canto das crianças, eu me levantei e saí da igreja.

Estava chovendo ainda mais forte. Desci a rua e olhei pela janela da sala de recreação da Cruz Vermelha, mas duas ou três camadas de soldados se acumulavam diante do balcão do café, e, mesmo do outro lado do vidro, eu já podia ouvir bolas de pingue-pongue quicando logo ao lado. Atravessei a rua e entrei num salão de chá civil, que estava vazio, fora uma garçonete de meia-idade, com cara de quem teria preferido um cliente com uma capa seca. Usei um cabideiro com toda a delicadeza possível, e então sentei em uma mesa e pedi chá e uma torrada de canela. Foi a primeira vez no dia inteiro em que eu falei com alguém. Então verifiquei todos os meus bolsos, inclusive os da capa de chuva, e finalmente encontrei algumas cartas velhas para reler, uma da minha esposa, que relatava como o serviço da confeitaria Schrafft da rua 88 tinha piorado, e uma da minha sogra, pedindo que eu lhe enviasse um novelo de lã de caxemira assim que tivesse uma chance de sair do meu “acampamento”.

Enquanto eu ainda estava na primeira xícara de chá, a mocinha que fiquei observando e ouvindo no coro entrou no salão de chá. Seu cabelo estava encharcado, e a borda de suas duas orelhas aparecia. Trazia um menino bem pequeno, inequivocamente seu irmão, cujo boné ela retirou erguendo-o da cabeça dele com dois dedinhos, como se fosse um espécime de laboratório. Fechando o grupo vinha uma mulher de aparência eficiente, com um chapéu de feltro desabado — supostamente a governanta. A integrante do coro, tirando o casaco enquanto atravessava o salão, fez a escolha da mesa — uma boa mesa, do meu ponto de vista, já que ficava a uns três metros de distância, bem na minha frente. Ela e a governanta sentaram. O menininho, que tinha seus cinco anos de idade, ainda não estava pronto para sentar. Ele escapou de seu casaquinho e o largou; então, com a expressão impassível de um azucrinador nato, ele metodicamente se dedicou a irritar a governanta empurrando e puxando a cadeira várias vezes, de olho na cara dela. A governanta, falando baixo, deu-lhe duas ou três ordens para sentar e, no fundo, parar de bobagem, mas foi só quando a irmã falou com ele que o menino se convenceu e encostou a coluna lombar no assento da cadeira. Ele imediatamente pegou seu guardanapo e o colocou na cabeça. Sua irmã o retirou, abriu, e o colocou no seu colo.

Mais ou menos quando seu chá chegava, a integrante do coro me pegou encarando seu grupinho. Ela devolveu o olhar, com aqueles olhos de contar plateia, e então, abruptamente, deu-me um pequeno sorriso, com restrições. Foi estranhamente radiante, como certos pequenos sorrisos com restrições por vezes são. Sorri de volta, de modo muito menos radiante, mantendo o lábio superior sobre uma obturação temporária de campanha, negra como carvão, entre dois dos meus incisivos. Quando me dei conta, a mocinha estava de pé, com uma elegância invejável, junto da minha mesa. Usava um vestido de xadrez escocês — do clã Campbell, acredito. Na minha opinião era um vestido maravilhoso para uma menina daquela idade estar usando num dia de tanta, mas tanta, chuva. “Eu achava que os americanos detestavam chá”, ela disse.

Não foi a observação de uma espertinha, mas sim de uma devota da verdade, ou da estatística. Respondi que alguns de nós nunca bebiam outra coisa a não ser chá. Perguntei se ela gostaria de sentar.

“Obrigada”, ela disse. “Talvez por um brevíssimo momento.”

Eu levantei e puxei uma cadeira para ela, a que ficava na minha frente, e ela sentou-se no primeiro quarto do assento, mantendo a coluna linda e tranquilamente ereta. Eu voltei — quase correndo — para a minha cadeira, mais do que disposto a contribuir com a minha parte da conversa. Mas depois de sentar não consegui pensar em nada para dizer. Sorri de novo, ainda mantendo a obturação negra ocultada. Comentei que estava um tempo horroroso.

“Sim; de fato”, disse minha convidada, com a perceptível, inconfundível voz de alguém que abomina conversa-fiada. Ela pôs os dedos estendidos na borda da mesa, como alguém que estivesse numa sessão espírita, então, quase imediatamente, fechou as mãos — suas unhas estavam roídas até o sabugo. Usava um relógio de pulso de aparência militar, que parecia mais o cronógrafo de um navegador. O mostrador era grande demais para seu pulso fino. “Você estava no ensaio do coro”, ela disse com objetividade. “Eu vi você.”

Eu disse que era bem verdade, e que tinha ouvido a voz dela cantando separada dos outros. Disse que achava que ela era dona de uma bela voz.

Ela concordou com a cabeça. “Eu sei. Eu vou ser cantora profissional.” “Sério? De ópera?”

“Ah, não, Jesus amado. Eu vou cantar jazz no rádio e ganhar pilhas de dinheiro. Aí, quando fizer trinta anos, eu vou me aposentar e viver num rancho em Ohio.” Ela tocou o topo da cabeça encharcada com a palma da mão. “Você conhece Ohio?”, ela perguntou.

Eu disse que passei de trem por lá algumas vezes, mas que não conhecia de verdade. Ofereci um pedaço de torrada de canela.

“Não, obrigada”, ela disse. “Eu como que nem passarinho, na verdade.”

