A nevasca – Liev Tolstói

I

Antes das sete horas da noite, depois de tomar chá, parti de uma estação cujo nome já não lembro, mas lembro que era em algum lugar na Terra das Tropas do Don, o território dos cossacos,1 perto da cidade de Novotcherkássk. Já estava escuro quando, enrolado num casaco de pele e num sobretudo, sentei-me num trenó ao lado de Aliochka. Por trás do prédio da estação, o tempo parecia calmo e quente. Embora não caísse neve, não se via nenhuma estrelinha no alto e o céu parecia extremamente baixo e negro, em comparação com a erma planície nevada que se estendia à nossa frente.

Tínhamos acabado de passar pelos vultos escuros dos moinhos, um dos quais abanava desengonçado suas asas grandes, e ao sair da estação percebi que a estrada ficava mais árdua e atulhada de neve, o vento começava a soprar com mais força à minha esquerda, empurrava para o lado a crina e o rabo dos cavalos, levantava e carregava com tenacidade a neve rasgada pelos patins do trenó e pelos cascos dos animais. O som das sinetas começou a esmorecer, uma corrente de ar frio penetrava por alguma fresta na manga, nas costas, e me veio à cabeça o conselho do encarregado da estação, de que era melhor não viajar para não acabar vagando sem rumo a noite inteira e morrer congelado no caminho.

– Será que não vamos nos perder? – perguntei para o cocheiro. Mas, sem receber resposta, propus uma pergunta mais clara: – E então, cocheiro, vamos chegar à estação? Não vamos nos perder?

– Só Deus sabe – respondeu, sem virar a cabeça. – Olhe como o vento rasteiro espalha tudo: nem dá para enxergar a estrada. Meu Deus do céu!

– Mas me explique melhor: você acha que vamos chegar à estação ou não? – continuei perguntando. – Vamos chegar?

– Temos de chegar – disse o cocheiro e continuou a falar outras coisas, que eu já não conseguia ouvir por causa do vento.

Eu não tinha vontade de voltar; mas vagar sem rumo a noite inteira no meio da nevasca e do frio gelado numa estepe completamente nua, como era aquela parte da Terra das Tropas do Don, não parecia nada divertido. Além disso, apesar de eu não conseguir ver muito bem o cocheiro no escuro, por algum motivo ele não me agradava e não me inspirava confiança. Ficava sentado bem no meio da boleia, sobre as pernas cruzadas, e não no lado, era imensamente alto, tinha voz preguiçosa, usava um gorro que não era de cocheiro – grande, que balançava para todos os lados; não conduzia os cavalos como se deve fazer, segurava as rédeas com as duas mãos, como um lacaio que tivesse sentado na boleia em lugar do cocheiro, mas, acima de tudo, eu não conseguia ter confiança nele porque tinha as orelhas cobertas pelo agasalho. Em suma, aquelas costas curvadas e pensativas que se erguiam à minha frente não me agradavam e pareciam não prometer nada de bom.

– Por mim, acho melhor voltar – me disse Aliochka. – Não tem graça nenhuma ficar vagando sem rumo!

– Meu Deus do céu! Olhe só que tempestade está caindo! Não dá para enxergar o caminho, os olhos ficam cegos… Meu Deus do céu! – resmungou o cocheiro.

Não tínhamos andado quatro horas quando o cocheiro deteve os cavalos, entregou as rédeas para Aliochka, desembaraçou as pernas de maneira desajeitada e, triturando a neve com as botas grandes, pôs- se a procurar a estrada.

– E então? Aonde vai? Será que nos perdemos? – perguntei; mas o cocheiro não me respondeu e, virando o rosto para o lado, a fim de fugir do vento, que fustigava seus olhos, afastou-se do trenó.

– E então? Achou a estrada? – repeti, quando voltou.

– Não, nadinha – disse-me de repente, com impaciência e irritação, como se fosse eu o responsável por ele ter perdido a estrada e, apoiando os pés de novo preguiçosamente na parte da frente do trenó, subiu na boleia e pôs-se a desembaraçar as rédeas com as mãos enregeladas.

– O que vamos fazer? – perguntei, quando nos pusemos em movimento outra vez.

– O que se pode fazer? Vamos para onde Deus quiser.

