{"id":378,"date":"2022-06-27T15:18:27","date_gmt":"2022-06-27T15:18:27","guid":{"rendered":"https:\/\/contosuniversais.contobrasileiro.com.br\/wp\/?p=378"},"modified":"2022-06-27T15:18:30","modified_gmt":"2022-06-27T15:18:30","slug":"a-historia-do-limpador-de-botas-charles-dickens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/contosuniversais.contobrasileiro.com.br\/wp\/2022\/06\/27\/a-historia-do-limpador-de-botas-charles-dickens\/","title":{"rendered":"A hist\u00f3ria do limpador de botas &#8211; Charles Dickens"},"content":{"rendered":"<p>Em que lugares havia estado na mocidade?, repetiu ele quando lhe formulei a pergunta. Santo Deus!!, havia estado em todas as partes! E que profiss\u00f5es exercera? Quase todas as que se pode ser!<\/p>\n<p>Se havia visto muitas coisas? Certamente. Eu mesmo diria isso, posso assegurar, se soubesse de um vig\u00e9simo do que lhe acontecera na vida. Tanto que seria muito mais f\u00e1cil para ele falar do que n\u00e3o vira do que aquilo que vira. Muito mais f\u00e1cil.<\/p>\n<p>Qual a coisa mais curiosa que havia visto? Bem! N\u00e3o sabia ao certo. Naquele instante n\u00e3o poderia avali\u00e1-lo&#8230; talvez um unic\u00f3rnio&#8230; que encontrara uma vez numa feira. Mas, se eu imaginasse um jovem cavalheiro de oito anos incompletos fugindo com uma bela senhorinha de sete \u2013 n\u00e3o seria isso um bom come\u00e7o para uma hist\u00f3ria? Claro que sim. Eis que ele pr\u00f3prio havia visto essa hist\u00f3ria, com os olhos que Deus lhe dera, e inclusive limpara os sapatos com que eles haviam fugido, pequenos sapatos nos quais sua m\u00e3o nem cabia.<\/p>\n<p>O pai de Harry J\u00fanior vivia na casa dos Elmses, em Shooter&#8217;s Hill, a seis ou sete milhas de Lunnon. Era um homem espirituoso, bem apessoado, que caminhava de cabe\u00e7a erguida e tinha o que se pode chamar de ecl\u00e9tico. Escrevia versos, montava, corria, jogava cr\u00edquete, dan\u00e7ava, representava, tudo fazendo satisfatoriamente. Sentia-se muito orgulhoso de Harry J\u00fanior, seu \u00fanico filho, mas n\u00e3o o levava a se perder com mimos em excesso. Era um cavalheiro de gosto e vontade pr\u00f3prios, o que logo se notava. Assim, embora fosse um bom companheiro para aquele excelente menino, e gostasse de v\u00ea-lo entretido na leitura de contos de fadas, e nunca se cansasse de ouvi-lo dizer que ele era Norval, cantarolando can\u00e7\u00f5es infantis, mantinha a sua autoridade sobre o menino, um aut\u00eantico menino, e bom seria se todas as crian\u00e7as fossem assim!<\/p>\n<p>Como sabia o limpador de botas de tudo isso? Porque havia sido o jardineiro auxiliar. Naturalmente era imposs\u00edvel que, na qualidade de jardineiro, indo e vindo pelo gramado, sob as janelas da casa, ceifando, varrendo, desramando, e podando, e mais isto e aquilo, n\u00e3o se inteirasse dos assuntos da fam\u00edlia. Isso sem contar com o fato de que, numa manh\u00e3, Harry J\u00fanior lhe perguntou:<\/p>\n<p>\u2014 Cobbs, de que modo escreveria a palavra &#8220;Norah&#8221;, se te pedissem?<\/p>\n<p>Ato cont\u00ednuo, p\u00f4s-se a escrev\u00ea-la nas ripas da cerca, com letra de forma.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o poderia dizer que tivesse dado muita aten\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as antes disso; mas era lindo v\u00ea-los, os dois pequenos, andando de c\u00e1 para l\u00e1, profundamente enamorados. E a coragem do menino! Meu Deus, ele teria tirado o chap\u00e9u, arrega\u00e7ado as mangas e avan\u00e7ado para um le\u00e3o, se algum aparecesse para assustar sua bem amada. Uma vez, Harry J\u00fanior, em companhia de Norah, deteve-se diante de Cobbs, que catava ervas daninhas no cascalho, e disse-lhe firmemente:<\/p>\n<p>\u2014 Cobbs, gosto muito de voc\u00ea.