Eu mordi um pedaço de torrada, e comentei que Ohio tem regiões de acesso bem difícil.

“Eu sei. Um americano que eu conheci me disse. Você é o décimo primeiro americano que eu conheço.”

A governanta agora fazia sinais urgentes para que ela retornasse à mesa — a bem da verdade, para que deixasse de incomodar o cavalheiro. Minha convidada, contudo, moveu calmamente a cadeira três ou quatro centímetros de modo que suas costas rompessem toda possível comunicação futura com sua mesa de origem. “Você frequenta aquela escola secreta da Inteligência lá no morro, não é?”, ela inquiriu com naturalidade.

Com a preocupação que tínhamos todos com a segurança, eu respondi que estava visitando Devonshire por causa da minha saúde.

“Sério?”, ela disse. “Eu não nasci exatamente ontem, sabe.”

Eu disse que apostava nisso, pelo menos. Fiquei um momento bebendo meu chá. Estava ficando um quase nada consciente quanto à minha postura, e sentei mais ereto na cadeira.

“Você parece bem inteligente para um americano”, minha convidada meditou.

Eu lhe disse que se tratava de algo muito esnobe de se dizer, se você se desse ao trabalho de pensar no assunto, e que eu esperava que isso estivesse abaixo dela.

Ela corou — e me concedeu automaticamente a elegância social de que eu já vinha sentindo falta. “Bem. Quase todos os americanos que eu já vi se comportam como animais. Eles vivem se socando, e insultando todo mundo, e — Você sabe o que um deles fez?”

Eu sacudi a cabeça.

“Um deles jogou uma garrafa vazia de uísque na janela da minha tia.

Felizmente, a janela estava aberta. Mas isso te parece muito inteligente?”

Não muito, mas eu não disse isso. Disse que muitos soldados, no mundo todo, estavam muito longe de casa, e que poucos deles tiveram grandes vantagens reais na vida. Disse que achava que a maioria das pessoas conseguia entender isso tudo sozinha.

“É possível”, disse minha convidada, sem convicção. Ela ergueu a mão de novo para a cabeça molhada, pegou alguns filamentos frouxos de cabelo loiro, tentando cobrir as bordas expostas da orelha. “O meu cabelo está encharcado”, ela disse. “Eu estou com uma aparência medonha.” Ela olhou para mim. “O meu cabelo é bem ondulado quando está seco.”

“Dá para ver, dá para ver que é mesmo.”

“Não chega a ser cacheado, mas é bem ondulado”, ela disse. “Você é casado?”

Eu disse que era.

Ela concordou com a cabeça. “Você é profundissimamente apaixonado pela sua esposa? Ou eu estou sendo invasiva?”

Eu disse que quando ela estivesse, eu diria.

Ela colocou as mãos e os pulsos mais para a frente na mesa, e eu lembro de querer fazer alguma coisa a respeito daquele relógio de pulso imenso que ela usava — quem sabe sugerir que ela o usasse na cintura.

“Normalmente eu não sou das mais gregárias”, ela disse, e deu uma olhada para ver se eu conhecia a palavra. Mas eu não lhe dei sinal, nem de sim nem de não. “Eu puramente vim até aqui porque achei que você parecia extremamente solitário. Você tem um rosto extremamente sensível.”

Eu disse que ela tinha razão, que eu estava me sentindo só, e que tinha ficado muito feliz por ela ter vindo.

“Eu estou me treinando para ser mais piedosa. A minha tia diz que eu sou uma pessoa terrivelmente fria”, ela disse, e de novo sentiu o topo da cabeça. “Eu moro com a minha tia. Ela é uma pessoa extremamente bondosa. Desde a morte da minha mãe, ela fez de tudo que estava ao seu alcance para que eu e o Charles não nos sentíssemos deslocados.”
“Que bom.”

“Minha mãe era uma pessoa extremamente inteligente. Bem sensual, de várias maneiras.” Ela olhou para mim com um tipo de perspicácia atrevida. “Você me acha terrivelmente fria?”

Eu lhe disse que não, absolutamente — muito pelo contrário, na verdade.

Eu lhe disse o meu nome e perguntei o seu.

Ela hesitou. “O meu primeiro nome é Esmé. Acho que não devo lhe dizer o meu nome todo, por enquanto. Eu tenho um título e você pode ser daqueles que se impressionam com títulos. Os americanos são, sabe.”

Eu disse que não achava que eu seria, mas que talvez fosse boa ideia, no mínimo, guardar o título por um tempo.

Bem nesse momento, senti a respiração quente de alguém na minha nuca. Eu me virei e quase rocei o nariz no do irmãozinho de Esmé. Ignorando a mim, ele se dirigiu à irmã numa voz aguda, penetrante: “A srta. Megley disse que é pra você voltar e acabar de tomar o seu chá!”. Entregue o recado, ele se recolheu à cadeira que ficava entre mim e a irmã, à minha direita. Eu o observei com grande interesse. Ele estava com uma aparência muito esplêndida, com calças curtas marrons das Shetland, colete azul- marinho, camisa branca e gravata listrada. Ele devolvia o meu olhar com imensos olhos verdes. “Por que as pessoas do cinema beijam de lado?”, exigiu saber.

“De lado?”, eu disse. Era um problema que me deixou perplexo na infância. Eu disse que achava que era porque os narizes dos atores eram grandes demais para beijar os outros de frente.

“O nome dele é Charles”, Esmé disse. “Ele é extremamente brilhante para a idade.”