E seguimos no mesmo trote curto, obviamente já em campo aberto, ora sobre meio metro de neve seca, ora sobre uma fina camada de gelo nu.

Apesar de estar frio, a neve num instante derretia na gola; o vento baixo soprava cada vez mais forte e do alto começou a cair uma neve seca e esparsa.

Estava claro que íamos para onde Deus quisesse, porque, depois de mais quinze minutos de viagem, não tínhamos visto nenhum marco indicativo das verstas da estrada.

– E então, o que você acha? – perguntei de novo ao cocheiro. – Vamos chegar à estação?

– Que estação? Vamos voltar. Se a gente der rédea solta para os cavalos, vão levar a gente de volta; mas para lá, é difícil… a gente vai se perder.

– Bem, então vamos voltar – disse eu. – De fato…

– Então, é para voltar? – repetiu o cocheiro.

– Sim, sim, volte!

O cocheiro soltou as rédeas. Os cavalos começaram a correr mais fogosos e, embora eu não notasse que tínhamos feito meia-volta, o vento havia mudado e logo, no meio da neve, pudemos ver os moinhos. O cocheiro se animou e desatou a falar.

– Um dia desses, sabe, uns trenós voltavam da outra estação e o pessoal teve de passar a noite embaixo de montes de feno. Só chegaram de manhã. E foi sorte terem dado com os montes de feno, senão tinham simplesmente morrido congelados; estava frio demais. E mesmo assim os pés de um deles ficaram congelados, durante três semanas correu risco de morrer.

– Mas agora não está tão frio, o tempo ficou mais calmo – falei. – Não dá para ir em frente?

– Está mais quente, um pouquinho, mas a nevasca continua. Agora está vindo por trás, por isso parece mais leve, mas tem força. Até dava para ir em frente, se eu fosse correio, se eu viajasse por conta própria; mas não tem graça nenhuma se um passageiro morre congelado. Depois, como é que vou explicar o que aconteceu com Vossa Excelência?

II

Naquele momento, ouviu-se atrás de nós o som das sinetas de algumas troicas, que vinham em nossa direção com rapidez.

– São as sinetas do correio – disse meu cocheiro. – Só tem uma sineta assim em toda a estação.

E na verdade as sinetas da primeira troica, cujo som trazido pelo vento já chegava a nós com clareza, soavam extraordinariamente bonitas: cristalinas, ressonantes, graves e um pouco estridentes. Depois eu soube que era uma tradição de caçadores: três sinetas – uma grande no meio, de toque vermelho, como diziam, e duas menores afinadas num intervalo de terça. O som dessa terça e seu tom estridente, que reverberava no ar, era muito impressionante e de uma beleza estranha, na estepe deserta e inóspita.

– O correio está passando – disse meu cocheiro, quando a primeira das três troicas emparelhou com a nossa. – Como está a estrada? Dá para passar? – gritou para o cocheiro que ia na traseira; mas ele apenas gritou para os cavalos e não respondeu.

O som das sinetas rapidamente morreu no vento, assim que o correio nos deixou para trás. Meu cocheiro talvez tenha ficado com vergonha.

– Então vamos lá, patrão! – disse para mim. – Eles passaram… as pegadas estão frescas. Concordei e mais uma vez demos meia-volta, seguimos contra o vento, nos arrastamos para a frente, pela neve funda. Eu olhava com o canto dos olhos para a estrada, a fim de não perder de vista as marcas deixadas pelos trenós. Durante umas duas verstas as marcas se mostraram claras; depois, se percebia uma pequena irregularidade embaixo dos esquis, e logo eu não conseguia mais saber, de jeito nenhum, se havia a marca de um trenó ou apenas uma camada de neve deslocada. Os olhos se cansaram de observar a passagem monótona da neve embaixo dos esquis do trenó e passei a olhar para a frente. Ainda vimos o marco da terceira versta, mas o da quarta, não conseguimos encontrar; como antes, avançamos contra o vento, a favor do vento, à direita, à esquerda, e por fim chegamos a um ponto em que o cocheiro disse que parecia que tínhamos nos extraviado à direita, eu disse que tinha sido à esquerda e Aliochka achava que estávamos indo direto para trás. De novo, paramos algumas vezes, o cocheiro desembaraçava as pernas compridas, descia e se punha a procurar a estrada; mas foi tudo em vão. Eu mesmo desci uma vez para ver se a estrada não se encontrava ali onde me parecia estar; porém, assim que, com grande esforço, dei seis passos contra o vento e me convenci de que tudo era igual em toda parte, a mesma monótona camada branca de neve, e de que eu tinha visto a estrada apenas na imaginação, já não enxergava mais o trenó. Comecei a gritar: “Cocheiro! Aliochka!”, mas minha voz – eu sentia como o vento a apanhava direto na minha boca e no mesmo instante a levava para longe de mim. Andei para onde estava o trenó – não havia trenó; fui para a direita – também não. Tenho vergonha de lembrar a voz alta, esganiçada e até um pouco desesperada com que gritei mais uma vez: “Cocheiro!”, quando ele estava a dois passos de mim. Seu vulto preto com o chicote e com o gorro imenso, inclinado para o lado, de repente surgiu na minha frente. Levou-me para o trenó.