<\/p>\n<p>\u2014 Verdade, senhor? Fico muito contente em ouvir isso.<\/p>\n<p>\u2014 Gosto sim, Cobbs. Porque voc\u00ea acha que gosto de voc\u00ea, Cobbs?<\/p>\n<p>\u2014 Confesso que n\u00e3o sei, Harry J\u00fanior.<\/p>\n<p>\u2014 Porque Norah tamb\u00e9m gosta de voc\u00ea, Cobbs.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 mesmo, senhor? Isso \u00e9 muito honroso.<\/p>\n<p>\u2014 Honroso, Cobbs? Ser querido por Norah vale mais do que ter milh\u00f5es de puros diamantes.<\/p>\n<p>\u2014 Certamente, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Vai deixar-nos, n\u00e3o \u00e9 assim, Cobbs? \u2014 N\u00e3o gostaria de ocupar outro cargo, Cobbs?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o teria obje\u00e7\u00f5es, se fosse um bom cargo.<\/p>\n<p>\u2014 Pois bem, Cobbs \u2014 determinou Harry J\u00fanior \u2014 ser\u00e1 nosso jardineiro-chefe quando nos casarmos.<\/p>\n<p>Dito isso, enla\u00e7ou seu bra\u00e7o no de Norah, que vestia um aventalzinho azul-celeste, e ambos se afastaram.<\/p>\n<p>O limpador de botas me assegurava que, melhor do que apreciar um quadro ou assistir uma pe\u00e7a de teatro, era ver as duas crian\u00e7as, com seus cabelos louros encaracolados, seus olhos brilhantes e o caminhar \u00e1gil e firme pelo jardim, completamente enamorados. Cobbs achava sinceramente que os passarinhos os julgavam seus amigos e que cantavam para eles com a inten\u00e7\u00e3o de agrad\u00e1-los. Por vezes, ambos se sentavam sob as \u00e1rvores e ali ficavam abra\u00e7ados, os rostinhos macios bem juntos, lendo hist\u00f3rias como &#8220;O Pr\u00edncipe e o Drag\u00e3o&#8221;, &#8220;Os Encantadores Bons e Maus&#8221; e &#8220;A Linda Filha do Rei&#8221;. Algumas vezes, Cobbs os ouvira falando de seus planos de morar numa casinha na floresta, com abelhas e vacas, para viverem s\u00f3 de mel e leite. Outra vez, deu com eles junto ao tanque e ouviu Harry J\u00fanior, que dizia:<\/p>\n<p>\u2014 Minha ador\u00e1vel Norah, me d\u00e1 um beijo e me diz que me ama com loucura, sen\u00e3o vou me atirar dentro da \u00e1gua.<\/p>\n<p>Cobb n\u00e3o tinha d\u00favida de que cumpriria o prometido, se ela n\u00e3o tivesse atendido seus pedidos. Resumindo, o limpador de botas me assegurou que tudo aquilo despertava nele pr\u00f3prio a sensa\u00e7\u00e3o de tamb\u00e9m estar enamorado, embora sem saber exatamente por quem.<\/p>\n<p>\u2014 Cobbs \u2014 disse Harry J\u00fanior ao jardineiro quando ele regava as flores \u2014 em junho vou visitar vov\u00f3, que mora em York.<\/p>\n<p>\u2014 Realmente, senhor? Espero que se divirta bastante. Eu tamb\u00e9m vou para Yorkshire quando sair daqui.<\/p>\n<p>\u2014 Vai visitar sua av\u00f3, Cobbs?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor. N\u00e3o a tenho mais.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o tem mais av\u00f3, Cobbs?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, senhor.<\/p>\n<p>O menino ficou olhando-o regar as flores por tempo e depois lhe disse:<\/p>\n<p>\u2014 Ficarei muito contente em ir, Cobbs. Norah vai tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Vai estar muito feliz ent\u00e3o, senhor \u2014 acrescentou Cobbs \u2014 com sua linda namorada ao seu lado.<\/p>\n<p>\u2014 Cobbs \u2014 censurou o menino, ruborizando-se \u2014 n\u00e3o permito brincadeiras desse tipo, se eu puder impedir.