“Ele tem uns olhos verdes demais. Não é verdade, Charles?”

Charles me deu o olhar desconfiado que a minha pergunta merecia, então foi escorregando pela cadeira até estar com todo o corpo embaixo da mesa, exceto a cabeça, que deixou, como numa ponte de luta livre, sobre o assento. “É laranja”, disse com dificuldade, dirigindo-se ao teto. Ele pegou um canto da toalha de mesa e o colocou sobre seu rosto bonito, impassível.

“Às vezes ele é brilhante, e às vezes não”, Esmé disse. “Charles, sente direito!”

Charles ficou bem onde estava. Parecia estar segurando a respiração. “Ele tem muita saudade do nosso pai. Ele foi m-o-r-t-o no norte da África.”

Manifestei minha tristeza por saber disso.

Esmé concordou com a cabeça. “O meu pai adorava esse aqui.” Ela mordeu pensativa a cutícula do polegar. “Ele é bem parecido com a mãe — o Charles, claro. Eu sou exatamente como o meu pai.” Ela continuou roendo a cutícula. “A minha mãe era uma mulher muito passional. Era extrovertida. O pai era introvertido. Mas eles eram um belo casal, de maneira superficial. Para ser bem honesta, meu pai precisava de uma companheira mais intelectual do que minha mãe. Ele era um gênio extremamente talentoso.”

Fiquei esperando, receptivamente, por outras informações, mas nada veio. Olhei para Charles, que agora descansava a lateral do rosto no assento da cadeira. Quando ele viu que eu estava olhando, fechou os olhos, sonolenta e angelicamente, e aí esticou a língua — um apêndice de comprimento espantoso — e deu o que na minha terra seria um glorioso tributo a um juiz míope de beisebol. Aquilo abalou consideravelmente o salão de chá.

“Pare com isso”, Esmé disse, nitidamente sem se abalar. “Ele viu um americano fazer isso na fila do peixe com batata frita, e agora faz toda vez que fica entediado. Pare já com isso, ou eu te mando direto pra srta. Megley.”

Charles abriu seus olhos enormes, sinal de que tinha ouvido a ameaça da irmã, mas fora isso não deu mostras de ter recebido grandes repreensões. Ele fechou de novo os olhos, e continuou descansando a lateral do rosto no assento da cadeira.

Eu mencionei que talvez fosse melhor ele guardar aquilo — ou seja, a saudação do Bronx — até começar a usar regularmente seu título. Quer dizer, se ele também tivesse um título.

Esmé me olhou longa e algo cinicamente. “Você tem um senso de humor ácido, não é?”, ela disse — melancólica. “Meu pai dizia que eu nem tinha senso de humor. Ele dizia que eu estava mal preparada para a vida porque não tenho senso de humor.”

Atento a ela, acendi um cigarro e disse que não achava que o senso de humor fosse útil numa complicação de verdade.

“Meu pai dizia que era.”

Tratava-se de uma declaração de fé, não de uma contradição, e rápido eu virei a casaca. Concordei com a cabeça e disse que o pai dela provavelmente pensava mais a longo prazo, enquanto eu pensava no curto (fosse lá o que isso quisesse dizer).

“O Charles sente uma saudade extrema dele”, Esmé disse, depois de um momento. “Ele era um homem extremamente amável. E era demasiadamente bonito, também. Não que a aparência da pessoa tenha grande importância. Mas ele era bonito. Tinha olhos terrivelmente penetrantes, para um homem que era intrinsecamente bondoso.”

Eu concordei com a cabeça. Disse que imaginava que o pai dela tivesse um vocabulário extraordinário.

“Ah, sim; muito”, disse Esmé. “Ele era arquivista — diletante, claro.”

Naquele momento, senti um cutucão importuno, quase um soco, no meu antebraço, procedente da região de Charles. Eu me virei para o menino. Ele agora estava sentado numa posição bem normal na cadeira, a não ser pelo fato de que tinha uma perna dobrada sob o corpo. “O que foi que a tijola disse pro tijolo?”, ele perguntou com voz aguda. “É uma charada!”

Revirei os olhos reflexivamente para o teto e repeti a pergunta em voz alta. Então olhei para Charles com uma expressão de perplexidade e disse que desistia.

“Não seja cimento!”, veio a piada, no volume mais alto.

Quem mais riu foi o próprio Charles. Aquilo lhe parecia insuportavelmente engraçado. A bem da verdade, Esmé teve que ir até lá e lhe dar tapas nas costas, como quem tratasse um ataque de tosse. “Agora chega”, disse. Ela voltou à sua cadeira. “Ele faz essa mesma adivinha pra todo mundo que encontra e tem um ataque toda santa vez. Normalmente ele baba quando ri. Agora chega, pronto, por favor.”

“Mas é uma das melhores charadas que eu já ouvi”, eu disse, de olho em Charles, que ia muito gradualmente voltando a si. Em reação a esse elogio, ele se afundou bem mais na cadeira e de novo cobriu o rosto até os olhos com um canto da toalha. Ele então olhou para mim com os olhos expostos, que estavam cheios de uma alegria que aos poucos se apagava, e do orgulho de alguém que conhece uma ou duas charadas realmente boas.

“Posso perguntar qual era a sua profissão antes de você entrar para o exército?”, Esmé me perguntou.

Eu disse que não estava empregado, que fazia apenas um ano que tinha me formado na universidade, mas que gostava de me considerar um contista profissional.

Ela fez um gesto educado com a cabeça. “Publicado?”, perguntou.