– Ainda bem que está quente – disse ele. – Se gelar mesmo, vai ser uma desgraça!… Meu Deus do
céu!

– Solte a rédea dos cavalos para que eles voltem – pedi, depois de me sentar no trenó. – Eles vão nos levar, não vão, cocheiro?

– Têm de levar.

Ele deixou a rédea solta, bateu umas três vezes com o chicote no arreio do cavalo do meio e, mais uma vez, seguimos não sabíamos para onde. Andamos meia hora. De súbito, à nossa frente, ouviram-se de novo a sineta que eu já conhecia, e mais duas; mas agora vinham na direção contrária à nossa. Eram as mesmas três troicas, que já haviam deixado as remessas do correio e, com os cavalos para a viagem de regresso presos atrás, retornavam para a estação. A troica do correio, com cavalos robustos e sinetas de caçador, corria com ímpeto à frente. O cocheiro ia sentado na boleia e gritava para os cavalos com energia. Atrás, no meio de cada um dos trenós vazios, vinham dois cocheiros sentados e se ouvia sua conversa alta e animada. Um deles fumava cachimbo, e a brasa, atiçada pelo vento, iluminava uma parte de seu rosto.

Olhando para eles, senti vergonha de meu medo de seguir viagem e meu cocheiro na certa experimentava o mesmo sentimento, porque dissemos os dois a uma só voz:

– Vamos atrás deles.

III

Antes que a última troica tivesse passado, meu cocheiro começou a dar meia-volta e, de maneira desastrada, bateu com o varal nos cavalos que vinham amarrados atrás. Três cavalos empinaram, soltaram-se das rédeas e dispararam para o outro lado.

– Presta atenção, seu diabo vesgo, olha para onde vira para não bater nos outros. Diabo! – pôs-se a praguejar com voz rouca e estridente um cocheiro baixo; um velho, até onde pude deduzir, pela voz e pela estatura, que vinha sentado na troica de trás, desceu agilmente do trenó com um pulo e correu atrás dos cavalos, enquanto continuava a xingar meu cocheiro de modo bruto e cruel. Mas os cavalos não se renderam. O cocheiro correu atrás deles e, num minuto, cavalos e cocheiro sumiram na branca bruma da nevasca.

– Vassíli-i-i! Traga para cá o baio, desse jeito não dá para pegar – ouviu-se ainda sua voz.

Um dos cocheiros, homem extraordinariamente alto, desceu do trenó, em silêncio desamarrou seus três cavalos, montou num deles pela garupa e, triturando a neve num galope confuso, desapareceu na mesma direção.

Depois das outras duas troicas, seguimos a troica do correio, que, ressoando as sinetas, corria à frente a pleno galope, e não perdemos mais o caminho.

– Pegar os cavalos! Pois sim! – disse meu cocheiro, referindo-se ao homem que havia corrido para apanhar os cavalos. – Se não foram na mesma direção, quer dizer que o cavalo desembestou e agora vai se enfiar num canto por aí e… ele não sai mais.