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o foi brincadeira, senhor \u2014 desculpou-se Cobb, humilde. \u2014 N\u00e3o tive essa inten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Fico muito contente de que seja assim, Cobbs, porque gosto de voc\u00ea como sabe. E porque vai viver conosco&#8230; Cobbs!<\/p>\n<p>\u2014 Senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 que voc\u00ea acha que vov\u00f3 costuma me dar quando vou visit\u00e1-la?<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o posso imaginar, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Me d\u00e1 uma nota de cinco libras do Banco da Inglaterra, Cobbs.<\/p>\n<p>\u2014 Puxa! \u2014 exclamou Coobs \u2014 \u00e9 um mont\u00e3o de dinheiro, Harry J\u00fanior.<\/p>\n<p>\u2014 Pode-se fazer um mont\u00e3o de coisas com esse dinheiro, n\u00e3o \u00e9 mesmo, Cobbs?<\/p>\n<p>\u2014 Acho que sim, senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Cobbs, vou te contar um segredo. Em casa de Norah, zombam de n\u00f3s, for\u00e7am as risadas pelo nosso compromisso matrimonial&#8230; levam na brincadeira, Cobbs!<\/p>\n<p>\u2014 Assim \u00e9, senhor \u2014 disse Cobbs \u2014 a maldade da natureza humana.<\/p>\n<p>O menino, exata imagem do pai, ficou parado por um momento com o rosto iluminado voltado para o p\u00f4r-do-sol e depois se despediu:<\/p>\n<p>\u2014 Boa noite, Cobbs. Vou entrar.<\/p>\n<p>Quando perguntei ao limpador de botas por que resolvera deixar, naquela \u00e9poca, o servi\u00e7o, ele n\u00e3o soube o que responder. Achava que poderia ter continuado na casa at\u00e9 hoje se tivesse tido vontade. Mas era jovem naquela \u00e9poca e pretendia mudar de vida. Isso era o que ele desejava \u2013 mudar. Quando comunicou ao Sr. Walmers que ia deixar o emprego, este lhe disse:<\/p>\n<p>\u2014 Cobbs, tem alguma queixa a fazer? Pergunto isso porque, se algum dos meus empregados tem algo de que se queixar, se puder, quero lhe dar satisfa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o, meu senhor \u2014 explicou Cobbs \u2014 agrade\u00e7o muito, senhor, estou melhor do que poderia estar em qualquer outro emprego. A verdade \u00e9 que vou em busca da fortuna, meu senhor.<\/p>\n<p>\u2014 Oh, \u00e9 isso, Cobbs? Fa\u00e7o votos de que a encontre.<\/p>\n<p>E o limpador de botas assegurou-me \u2013 e o fez com um gesto, levando a cal\u00e7adeira \u00e0 cabe\u00e7a, modo de sauda\u00e7\u00e3o apropriada ao seu of\u00edcio \u2013 que at\u00e9 hoje n\u00e3o encontrara a dita fortuna.<\/p>\n<p>Pois bem, vencido o prazo marcado, o limpador de botas deixou os Elmses, e Harry J\u00fanior foi para a casa da velha senhora em York; esta velha senhora teria sido capaz de arrancar os dentes (se ainda os tivesse) para d\u00e1-los ao menino, tal era a paix\u00e3o que nutria por ele. E n\u00e3o \u00e9 que a crian\u00e7a (pois crian\u00e7a podemos cham\u00e1-lo com raz\u00e3o) foge da casa da av\u00f3 em companhia de Norah, dirigindo-se a Gretna Green, com o prop\u00f3sito de se casarem!<\/p>\n<p>Sim, senhor: o limpador de botas estava na mesma Hospedaria do Azevim (deixara-a v\u00e1rias vezes com a inten\u00e7\u00e3o de melhorar de vida, mas acabava sempre voltando por uma ou outra raz\u00e3o) quando, numa tarde de ver\u00e3o, parou um coche \u00e0 porta e dele desceram as duas crian\u00e7as. O cocheiro da dilig\u00eancia disse ao patr\u00e3o de Cobbs:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o compreendo bem o que pretendem estas crian\u00e7as, mas as ordens do pequeno cavalheiro foram para que os trouxesse aqui.