Era uma questão familiar, mas sempre delicada, e algo que eu não respondia assim sem mais nem menos. Comecei a explicar que em geral os editores dos Estados Unidos eram um bando de — “O meu pai tinha uma prosa linda”, Esmé interrompeu. “Eu estou guardando diversas cartas dele para a posteridade.”

Eu disse que me parecia uma ideia excelente. Eu por acaso estava olhando novamente seu relógio de mostrador enorme, com aparência de cronógrafo. Perguntei se tinha sido do seu pai.

Ela olhou solenemente para o pulso. “Era dele sim”, disse. “Ele me deu o relógio logo antes de o Charles e eu sermos evacuados.” Constrangida, ela tirou as mãos da mesa, dizendo, “Puramente como suvenir, é claro”. Ela guiou a conversa em outra direção. “Eu ficaria lisonjeadíssima se você escrevesse um conto exclusivamente para mim em algum momento. Eu sou uma leitora voraz.”

Eu lhe disse que certamente escreveria, se pudesse. Disse que não era muito prolífico.

“Não precisa ser muito prolífico! Desde que não seja infantil e tolo.” Ela refletiu. “Eu prefiro histórias de sordidez.”

“De quê?”, eu disse, inclinando-me para a frente. “Sordidez. Eu sou extremamente interessada em sordidez.”

Eu estava prestes a tentar conseguir mais detalhes, mas senti Charles me beliscando, com força, no braço. Virei para ele, com o rosto meio contorcido. Ele estava em pé bem do meu lado. “O que foi que a tijola disse pro tijolo?”, ele me perguntou, não sem certa familiaridade.

“Você já perguntou isso para ele”, Esmé disse. “Agora chega.”

Ignorando a irmã, e subindo num dos meus pés, Charles repetiu a pergunta-chave. Percebi que o nó de sua gravata não estava devidamente arrumado. Eu o pus no lugar e então, olhando bem nos olhos dele, sugeri, “Não seja cimento?”.

Assim que falei, eu me arrependi. O queixo de Charles caiu. Fiquei com a impressão de ter, eu, aberto sua boca com um golpe. Ele desceu do meu pé e, com uma dignidade enfurecida, foi para sua própria mesa, sem olhar para trás.

“Ele está fulo”, Esmé disse. “Ele tem um gênio violento. A minha mãe tinha certa propensão a mimar o Charles. O meu pai era o único que não mimava.”

Continuei olhando para Charles, que sentou e começou a beber seu chá, usando as duas mãos na xícara. Fiquei torcendo que ele se virasse, mas não se virou.

Esmé se pôs de pé. “Il faut que je parte aussi ”, ela disse, com um suspiro. “Você sabe alguma coisa de francês?”

Eu levantei da cadeira, sentindo ao mesmo tempo arrependimento e confusão. Apertei a mão de Esmé; sua mão, como eu suspeitava, era nervosa, com a palma úmida. Eu lhe disse, em inglês, o quanto tinha apreciado sua companhia.

Ela concordou com a cabeça. “Achei mesmo que você ia apreciar”, ela disse. “Eu sou bem comunicativa para a minha idade.” Ela de novo tocou experimentalmente o cabelo. “Sinto muitíssimo pelo meu cabelo”, disse. “Eu provavelmente estava medonha de se ver.”

“Não mesmo! A bem da verdade, acho que o ondulado já está voltando.”

Ela rapidamente tocou de novo o cabelo. “Você acha que vai aparecer de novo por aqui no futuro imediato?”, ela perguntou. “Nós passamos aqui todo sábado, depois do ensaio do coro.”

Eu respondi que adoraria, mas que, infelizmente, estava quase certo de que não poderia mais vir.

“Em outras palavras, você não pode discutir a movimentação das tropas”, disse Esmé. Ela não esboçou qualquer gesto de quem estava para deixar a vizinhança da mesa. A bem da verdade, cruzou os pés e, olhando para baixo, alinhou o bico dos sapatos. Foi uma execução bem bonita, pois ela estava usando meias brancas e seus tornozelos e seus pés eram lindos. Abruptamente ela ergueu os olhos para mim. “Você quer que eu escreva para você?”, perguntou, com certo rubor no rosto. “Eu escrevo cartas extremamente articuladas para alguém da minha —”

“Eu ia adorar.” Peguei lápis e papel e escrevi meu nome, minha patente, meu número de identidade e o número da minha caixa postal militar.

“Eu vou escrever primeiro”, ela disse, aceitando o papel, “para você não se sentir obrigado de maneira alguma.” Guardou o endereço num bolso do vestido. “Adeus”, ela disse, e voltou para sua mesa.

Eu pedi outro bule de chá e fiquei observando os dois até que eles, e a maltratada srta. Megley, levantaram para ir embora. Charles foi na frente, mancando de maneira trágica, como um homem que tivesse uma perna vários centímetros mais curta que a outra. Não olhou para mim. A srta. Megley foi atrás, e depois Esmé, que acenou para mim. Eu devolvi o aceno, levantando um pouco da cadeira. Foi um momento estranhamente tocante para mim.

Menos de um minuto depois, Esmé voltou para o salão de chá, arrastando Charles pela manga do casaquinho. “O Charles queria lhe dar um beijo de despedida”, ela disse.

Eu imediatamente larguei a xícara na mesa, e disse que era muita gentileza, mas ele queria mesmo?