Desde o momento em que passou a seguir os outros trenós, meu cocheiro pareceu ficar mais animado e mais falante e eu, é claro, como estava sem sono, pensei em me aproveitar disso. Comecei a lhe fazer perguntas, de onde ele vinha, como vivia, e logo fiquei sabendo que era meu conterrâneo, de Tula, da aldeia senhorial de Kirpítchnoie, que de suas terras pouco restou e que, depois da cólera, o solo secou e ali quase não nasce mais nada, que ele tinha dois irmãos, um terceiro havia ido para o Exército, que o cereal não ia dar nem para chegar ao Natal e que eles viviam de salário, que o irmão caçula era quem mandava em casa, porque era casado, e que ele mesmo era viúvo; que todo ano vinham homens de sua aldeia para as guildas dali a fim de trabalhar como cocheiros, que, apesar de não ser cocheiro, ele foi trabalhar no correio para ajudar um irmão que morava lá, graças a Deus, e assim ganhava cento e vinte rublos por ano, dos quais mandava cem para a família, e que viver seria bom, se “os correios não fossem esses animais e o povo aqui não praguejasse o tempo todo”.

– Por que aquele cocheiro me xingou tanto? Meu Deus do céu! Por acaso foi de propósito que bati nos cavalos dele? Eu fiz alguma maldade para alguém? E para que galopou atrás dos cavalos? Iam acabar voltando sozinhos; desse jeito, agora, vai acabar matando os cavalos de cansaço e ele mesmo vai se perder – repetia o mujique temente a Deus.

– O que é aquilo preto lá? – perguntei, notando alguns objetos pretos à nossa frente.

– Uma caravana. Viajar assim é que é bom! – prosseguiu, quando alcançamos umas carroças enormes, cobertas por esteiras, que avançavam uma atrás da outra. – Olhe só, não se vê ninguém, está todo mundo dormindo. O cavalo é o bicho mais inteligente que tem, ele sabe: não se perde do caminho de jeito nenhum. Eu também já viajei em fila – acrescentou –, por isso eu sei.

De fato, era estranho ver aquelas carroças enormes, cobertas de neve, do topo das esteiras até as rodas, movendo-se exatamente como se fossem uma só. Apenas na primeira carroça a esteira coberta de neve se levantou um pouquinho, só dois dedos, e por um instante despontou ali um gorro, quando nossas sinetas retiniram ao lado da caravana. Um cavalo grande e malhado, de pescoço espichado e costas esticadas, batia as patas de modo ritmado na estrada totalmente coberta de neve, balançava a cabeça peluda embaixo do arco do varal embranquecido e, quando passamos por ele, pôs de sobreaviso as orelhas cobertas de neve.

Depois de andar mais meia hora em silêncio, o cocheiro virou-se para mim outra vez.

– E então, o que o senhor acha, patrão? Estamos indo bem?

– Não sei – respondi.

– Antes, o vento batia do lado de cá, mas agora estamos andando a favor. Não, não estamos indo para lá, nos desviamos também – concluiu, absolutamente calmo.

Era evidente que, apesar de ser muito covarde – como diz o provérbio, em companhia, até a morte é boa –, o cocheiro ficara totalmente tranquilo desde o momento em que passamos a ser muitos e ele deixou de ser o guia e de ter a responsabilidade. Inteiramente senhor de si, fazia observações sobre os erros do cocheiro que ia na frente, como se aquilo não tivesse nada a ver com ele. Na verdade percebi que, às vezes, a troica da frente ficava de perfil à esquerda, outras vezes, à direita; tive até a impressão de que andávamos em círculos, numa área muito pequena. De resto, podia ser um engano dos sentidos, como acontecia quando às vezes eu tinha a impressão de que a troica da frente subia uma ladeira, ou ia por um declive, ou morro abaixo, embora a estepe fosse perfeitamente plana em toda parte.

Depois de viajarmos mais algum tempo, avistei ao longe, bem na linha do horizonte, assim me pareceu, uma faixa preta e comprida que se movia; mas um minuto depois ficou claro que se tratava da mesma caravana que tínhamos ultrapassado. Da mesma forma que antes, a neve recobria as rodas rangentes, algumas das quais já nem giravam; da mesma forma que antes, todos dormiam embaixo das esteiras; e tal como antes, o cavalo malhado da frente, bufando pelas narinas, farejava a estrada e punha as orelhas em alerta.