<\/p>\n<p>O pequeno cavalheiro apeou-se, estendeu a m\u00e3o \u00e0 sua dama para ajud\u00e1-la a descer, deu uma gorjeta ao cocheiro e se dirigiu ao dono da hospedaria:<\/p>\n<p>\u2014 Vamos passar a noite aqui. Providencie, por favor, uma sala de estar e dois dormit\u00f3rios. E costeletas fritas e pudim de cereja para dois!<\/p>\n<p>Passando o bra\u00e7o por Norah (que trajava o seu aventalzinho azul-celeste) entrou na hospedaria mais aprumado do que um general.<\/p>\n<p>O limpador de botas deixava a meu crit\u00e9rio avaliar qual teria sido a surpresa, dos presentes, ao verem as duas criaturinhas entrando \u2014 surpresa que se tornou ainda maior quando Cobbs, que as vira sem por elas ser visto, explicou ao hoteleiro o prov\u00e1vel objetivo da viagem de ambos.<\/p>\n<p>\u2014 Cobbs \u2014 anunciou-lhe ent\u00e3o o patr\u00e3o \u2014 se \u00e9 assim, tenho de ir a York para tranq\u00fcilizar os familiares. Por enquanto, cuide de vigi\u00e1-los e distra\u00ed-los at\u00e9 a minha volta. Mas antes de tomar a decis\u00e3o definitiva, Cobbs, gostaria que confirmasse com eles se a tua suposi\u00e7\u00e3o \u00e9 verdadeira.<\/p>\n<p>\u2014 Vou tratar disso imediatamente, senhor \u2014 retrucou Cobbs. Subindo ao apartamento do andar superior, o limpador de botas encontrou Harry J\u00fanior sentado num enorme sof\u00e1 \u2013 j\u00e1 enorme de origem e gigantesco quando comparado ao menino \u2013 enxugando as l\u00e1grimas de Miss Norah, com seu len\u00e7o. Claro que seus pezinhos n\u00e3o alcan\u00e7avam o ch\u00e3o e o limpador de botas n\u00e3o achava palavras para descrever qu\u00e3o pequenas lhe pareceram as crian\u00e7as.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 Cobbs! \u00c9 Cobbs! \u2014 exclamou Harry J\u00fanior, correndo para ele e agarrando-lhe a m\u00e3o. Miss Norah tamb\u00e9m veio correndo, pelo outro lado, agarrando-se \u00e0 outra m\u00e3o, e ambos se puseram a saltitar de alegria.<\/p>\n<p>\u2014 Eu os vi, senhor, quando desciam do coche, disse Cobbs. \u2014 Logo os reconheci, porque n\u00e3o podia me enganar com a altura e apar\u00eancia dos patr\u00f5ezinhos. Qual o objetivo da jornada dos senhores?&#8230; Matrimonial?<\/p>\n<p>\u2014 Vamos nos casar em Gretna Green, Cobbs \u2014 relatou o menino. \u2014 Fugimos com essa finalidade. Norah est\u00e1 bastante deprimida, Cobbs, mas se alegrar\u00e1, agora que temos o nosso amigo.<\/p>\n<p>\u2014 Muito obrigado, senhor, e muito obrigado, senhora \u2014 disse Cobbs \u2014 pelo bom ju\u00edzo que fazem de mim. Trouxeram bagagem, senhor?<\/p>\n<p>O limpador de botas me assegurou, sob sua palavra de honra, que a dama trazia uma sombrinha, um frasco de sais, uma torrada e meia com manteiga, oito balas de hortel\u00e3 e uma escovinha de cabelo, provavelmente de boneca. O cavalheiro trazia um rolo de barbante, um canivete, tr\u00eas ou quatro folhas de papel de carta dobrada v\u00e1rias vezes, uma laranja e uma canequinha de Chaney com seu monograma.<\/p>\n<p>\u2014 Quais s\u00e3o exatamente os seus planos, senhor? \u2014 perguntou Cobbs.<\/p>\n<p>\u2014 Prosseguir viagem pela manh\u00e3 \u2014 respondeu o menino, cujo valor era digno de admira\u00e7\u00e3o \u2014 e nos casar no mesmo dia.<\/p>\n<p>\u2014 Muito bem, senhor \u2014 disse Cobbs. \u2014 E seria de seu agrado que eu os acompanhasse, senhor?<\/p>\n<p>\u2014 Oh, sim, sim, Cobbs! Sim! \u2014 exclamaram ambos, alegres a saltitar novamente.