“Sim”, ela disse, um pouco ameaçadora. Largou a manga de Charles e lhe deu um empurrão nada leve na minha direção. Ele veio, rosto lívido, e me deu um beijo estalado, ruidoso e molhado, bem embaixo do ouvido direito. Depois desse sacrifício, ele saiu reto na direção da porta e de uma vida menos sentimental, mas eu segurei o meio cinto que ficava nas costas de seu casaquinho, não larguei, e lhe perguntei, “O que foi que a tijola disse pro tijolo?”.

Seu rosto se iluminou. “Não seja cimento!”, ele gritou, e saiu correndo dali, possivelmente se contorcendo de rir.

Esmé estava de novo parada com os tornozelos cruzados. “Você tem certeza de que não vai esquecer de me escrever aquele conto?”, ela perguntou. “Não precisa ser exclusivamente para mim. Pode ser —”

Eu disse que absolutamente não havia chance de esquecer. Eu lhe disse que nunca tinha escrito um conto para alguém, mas que me parecia ser a hora exata de começar a tentar.

Ela concordou com a cabeça. “Escreva uma história bem sórdida e comovente”, ela sugeriu. “Você tem nem que seja uma familiaridade remota com a sordidez?”

Eu disse que não exatamente, mas que estava ganhando mais familiaridade, de um jeito ou de outro, o tempo todo, e que ia fazer o melhor possível para atender as exigências dela. Trocamos um aperto de mãos.

“Não é uma pena nós não termos nos conhecido em circunstâncias menos extenuantes?”

Eu disse que era, disse que certamente era.

“Adeus”, Esmé disse. “Espero que você volte da guerra com todas as suas faculdades intactas.”

Eu lhe agradeci, e disse mais algumas palavras, e então a vi sair do salão de chá. Ela saiu de modo lento, meditativo, testando a umidade das pontas do cabelo.

Esta agora é a parte sórdida, ou comovente, do conto, e o cenário se altera. As pessoas também se alteram. Eu ainda estou por aí, mas deste ponto em diante, por motivos que não posso revelar, eu me disfarcei de modo tão ardiloso que nem mesmo o mais esperto dos leitores poderá me reconhecer.

Eram cerca de dez e meia da noite em Gaufurt, na Bavária, muitas semanas depois do Dia da Vitória na Europa. O segundo-sargento X estava em seu quarto no segundo andar de uma casa civil em que ele e outros nove soldados americanos estavam alojados desde antes do fim da guerra. Estava sentado numa cadeira dobrável de madeira, diante de uma mesinha pequena e bagunçada, com um romance de capa mole que lhe viera do outro lado do Atlântico aberto à sua frente, que ele lia com grande dificuldade. A dificuldade era dele, não do romance. Embora os homens que morassem no primeiro andar normalmente tivessem a primeira escolha dos livros que todo mês os Serviços Especiais lhes enviavam, X normalmente parecia acabar ficando com o livro que poderia ter escolhido por conta própria. Mas ele era um rapaz que não tinha passado pela guerra com todas as faculdades intactas, e por mais de uma hora vinha lendo três vezes cada parágrafo, e agora já fazia isso com as frases. De súbito, ele fechou o livro, sem marcar a página. Com a mão, protegeu por um momento os olhos do brilho ríspido de muitos watts da lâmpada exposta sobre a mesa.

Tirou um cigarro do maço que estava na mesa e o acendeu com dedos que delicada e incessantemente batiam uns nos outros. Recostou-se um quase nada na cadeira e fumou sem qualquer sensação de paladar. Estava fumando um cigarro atrás do outro havia semanas. Suas gengivas sangravam com qualquer pressão da ponta da língua, e ele quase nunca parava de testar; era um joguinho a que se entregava, às vezes de hora em hora. Ficou sentado por um momento, fumando e testando. Então, abrupta, familiarmente, e, como sempre, sem aviso prévio, ele pensou ter sentido sua mente se deslocar e adernar, como malas frouxas no bagageiro acima de uma poltrona. Ele logo fez o que vinha fazendo havia semanas para pôr as coisas em ordem: apertou bem as mãos contra as têmporas. Ficou segurando com força por um momento. Precisava cortar o cabelo, que estava sujo. Tinha lavado o cabelo duas ou três vezes durante sua estada de duas semanas no hospital em Frankfort sobre o Main, mas ele ficou sujo outra vez no longo e poeirento trajeto de jipe até Gaufurt. O cabo Z, que tinha ido buscá-lo no hospital, ainda dirigia o jipe como se estivesse em combate, com o para-brisa abaixado sobre o capô, com ou sem armistício. Havia milhares de soldados novos na Alemanha. Dirigindo com o para- brisa abaixado, como se estivesse em combate, o cabo Z esperava mostrar que não era um deles, que nem a pau ele era um dos filhos da puta novos ali na Força Expedicionária.