– Está vendo só? Rodamos, rodamos, e topamos de novo com a mesma cavarana! – disse meu cocheiro, em tom de insatisfação. – Os cavalos do correio são bons, não se importam de ficar rodando feito bobos; mas os nossos vão empacar de vez, se a gente viajar a noite inteira.

Pigarreou.

– Vamos voltar, patrão, foi um erro.

– Por quê? Vamos acabar chegando a algum lugar.

– Mas chegar aonde? Vamos ter de pernoitar na estepe. Com a nevasca… Meu Deus do céu!

Embora eu me admirasse do fato de o cocheiro da frente, que obviamente já havia perdido o caminho e a orientação, não procurar a estrada e, em vez disso, continuar tocando os cavalos a trote acelerado e com gritos vibrantes, eu já não queria me afastar das troicas.

– Vamos atrás deles – disse eu.

O cocheiro prosseguiu, mas já guiava sem a boa vontade de antes e não conversava mais comigo.

IV

A nevasca ficava cada vez mais forte e, do alto, a neve caía seca e miúda; parecia que começava a gear de leve: o nariz e as bochechas gelavam com mais força, a corrente de ar frio passava com mais frequência por baixo do casaco de pele e era preciso se enrolar mais nos agasalhos. De vez em quando, os esquis topavam com algum trecho de gelo nu, do qual a neve tinha sido varrida. Como já tinha viajado seiscentas verstas sem parar para pernoitar, às vezes eu não conseguia evitar que os olhos fechassem e eu cochilava, por mais que o desfecho de nossa perambulação fosse do maior interesse para mim. Uma hora, quando abri os olhos, me impressionou no primeiro minuto como parecia clara a luz que iluminava a campina branca; o horizonte se alargou consideravelmente, o céu negro e baixo de repente desapareceu, de todos os lados viam-se as linhas brancas oblíquas da neve que caía; distinguiam-se com mais clareza as formas das troicas na nossa frente e, quando olhei para cima, pareceu no primeiro minuto que as nuvens tinham se dissipado e só a neve que caía encobria o céu. Enquanto eu cochilava, a lua subia e lançava sua luz fria e clara através das nuvens esparsas e da neve que caía. Só uma coisa eu via com clareza – era meu trenó, os cavalos e as três troicas que iam na nossa frente: a primeira, a do correio, na qual o cocheiro ia sentado sozinho na boleia, como antes, e tocava os cavalos num trote acelerado; a segunda, com as rédeas soltas, levava dois homens que, de um armiak,2 fizeram um toldo, e não paravam de fumar cachimbo, o que se podia perceber pelas fagulhas que brilhavam; e a terceira, na qual não se via ninguém, possivelmente porque o cocheiro dormia no meio dela. O cocheiro da frente, no entanto, quando acordei, passou a deter os cavalos de vez em quando para procurar a estrada. Então, assim que parávamos, era possível ouvir o assovio do vento e ver a imensa e impressionante quantidade de neve que se movia no ar. À luz da lua, toldada pela nevasca, eu podia ver a figura baixa do cocheiro com o chicote na mão, ele o usava para apalpar a neve à sua frente, andava para um lado e para o outro no meio da neblina luminosa, aproximava-se de novo do trenó, subia de lado na boleia e, no meio do assovio monótono do vento, ouviam-se de novo as sinetas vivazes, ressonantes, estridentes e tilintantes. Quando o cocheiro da troica da frente descia a fim de procurar marcas da estrada ou montes de feno, do segundo trenó sempre se ouvia a voz animada e confiante de um dos cocheiros, que gritava para o cocheiro da frente:

– Escute, Ignachka! Viramos demais para a esquerda: vá para a direita, na direção do vento. Ou então:

– Para que ficar rodando feito um bobo? Vá junto com a neve, na direção em que ela cai, e logo vai achar a saída.

Ou então:

– Vá para a direita, vá para direita, meu irmão! Olhe, tem uma coisa preta lá. Será um marco?

Não, não é nada.

Ou então:

– Para que essa confusão? Para que essa confusão? Solte o malhado e deixe que ele vá na frente, num instante vai achar a estrada. É o melhor a fazer!