<\/p>\n<p>\u2014 Bem, senhor \u2014 continuou Cobbs \u2014 me perdoem pela liberdade de dar minha opini\u00e3o, mas eu gostaria de sugerir o seguinte: sei de um p\u00f4nei, senhor, que atrelado a uma pequena carruagem, que eu tomaria emprestada, poderia levar o senhor e senhora Harry Walmers J\u00fanior (eu seria o cocheiro, se lhes parecesse bem) ao fim da jornada no menor tempo poss\u00edvel. N\u00e3o estou certo, senhor, se o p\u00f4nei vai estar em liberdade amanh\u00e3, mas mesmo que tiv\u00e9ssemos que esperar at\u00e9 depois de amanh\u00e3, ainda valeria a pena. Quanto \u00e0s vossas pequenas despesas aqui, senhor, no caso de lhes faltar dinheiro, n\u00e3o se preocupem pois sou s\u00f3cio do estabelecimento e nele tens cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>O limpador de botas declarou-me que \u2013 quando os viu batendo palmas, pulando de contentes, chamando-o de o &#8220;bom Cobbs!&#8221;, o &#8220;querido Cobbs!&#8221;, e, no auge da felicidade dos cora\u00e7\u00f5es confiantes, beijando-se na sua frente \u2013 sentiu-se o mais miser\u00e1vel dos canalhas por engan\u00e1-los assim.<\/p>\n<p>\u2014 Alguma coisa que desejam para j\u00e1, senhor? \u2014 perguntou Cobbs, envergonhado de si mesmo.<\/p>\n<p>\u2014 Gostar\u00edamos de alguns doces depois do jantar \u2014 declarou Harry J\u00fanior, cruzando os bra\u00e7os, avan\u00e7ando um p\u00e9, olhando-o de frente \u2014 duas ma\u00e7\u00e3s&#8230; e gel\u00e9ia. Para o jantar, preferimos torradas e \u00e1gua. Mas Norah est\u00e1 acostumada a tomar meio c\u00e1lice de vinho de groselha de sobremesa. E eu tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>\u2014 Farei o pedido no bar, senhor \u2014 disse Cobbs, retirando-se.<\/p>\n<p>Ao contar-me isso, Cobbs experimentava os mesmos sentimentos de ent\u00e3o, e confessou ter concordado com o hospedeiro a contragosto; de todo o cora\u00e7\u00e3o, desejara que existisse um lugar absurdo onde aquelas crian\u00e7as pudessem contrair um absurdo casamento e viver absurdamente felizes da\u00ed para frente. Mas como era isso imposs\u00edvel, conformou-se com o plano do patr\u00e3o e este se p\u00f4s a caminho de York, meia hora depois.<\/p>\n<p>O carinho que as mulheres da casa&#8230; sem exce\u00e7\u00e3o&#8230; todas elas&#8230;. casadas e solteiras&#8230; passaram a admirar o menino depois de saberem da sua hist\u00f3ria, surpreendeu o limpador de botas. Teve este de desdobrar-se para impedir que fossem ao apartamento para beij\u00e1-lo. Subiram perigosamente at\u00e9 \u00e0s vidra\u00e7as, correndo at\u00e9 risco de vida, para conseguirem v\u00ea-los atrav\u00e9s do vidro. Formavam fila para contempl\u00e1-lo pelo buraco da fechadura. Ficaram loucas pelo menino e pela sua coragem.<\/p>\n<p>Ao anoitecer, o limpador de botas foi at\u00e9 o apartamento para ver como estavam passando os fuj\u00f5es. O pequeno cavalheiro, sentado perto da janela, amparava a pequena dama em seus bra\u00e7os. Esta, com o rosto marcado de l\u00e1grimas, descansava, exausta e semi-adormecida, com a cabe\u00e7a apoiada no ombro do companheiro.<\/p>\n<p>\u2014 A Senhora Harry Walmers J\u00fanios est\u00e1 fatigada, senhor? \u2014 perguntou Cobbs.<\/p>\n<p>\u2014 Est\u00e1 sim, Cobbs, n\u00e3o est\u00e1 acostumada a ausentar-se de casa e acha-se deprimida novamente. Cobbs, acha que poderia arranjar uma torta de ma\u00e7\u00e3?<\/p>\n<p>\u2014 Desculpe-me, senhor \u2014 disse \u2014 o senhor deseja uma&#8230;?<\/p>\n<p>\u2014 Acho que uma torta de ma\u00e7\u00e3 de Norfolk a reanimaria, Cobbs. Ela gosta muito.