Quando largou a cabeça, X começou a olhar fixamente para a superfície da mesinha, que continha pelo menos duas dúzias de cartas por abrir, e ao menos cinco ou seis pacotes ainda fechados, todos endereçados a ele. Estendeu a mão por sobre os detritos e pegou um livro que estava apoiado contra a parede. Era um livro de Goebbels, intitulado Die Zeit Ohne Beispiel. Pertencia à filha solteira de trinta e oito anos de idade da família que, até algumas semanas antes, morava na casa. Era uma oficial subalterna do Partido Nazista, mas importante o suficiente, segundo os padrões do Regulamento do Exército, para cair na categoria de prisão automática. O próprio X tinha executado sua prisão. Agora, pela terceira vez desde que voltou do hospital naquele dia, ele abriu o livro da mulher e leu a breve inscrição da folha de rosto. Escritas à tinta, em alemão, numa caligrafia miúda e inutilmente sincera, estavam as palavras “Caro Deus, a vida é um inferno”. Nada levava a isso e nada saía disso. Sozinhas na página, e na doentia imobilidade do quarto, as palavras pareciam ter a estatura de uma acusação clássica, incontestável. X ficou olhando para a página por vários minutos, tentando, sem grandes chances, não ser convencido. Então, com muito mais empenho do que havia dedicado a qualquer outra coisa em semanas, ele pegou um toco de lápis e escreveu sob a inscrição, em inglês, “Pais e professores, pondero ‘O que é inferno?’. Sustento que seja o sofrimento de ser incapaz de amar”. Ele começou a escrever o nome de Dostoiévski embaixo da inscrição, mas viu — com um medo que lhe percorreu o corpo todo — que o que tinha escrito era quase completamente ilegível. Fechou o livro.

Ele logo pegou outra coisa da mesa, uma carta de seu irmão mais velho, em Albany. Ela estava na sua mesa já antes de ele ser internado. Ele abriu o envelope, vagamente determinado a ler a carta toda de uma vez, mas leu apenas a metade de cima da primeira página. Parou depois das palavras “Agora que a m. da guerra acabou e você provavelmente tem muito tempo livre por aí, que tal mandar umas baionetas ou umas suásticas pros meninos…”. Depois de ter rasgado a carta, ele olhou para os pedaços que estavam no cesto de papel. Viu que tinha deixado de notar uma foto anexada. Podia perceber os pés de alguém que estava em algum gramado.

Apoiou os braços sobre a mesa e descansou a cabeça neles. Sentia dor da cabeça aos pés, em regiões que eram todas aparentemente independentes. Ele era quase como uma árvore de Natal cujas luzes todas, ligadas em série, se apagam se apenas uma estiver com defeito.

A porta se abriu de supetão, sem que alguém tivesse batido. X ergueu a cabeça, virou-a, e viu o cabo Z parado à porta. O cabo Z tinha sido o parceiro de jipe e companheiro constante de X do Dia D em diante, em cinco campanhas da guerra. Ele morava no primeiro andar e normalmente vinha ver X quando tinha boatos ou reclamações para disparar. Era um homem imenso, fotogênico, de vinte e quatro anos de idade. Durante a guerra, uma revista nacional o fotografou na floresta de Hürtgen; ele posou, mais do que meramente de bom grado, com um peru de Ação de Graças em cada mão. “Tá escrevendo carta?”, ele perguntou a X. “Isso aqui está medonho, pelamordedeus.” Ele preferia sempre entrar num cômodo em que a luz do teto estivesse acesa.

X virou-se na cadeira e pediu que ele entrasse, e que tomasse cuidado para não pisar no cachorro.

“No o quê?”

“No Alvin. Ele está bem debaixo dos seus pés, Clay. Que tal acender a merda da luz?”

Clay encontrou o interruptor da luz do teto, acionou o botão, e então atravessou o quarto minúsculo, do tamanho das dependências de um criado, e sentou na beira da cama, encarando seu anfitrião. Seu cabelo cor de tijolo, recém-penteado, estava pingando com a quantidade de água que ele demandava para um penteado satisfatório. Um pente que tinha um clipe como o de uma caneta se projetava, familiarmente, do bolso direito da sua camisa verde-oliva. Sobre o bolso esquerdo ele estava usando o Distintivo da Infantaria de Combate (que, tecnicamente, não tinha autorização para usar), a barreta do Front Europeu, com cinco estrelas de serviço de bronze (em vez de uma única de prata, que era equivalente a cinco das de bronze), e a barreta de serviço pré-Pearl Harbor. Ele suspirou pesado e disse, “Jesus todo-poderoso”. Aquilo não queria dizer nada; era do exército. Pegou um maço de cigarros no bolso da camisa, tirou um com uma batida, depois guardou o maço e reabotoou a aba do bolso. Fumando, olhava sem expressão pelo quarto. Seu olhar acabou parando no rádio. “Olha”, ele disse. “Vai ter um programa genial daqui a pouquinho no rádio. Bob Hope e esse povo todo.”

X, abrindo um novo maço de cigarros, disse que tinha acabado de desligar o rádio.

Sem se toldar, Clay ficou vendo X tentar fazer um cigarro acender. “Jesus”, ele disse, com o entusiasmo de um espectador, “cê tinha que ver a merda dessas suas mãos. Rapaz, isso que é tremer. Cê sabia?”

X conseguiu acender o cigarro, concordou com a cabeça, e disse que Clay era ótimo para perceber detalhes.

“Sem brincadeira, amigo. Eu quase que desmaio quando te vi na merda lá do hospital. Você parecia a merda de um Fadáver. Quanto peso que cê perdeu? Quantos quilos? Cê sabe?”

“Não sei. Como é que ficou a sua correspondência enquanto eu não estava aqui? Notícias da Loretta?”

Loretta era a namorada de Clay. Eles pretendiam se casar assim que fosse possível. Ela escrevia bem regularmente para ele, lá de seu paraíso de pontos triplos de exclamação e observações imprecisas. Durante a guerra toda, Clay leu todas as cartas de Loretta em voz alta para X, por mais íntimas que fossem — a bem da verdade, quanto mais íntimas, melhor. Era hábito dele, depois de cada leitura, pedir que X esboçasse ou desse uma enfeitada na carta de resposta, ou que inserisse algumas palavras impressionantes em francês ou alemão.