O homem que dava tais conselhos não só não desatrelava o cavalo e não caminhava pela neve para procurar a estrada como nem sequer punha o nariz para fora do seu armiak, e quando Ignachka, no início, a um de seus conselhos, gritou que ele mesmo fosse para a troica da frente, já que sabia por onde devia ir, o conselheiro respondeu que, quando estivesse incumbido de conduzir um trenó do correio, iria na frente de fato e num instante encontraria o caminho.

– E nossos cavalos não andam na frente dos outros quando tem nevasca – gritou. – Não são cavalos desse tipo.

– Então não chateia! – retrucou Ignachka, e assobiou alegremente para o cavalo.

O outro cocheiro, que ia no trenó junto com o que dava conselhos, nada dizia para Ignachka e, no geral, não se metia no assunto, embora ainda não estivesse dormindo, o que deduzi pelo cachimbo que não apagava e também porque, quando parávamos, eu ouvia o rumor de sua voz ritmada e ininterrupta. Estava contando uma história. Só numa ocasião, quando Ignachka parou pela sexta ou sétima vez, ele se irritou visivelmente por interromperem sua viagem agradável e pôs-se a gritar com ele:

– Por que parou de novo? Já sei, quer encontrar a estrada! Todo mundo sabe, isso é uma nevasca! Desse jeito, nem um agrimensor consegue achar a estrada. É melhor ir em frente, enquanto os cavalos nos puxam. Não acho que a gente vá congelar nem nada… Toca em frente, anda!

– Pois sim! No ano passado parece que um agente postal gelou até morrer! – retrucou meu cocheiro.

O cocheiro da terceira troica não acordava de jeito nenhum. Só uma vez, durante uma parada, o conselheiro gritou:

– Filipp! Ei, Filipp! – E, como não recebeu resposta, comentou: – Será que já morreu? Ignachka, vá olhar você.

Ignachka, que se incumbia de tudo, aproximou-se do trenó e começou a cutucar o dorminhoco.

– Olhe só, bastou meia garrafinha para ficar desse jeito! Ei, se morreu congelado, diga logo! – exclamou, sacudindo o homem.

O dorminhoco rosnou alguma coisa e praguejou.

– Está vivo, irmãos! – anunciou Ignachka e foi para a frente outra vez; e seguimos viagem de novo, e tão depressa que o cavalinho baio atrelado num dos lados da minha troica, açoitado na cauda sem cessar, mais de uma vez chegou a dar saltos em seu galope desajeitado.

V

Acho que já era perto de meia-noite, quando o velhinho e Vassíli, que tinham ido atrás dos cavalos fugidos, apareceram. Encontraram os cavalos, prenderam e nos alcançaram; mas como conseguiram fazer tudo isso no escuro da nevasca cega e no meio da estepe nua, eu jamais vou entender. O velhinho, sacudindo os cotovelos e os pés, corria a trote montado no cavalo do meio da troica (os outros dois cavalos vinham amarrados nos arreios: no meio da nevasca, não se podia soltá-los). Quando emparelhou comigo, ele mais uma vez se pôs a xingar meu cocheiro:

– Está vendo, seu diabo vesgo? Francamente…

– Ei, tio Mítritch – gritou o contador de histórias, do segundo trenó. – Está vivo? Venha cá para o nosso trenó.

Mas o velhinho não respondeu e continuou a praguejar. Quando lhe pareceu que já era o bastante, foi para o segundo trenó.

– Pegou todos? – perguntaram, de lá.

– Quem dera!

Sua figura miúda, ao trotar, inclinava o peito junto às costas do cavalo, depois, sem parar, desceu de um salto na neve, correu atrás do trenó, pulou para dentro e ficou deitado, com as pernas estiradas por cima da borda. O alto Vassíli, assim como antes, continuou em silêncio no trenó da frente, ao lado de Ignachka, e junto com ele pôs-se a procurar a estrada.

– Viu como pragueja?… Meu Deus do céu! – resmungou meu cocheiro.