<\/p>\n<p>O limpador de botas saiu em busca do revigorante solicitado. Quando o trouxe, o cavalheiro entregou-a \u00e0 dama, deu-lhe de comer na boca com uma colher com a qual provou um pouco ele mesmo. Mas a dama estava realmente sonolenta e deprimida.<\/p>\n<p>\u2014 Que acha, senhor \u2014 perguntou Cobbs \u2014 se eu trouxer um candelabro para gui\u00e1-los at\u00e9 os seus aposentos?<\/p>\n<p>O cavalheiro aprovou a sugest\u00e3o. A camareira antecipou-se subindo pela grande escada, seguida da dama com seu aventalzinho azul-celeste, galantemente escoltada pelo cavalheiro que abra\u00e7ou-a \u00e0 porta do quarto dela e retirou-se para o seu, cuja porta foi cuidadosamente trancada pelo limpador de botas.<\/p>\n<p>Cobbs n\u00e3o p\u00f4de deixar de se sentir ainda mais envergonhando da sua maldade quando, no dia seguinte, no desjejum (havia ordenado, na v\u00e9spera, leite com \u00e1gua, ado\u00e7ado, torradas e gel\u00e9ia de groselha) ambos lhe perguntaram pelo p\u00f4nei. Foi verdadeiramente penoso \u2013 me confessava isso sem embara\u00e7o \u2013 olhar para aquelas duas criaturinhas e pensar no abomin\u00e1vel embusteiro que ele havia se tornado. No entanto, continuou a mentir, t\u00e3o cinicamente quanto um troiano, sobre o p\u00f4nei. Disse-lhes que, infelizmente, o p\u00f4nei estava tosquiado e que n\u00e3o seria conveniente lev\u00e1-lo ao tempo nesse estado, pois poderiam se ressentir os seus \u00f3rg\u00e3os internos. Mas o tratamento terminaria naquele mesmo dia e no dia seguinte a pequena carruagem estaria pronta para a viagem. O limpador de botas julgava \u2013 ao refletir sobre o caso comigo, no meu quarto \u2013 que a Senhora Harry Walmers J\u00fanior come\u00e7ava a perder o entusiasmo. Ao deitar-se, n\u00e3o lhe haviam enrolado os cabelos; t\u00e3o pouco parecia capaz de pentear-se por si mesma; a irritavam os cachos caindo sobre seus olhos. Por\u00e9m, nada abatia o \u00e2nimo de Harry J\u00fanior. Sentado diante da x\u00edcara do desjejum, servia-se de gel\u00e9ia com tanta eleg\u00e2ncia quanto seu par.<\/p>\n<p>O limpador de botas estava propenso a acreditar que, terminado o desjejum, ambos se haviam ocupado em desenhar soldadinhos&#8230; pelo menos sabia que muitos desses desenhos foram encontrados na lareira \u2013 desenhos de soldadinhos montados. No transcurso da manh\u00e3, Harry J\u00fanior tocara a sineta (era realmente surpreendente como aquele menino conservava sua postura) e perguntara com ansiedade:<\/p>\n<p>\u2014 Cobbs, h\u00e1 algum passeio bonito pelas vizinhan\u00e7as?<\/p>\n<p>\u2014 H\u00e1 sim, senhor \u2014 respondeu Cobbs. \u2014 Temos o Caminho do Amor.<\/p>\n<p>\u2014 Ponha-se daqui para fora, Cobbs! \u2014 essa foi a express\u00e3o usada pelo menino. \u2014 Est\u00e1 com zombarias.<\/p>\n<p>\u2014 Pe\u00e7o perd\u00e3o, senhor \u2014 desculpou-se Cobbs \u2014 mas o Caminho do Amor existe de fato. \u00e9 um belo passeio e eu me sentiria muito orgulhoso de poder mostr\u00e1-lo ao senhor e \u00e0 Senhora Harry Walmers J\u00fanior.<\/p>\n<p>\u2014 Norah, querida \u2014 disse Harry J\u00fanior \u2014 isto \u00e9 curioso. Devemos realmente ir conhecer o Caminho do Amor. P\u00f5e o chap\u00e9u, minha adorada, e Cobbs nos levar\u00e1s at\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n<p>O limpador de botas deixava para mim o encargo de imaginar que grande vil\u00e3o ele n\u00e3o deveria ter se sentido quando o jovem par lhe disse, durante a caminhada, que havia decidido pagar-lhe dois mil guin\u00e9us por um ano como jardineiro-chefe, levando em conta a sua lealdade de amigo. O limpador de