“É, recebi carta dela ontem. Lá no quarto. Depois te mostro”, Clay disse, apático. Ele sentou mais ereto na borda da cama, segurou a respiração, e soltou um longo e ressonante arroto. Parecendo apenas semirrealizado com o feito, relaxou novamente. “O merda do irmão dela vai sair da marinha por causa do quadril”, ele disse. “Ele tem lá uma coisa no quadril, o desgraçado.” Ele sentou de novo ereto e tentou mais um arroto, mas com resultados abaixo do desejado. Uma pontinha de atenção passou pelo seu rosto. “Olha. Antes que eu esqueça. A gente tem que acordar às cinco amanhã e ir de carro pra Hamburgo ou sei lá mais onde. Pegar umas jaquetas de fardamento pro destacamento todo.”

X, olhando para ele com hostilidade, declarou que não precisava de uma jaqueta de fardamento.

Clay pareceu surpreso, quase um pouco magoado. “Ah, mas elas são bacanas! São bonitas. Como assim?”

“Nenhum motivo. Por que é que a gente tem que acordar às cinco? A guerra acabou, meu Deus.”

“Sei lá — a gente tem que voltar antes do almoço. Eles têm lá uns formulários novos que a gente precisa preencher antes do almoço… Eu perguntei pro Bulling por que que a gente não podia preencher hoje de noite — ele está com a merda dos formulários bem lá na mesa dele. Ele não quer abrir ainda os envelopes, o filho de uma puta.”

Os dois ficaram um momento em silêncio, odiando Bulling.

Clay subitamente olhou para X com um novo — e maior — interesse. “Olha”, ele disse. “Você sabia que a merda do seu rosto aqui do lado está sacudindo adoidado?”

X disse que sabia muito bem, e cobriu seu tique com a mão.

Clay ficou um momento olhando para ele, então disse, de modo muito vivo, como se estivesse trazendo notícias excepcionalmente boas, “Eu escrevi pra Loretta dizendo que você teve um colapso nervoso”.

“Ah, é?”

“É. Ela se interessa pra diabo por essas coisas aí. Ela vai se formar em psicologia.” Clay se estendeu na cama, de sapato e tudo. “Sabe o que ela disse? Ela diz que ninguém tem um colapso nervoso só por causa da guerra. Ela diz que provavelmente você foi instável, assim, durante a merda da sua vida toda.”

X fez com a mão uma ponte por sobre os olhos — parecia que a luz acima da cama o cegava — e disse que as ideias de Loretta sobre as coisas eram sempre uma alegria.

Clay deu uma espiada nele. “Escute aqui, seu desgraçado”, ele disse. “Ela sabe bem mais dessa merda de psicologia do que voFê.”

“Você acha que consegue tirar esses pés sujos de cima da minha cama?”, X perguntou.

Clay deixou os pés onde estavam por alguns não-me-diga-onde-pôr-os- pés segundos, então os jogou para o chão e sentou. “Eu vou descer mesmo assim. Eles têm um rádio lá no quarto do Walker.” Mas ele não levantou da cama. “Olha, agorinha mesmo eu estava dizendo praquele filho da puta novo lá, o Bernstein, do andar de baixo. Lembra aquela vez que eu e você fomos de carro pra Valognes, e a gente tomou bomba por umas duas horas, e aquela merda daquele gato que eu dei um tiro, que pulou no capô da merda do jipe quando a gente estava enfiado naquele buraco? Lembra?”

“Lembro — não me venha de novo com isso do gato, Clay, que merda.

Eu não quero ouvir essa história.”

“Não, eu só estou dizendo que escrevi dizendo isso pra Loretta. Ela e a merda da turma toda de psicologia discutiram essa história. Em sala de aula e tal. Com a merda do professor e todo mundo.”

“Que bom. Eu não quero saber, Clay.”

“Não, você sabe o motivo de eu ter dado um tiro no bicho, diz a Loretta? Ela diz que eu estava temporariamente insano. Sem brincadeira. Por causa do bombardeio e tal.”

X entrançou os dedos, uma vez, por entre o cabelo sujo, então protegeu de novo os olhos da luz. “Você não estava insano. Você estava simplesmente cumprindo o seu dever. Você matou aquele gato da maneira mais viril que seria possível, dadas as circunstâncias.”

Clay olhou desconfiado para ele. “De que diabos você está falando?” “Aquele gato era um espião. Você tinha que dar um tiro no bicho. Era um anão alemão inteligentíssimo, com um casaco de pele barato. Então não teve absolutamente nada de brutal, ou de cruel, ou nojento, e nem mesmo —”

“Que merda!”, Clay disse, com os lábios estreitos. “Será que você nunca consegue ser sinFero?”

X sentiu uma súbita náusea, e girou na cadeira para pegar o cesto de papel — bem a tempo.

Quando tinha se recomposto e virado novamente para seu convidado, ele o viu de pé, constrangido, a meio caminho entre a cama e a porta. X começou a se desculpar, mas mudou de opinião e pegou seus cigarros.

“Vamos lá ouvir o Hope no rádio, hein”, Clay disse, mantendo distância mas tentando ser amistoso assim de longe. “Vai te fazer bem. Sério mesmo.”

“Vai lá você, Clay… Eu vou ficar olhando a minha coleção de selos.” “Ah, é? Você tem uma coleção de selos aqui? Eu não sabia que você —” “Só brincadeira.”