Depois disso, viajamos muito tempo pela vastidão branca sem parar, na luz fria, clara e instável da nevasca. Quando abro os olhos, o mesmo gorro tosco e as mesmas costas cheias de neve se erguem à minha frente, o mesmo arco baixo dos arreios, sob o qual, entre as esticadas correias de couro das rédeas, o cavalo do meio da troica balança a cabeça a intervalos, sempre no mesmo ritmo, com a mesma crina preta que o vento empurra para o lado; por cima das costas do cocheiro, se vê o mesmo cavalinho baio no lado direito da troica, de rabo curto e amarrado, e a ponta do varal a que está atrelado se choca às vezes com a beirada de palha do trenó. Quando olho para baixo, a mesma neve movediça rasgada pelos esquis, levantada com tenacidade pelo vento e sempre carregada para o mesmo lado. À frente, numa distância sempre igual, corre a troica que nos guia; à direita e à esquerda, tudo branco e incerto. Em vão os olhos procuram algum novo objeto: nem marcos da estrada, nem montes de feno, nem cercas – não se vê nada. Em toda parte, tudo é branco, branco e imóvel: ora o horizonte parece imensamente distante, ora se encurta e fica a dois passos, em todos os lados, ora um muro branco e alto de repente se ergue à direita e corre paralelo ao trenó, ora desaparece de súbito e ressurge à frente, para fugir para mais longe e de novo desaparecer. Quando olho para cima – num primeiro momento, parece claro –, parece que, através da neblina, se veem estrelinhas; mas as estrelinhas fogem do olhar, cada vez mais altas, e só se vê a neve, que, bem perto dos olhos, cai no rosto e na gola do casaco de pele; em toda parte, o céu tem a mesma luz, o mesmo branco, sem cor, monótono, constante e fugidio. O vento parece mudar: ora sopra contrário e acumula neve sobre os olhos, ora arremete pelo lado e, de modo irritante, bate a gola do casaco na cabeça, a esfrega com escárnio no meu rosto, ora zune por trás e penetra por qualquer fissura. Ouve-se o crepitar fraco e incessante dos cascos e dos esquis do trenó sobre a neve e o tilintar das sinetas, que silencia quando passamos sobre uma camada de neve mais funda. Só de tempos em tempos, quando andamos contra o vento e passamos sobre um trecho de gelo nu, sem neve, chegam nitidamente aos ouvidos o assovio vigoroso de Ignat e os tinidos ressonantes de suas sinetas, com o ecoante e estridente intervalo de uma quinta, e esses sons de repente perturbam de forma agradável o caráter desolador da vastidão erma, mas logo depois ressoam de novo de maneira monótona, com uma precisão insuportável, tocando os mesmos motivos que eu, sem querer, imagino. Um pé começou a congelar e, quando me virei para me cobrir melhor, a neve acumulada na gola e no gorro escorregou pelo pescoço e me fez estremecer; mas no geral eu ainda estava aquecido dentro do casaco de pele e o cochilo tomou conta de mim.

VI

As lembranças e as imagens se sucederam com velocidade redobrada na minha imaginação.

“O conselheiro, que não para de gritar do segundo trenó – como deve ser esse mujique? Na certa, é ruivo, gorducho, de pernas curtas”, penso. “Do tipo do Fiódor Filíppitch, nosso velho copeiro.” E na mesma hora vejo, em pensamento, a escadaria de nossa casa-grande e cinco criados que, pisando pesadamente nuns panos grossos, arrastam um piano do pavilhão anexo; vejo Fiódor Filíppitch, com as mangas enroladas da sobrecasaca preta, que traz um pedal na mão, corre na frente deles, abre os ferrolhos, puxa os panos dali, empurra daqui, se enfia por baixo das pernas dos homens, atrapalha todo mundo e, com voz preocupada, grita sem parar:

– Vocês aí na frente, carreguem nas costas! Assim, com a cauda para cima, para cima, levem para a porta! Isso!

– Ajude aqui, Fiódor Filíppitch! Estou sozinho – chama timidamente o jardineiro, apertado contra o corrimão, todo vermelho com o esforço, apoiando sozinho, com as últimas forças, o canto do piano de cauda.

Mas Fiódor Filíppitch não sossega.