botas desejara que a terra se houvesse aberto para enterr\u00e1-lo, t\u00e3o mesquinho se sentiu quando os olhinhos brilhantes de ambos se fixaram nele, confiantes. Tratou de mudar o rumo da conversa, como p\u00f4de, e guiou-os pelo Caminho do Amor at\u00e9 um prado \u00e0 beira do rio, onde Harry J\u00fanior quase se afogou tentando apanhar um nen\u00fafar para a senhora Norah; nada temia aquele menino. Depois de algum tempo, estavam caindo de cansa\u00e7o. Tudo era t\u00e3o novo e estranho para eles, que se cansavam ao extremo. Deixando-se cair num recanto forrado de margaridas, adormeceram como crian\u00e7as perdidas no floresta, no caso, no prado.<\/p>\n<p>O limpador de botas n\u00e3o sabia \u2013 talvez eu o soubesse, mas isso n\u00e3o faz diferen\u00e7a \u2013 por que um homem se enternece como um tolo ao ver duas lindas crian\u00e7as dormindo em pleno dia, sonhando menos adormecidas do que quando acordadas. Mas a verdade \u00e9 que quando a gente pensa em si pr\u00f3prio, na vida que se levou desde o ber\u00e7o e no pouco que se vale, que se a gente n\u00e3o est\u00e1 pensando no passado est\u00e1 se preocupando com o futuro, e jamais se vive o hoje; e assim por diante.<\/p>\n<p>O parzinho acordou finalmente e o limpador de botas ficou certo de uma coisa: o \u00e2nimo da Senhora Harry Wlamers J\u00fanior vacilava. Quando Harry J\u00fanior lhe passou o bra\u00e7o pela cintura, ela pediu &#8220;que n\u00e3o a aborrecesse tanto&#8221;. Quando ele lhe perguntou: &#8220;Norah, a luz da minha vida, teu Harry te aborrece?&#8221;, ela respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Sim. Quero ir para casa!<\/p>\n<p>Um frango assado e um pudim de p\u00e3o e manteiga ao forno reanimaram a Senhora Walmers um pouco; mas o limpador de botas teria desejado, confessava-me em tom de segredo, v\u00ea-la mais sens\u00edvel ao chamado do amor e menos ao da groselha. No entanto, Harry J\u00fanior mantinha-se firme, o cora\u00e7\u00e3o t\u00e3o apaixonado quanto antes. Ao entardecer, a Senhora Walmers sentiu-se muito sonolenta e p\u00f4s-se a chorar. Logo depois foi se deitar, como na v\u00e9spera, e Harry J\u00fanior fez o mesmo.<\/p>\n<p>\u00e0s onze horas da noite, voltou o hospedeiro num coche, acompanhado do Sr. Walmers e de uma senhora idosa. O Senhor Walmers parecia ao mesmo tempo muito alegre e preocupado e perguntou \u00e0 hospedeira:<\/p>\n<p>\u2014 Somos muito gratos, senhora, por haver cuidado t\u00e3o bondosamente dos nossos pequenos; nossa gratid\u00e3o n\u00e3o tem limites. Por favor, senhora, onde se encontra o meu filho?<\/p>\n<p>A hospedeira respondeu:<\/p>\n<p>\u2014 Cobbs tem tomado conta de seu ador\u00e1vel menino, senhor. Cobbs, leve-o ao quarenta.<\/p>\n<p>O Senhor Walmers voltou-se para Cobbs e disse:<\/p>\n<p>\u2014 Ah, Cobbs, estou muito satisfeito em te ver! J\u00e1 sabia que estavas aqui!<\/p>\n<p>Cobbs confirmou:<\/p>\n<p>\u2014 Sim, senhor. Seu criado muito obediente.<\/p>\n<p>Talvez eu tivesse me surpreendido ao ouv\u00ed-lo dizer isso, mas Cobbs me assegurou que ao subir as escadas o seu cora\u00e7\u00e3o batia como um martelo.<\/p>\n<p>\u2014 Perdoa-me, senhor, \u2014 disse ele enquanto soltava o ferrolho da porta \u2014 mas espero que n\u00e3o esteja muito zangado com Harry J\u00fanior. Harry J\u00fanior \u00e9 um excelente menino, senhor, que vai honr\u00e1-lo e de quem ficar\u00e1 orgulhoso.