Clay deu passos lentos na direção da porta. “Pode ser que eu pegue o carro pra ir até Ehstadt mais tarde”, ele disse. “Tem um baile lá. Deve ir até às duas mais ou menos. Quer ir?”

“Não, obrigado… Talvez eu ensaie uns passos aqui no quarto.”

“Tá bom. Boa noite! Mas pega leve agora, pelamordedeus.” A porta se fechou com um baque, então abriu de novo imediatamente. “Olha. Tudo bem se eu deixar uma carta pra Loretta por baixo da tua porta? Tem umas partes em alemão. Cê podia conferir pra mim?”

“Posso. Mas me deixa em paz agora, merda.”

“Claro”, disse Clay. “Você sabe que a minha mãe me escreveu? Ela disse que fica feliz que eu e você passamos a guerra toda juntos. No mesmo jipe e tal. Ela diz que o diabo das minhas cartas estão bem mais inteligentes depois que a gente começou a andar junto.”

X ergueu os olhos para ele, e disse, com grande esforço, “Obrigado.

Agradeça a ela por mim”.

“Agradeço sim. Boa noite!” A porta bateu, dessa vez defini- tivamente.

X ficou um longo tempo sentado olhando para a porta, então virou a cadeira para a mesinha e pegou sua máquina de escrever, que estava no chão. Abriu espaço para ela na bagunçada superfície da mesa, empurrando para o lado a pilha desmoronada de cartas e pacotes por abrir. Pensou que talvez escrever uma carta para um velho amigo em Nova York pudesse lhe render uma terapiazinha rápida, ainda que leve. Mas não conseguiu inserir direito o papel no tambor, de tão violentamente que seus dedos já tremiam. Baixou as mãos ao lado do corpo por um minuto, e então tentou de novo, mas acabou amassando o papel na mão.

Tinha consciência de que devia tirar o cesto de papel do quarto, mas em vez de tomar alguma providência a esse respeito, pôs os braços em cima da máquina de escrever e descansou de novo a cabeça, fechando os olhos.

Depois de alguns minutos latejantes, quando abriu os olhos ele se viu tentando focalizar um pequeno pacote feito de papel verde. Provavelmente tinha escorregado da pilha quando ele abriu espaço para a máquina de escrever. Viu que tinha sido reendereçado várias vezes. Conseguiu discernir, somente num dos lados do pacote, pelo menos três de seus antigos números de caixa postal do exército.

Abriu o pacote sem qualquer interesse, sem nem olhar para o endereço do remetente. Abriu queimando o barbante com um fósforo aceso. Estava mais interessado em ver o barbante queimando até o fim do que em abrir o pacote, mas acabou abrindo.

Dentro da caixa, um bilhete, escrito à tinta, estava sobre um pequeno objeto embrulhado em papel de seda. Ele pegou o bilhete e leu.

[…] ROAD, 17.
[…], DEVON
7 DE JUNHO DE 1944

CARO SARGENTO X,

Espero que você me perdoe por ter demorado 38 dias para dar início à nossa correspondência mas, estive extremamente ocupada já que minha tia sofreu um estreptococos da garganta e quase faleceu e eu fiquei justificadamente assoberbada com uma responsabilidade por cima da outra. Contudo, pensei frequentemente em você e na tarde extremamente prazerosa que passamos juntos no dia 30 de abril de 1944, entre as 3h45 e as 4h15 da tarde, caso você tenha esquecido.

Estamos todos tremendamente empolgados e pasmados com o Dia D e só posso esperar que ele traga a veloz cessação da guerra e de um método de existência que é ridículo para se dizer pouco. Charles e eu estamos ambos muito preocupados com você; esperamos que você não estivesse entre aqueles que fizeram o ataque inicial na Península de Cotentin. Esteve? Por favor, responda assim que for possível. Minhas mais amistosas saudações à sua esposa.

Sinceramente sua,
ESMÉ

P.S.: Estou tomando a liberdade de incluir aqui meu relógio de pulso que você pode guardar com você enquanto durar o conflito. Não observei se você estava usando um relógio durante nosso breve consórcio, mas este é extremamente à prova d’água e de choque além de ter muitas outras virtudes entre as quais se pode saber com que velocidade se está caminhando se for esse o seu desejo. Tenho certeza de que você dará a ele uso melhor nesses dias difíceis do que eu jamais poderia fazer e que você o aceitará como amuleto de sorte.

Charles, que estou ensinando a ler e escrever e que venho descobrindo ser um pupilo extremamente inteligente, desejaria acrescentar algumas palavras. Por favor, escreva assim que tiver o tempo e a inclinação.

OI OI OI OI OI OI OI OI OI OI OI OI OI OI OI OI ABRAÇO BEIJO CHARLES

Demorou bastante para X conseguir pôr o bilhete de lado, que dirá tirar da caixa o relógio de pulso do pai de Esmé. Quando finalmente o tirou dali, viu que seu vidro tinha se partido no caminho. Ficou pensando se o relógio, fora isso, estava intacto, mas não teve coragem de lhe dar corda e descobrir. Ficou somente sentado com ele na mão por outro longo período. Então, de repente, quase extasiado, sentiu sono.

Se o sujeito está com muito sono mesmo, Esmé, ele sempre tem alguma chance de voltar a ser um homem com todas as suas fac— com todas as suas f-a-c-u-l-d-a-d-e-s intactas.

151 Visualizações