<\/p>\n<p>O limpador de botas me deu a entender que se o pai do excelente menino n\u00e3o tivesse concordado com ele, no estado de \u00e2nimo que se encontrava, seria capaz de agredi-lo, deixando para depois as suas conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p>Mas o Senhor Walmers limitou-se a dizer:<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o Cobbs. N\u00e3o, meu amigo, Muito obrigado!<\/p>\n<p>Aberta a porta, entrou. Cobbs acompanhou-o, levando um candelabro, e viu-o chegar-se ao leito, inclinar-se e carinhosamente beijar a face do menino adormecido. Depois, ficou um instante a contempl\u00e1-lo, sendo impressionante a sua semelhan\u00e7a com Harry J\u00fanior (conta-se que tamb\u00e9m havia fugido com a sua esposa). Depois sacudiu suavemente o ombro do menino:<\/p>\n<p>\u2014 Harry, meu querido! Harry!<\/p>\n<p>Harry J\u00fanior ergueu-se sobressaltado e olhou-o. Olhou para Cobbs. Tal era o sentimento de honra daquela crian\u00e7a, que olhou logo para Cobbs, a ver se n\u00e3o lhe causara dificuldades.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00e3o estou zangado, meu querido. Quero apenas que te vistas e que volte para casa.<\/p>\n<p>\u2014 Sim, papai.<\/p>\n<p>Harry J\u00fanior vestiu-se rapidamente. Quando terminou, seu peito come\u00e7ou a dilatar-se, e mais se dilatou quando se postou diante do pai, que o olhava tamb\u00e9m, silencioso.<\/p>\n<p>\u2014 Por favor, eu poderia&#8230; (a fibra daquela crian\u00e7a dominando as l\u00e1grimas, prestes a explodir!) por favor papai querido&#8230; posso&#8230; posso beijar Norah antes de ir?<\/p>\n<p>\u2014 Pode, sim, meu filho.<\/p>\n<p>Tomou Harry J\u00fanior pela m\u00e3o, e Cobb foi adiante, com a luz; chegaram ao outro quarto, onde a senhora idosa estava sentada \u00e0 cabeceira da cama e a pequenina Senhora Harry Walmers J\u00fanior dormia profundamente. L\u00e1 chegados, o pai ergueu o menino at\u00e9 o travesseiro e este encostou o rostinho, por um s\u00f3 instante, no t\u00e9pido rostinho da adormecida, atraindo-a gentilmente para si. O espet\u00e1culo comoveu tanto as camareiras que espiavam pela fresta da porta que uma delas exclamou:<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 uma vergonha separ\u00e1-los!<\/p>\n<p>Mas a camareira sempre fora, informou-me o limpador de botas, de cora\u00e7\u00e3o mole. Ao dizer isso n\u00e3o queria dizer nada de mal contra ela, pelo contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>E isso foi tudo, concluiu o limpador de botas. O Senhor Walmers partiu no coche, tendo entre as suas m\u00e3os as m\u00e3os de Harry J\u00fanior. A senhora idosa e sua filha, que jamais chegou a ser a Senhora Harry Walmers J\u00fanior (casou-se com um capit\u00e3o muitos anos depois e morreu na \u00cdndia) partiram no dia seguinte. No final das contas, Cobbs apresentava-me seus dois pontos de vista, para ver se eu concordava com eles: primeiro, n\u00e3o existem muitos casais de noivos que cheguem ao casamento inocentes de toda a maldade como aquelas duas crian\u00e7as; segundo, talvez fosse uma verdadeira b\u00ean\u00e7\u00e3o para muitos casais de noivos serem detidos antes de se casar e cada um voltar para a sua casa.<\/p>\n<div class='epvc-post-count'><span class='epvc-eye'><\/span>  <span class=\"epvc-count\"> 336<\/span><span class='epvc-label'> Visualiza\u00e7\u00f5es<\/span><\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em que lugares havia estado na mocidade?, repetiu ele quando lhe formulei a pergunta. Santo Deus!!, havia estado em todas as partes! E que profiss&otilde;es exercera? Quase todas as que se pode ser! Se havia visto muitas coisas? Certamente. 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