“E o que é isso?”, eu raciocinava. “Será que ele acha que é útil, indispensável para o interesse comum, ou apenas está feliz porque Deus lhe deu essa eloquência confiante, persuasiva, e a esbanja com prazer? Deve ser isso.” E por algum motivo vejo o lago, os criados cansados que, com a água nos joelhos, puxam uma rede, e de novo Fiódor Filíppitch, com um regador, gritando para todos, corre pela margem e só de vez em quando chega perto da água e, enquanto segura na mão as carpas douradas, entorna a água turva e recolhe água limpa. Mas surge um meio-dia do mês de julho. Eu caminho para algum lugar, por um jardim onde o capim acabou de ser aparado, debaixo de raios de sol que caem ardentes. Ainda sou muito jovem, me falta alguma coisa, quero alguma coisa. Caminho na direção do lago, meu lugar predileto, entre canteiros de roseiras silvestres e alamedas de bétulas, e me deito para dormir. Lembro-me do sentimento com que, deitado, olho através dos ramos espinhosos e vermelhos das roseiras silvestres, para a terra preta e ressecada por grãozinhos, e para o espelho translúcido do lago muito azul. É um sentimento de satisfação ingênua e de tristeza. Tudo à minha volta é tão belo e essa beleza me afeta com tanta força que me parece que eu mesmo sou bonito e apenas me aborrece o fato de ninguém me admirar. Faz calor. Experimento adormecer, para me consolar; mas moscas, moscas atrevidas, nem aqui me dão sossego, começam a se juntar à minha volta e, tenazmente, com força, como carocinhos de fruta, ficam pulando da testa para as mãos. Uma abelha zumbe perto de mim no calor do sol; borboletas de asas amarelas, como que atordoadas, voam de um pé de capim para outro. Olho para o alto; os olhos doem – o sol brilha demais através da folhagem iluminada da bétula frondosa, que balança seus ramos de leve, no alto, acima de mim – e o calor parece mais forte. Cubro o rosto com um lenço; fica abafado e as moscas parecem fincar-se nas mãos, onde brota o suor. Pardais em número cada vez maior começam a surgir nas roseiras silvestres. Um deles pulou na terra e, mastigando raminhos e trinando com alegria, voou do canteiro; outro também saltou na terra, ergueu a cauda, olhou para trás e, como um tiro, gorjeando, saiu voando atrás do primeiro. No lago, ouviam-se os golpes de pás de madeira batendo nas peças de roupa de cama molhadas e tais golpes ressoam e parecem se propagar para o fundo do lago. Ouviam-se os risos, as vozes e os mergulhos dos banhistas. Uma rajada de vento farfalhou o cume das bétulas, ainda longe de mim; mais perto, percebo, o vento começou a sacudir o capim, as folhas do canteiro de roseiras silvestres começaram a balançar, seus ramos começaram a bater uns nos outros; uma corrente de vento fresco me alcança, levanta o canto do lenço e faz cócegas no rosto. Onde o lenço foi levantado, uma mosca vem voando e, assustada, passa perto da boca úmida. Um ramo seco espeta minhas costas. Não, não é possível mais ficar deitado: tenho de ir me banhar. Mas, bem perto do canteiro, ouço passos precipitados e uma voz assustada de mulher:

– Ah, meu Deus! Será possível? E não tem nenhum homem por perto!

– O que está acontecendo? – pergunto, saio correndo para o sol, para a serva que passa por mim se lamentando.

Ela apenas olha para trás, abana as mãos e continua a correr. Então aparece uma velha de cento e cinco anos, Matriona, segurando com a mão o lenço que escorrega da cabeça, avançando aos pulinhos e arrastando um pé calçado em meia de lã, que se apressa rumo ao lago. Duas mocinhas correm, segurando-se uma na outra, e um menino de dez anos, com a sobrecasaca do pai, corre atrás, agarrando a saia de cânhamo de uma delas.

– O que aconteceu? – pergunto a elas.

– Um mujique se afogou.

– Onde?

– No lago.

– Quem? Um dos nossos?

– Não, alguém que estava de passagem.

O cocheiro Ivan, rangendo as botas sobre o capim cortado, e o gordo administrador Iákov, ofegante, correm na direção do lago e eu corro atrás deles.

Lembro que tive a sensação de uma voz que me dizia: “Mergulhe e vá buscar o mujique, salve o homem, e todos vão admirar você” – e era exatamente o que eu queria.

– Onde foi, onde? – pergunto para a multidão de criados reunidos na margem.

– Lá, olhe, lá no fundo, na direção da outra margem, quase na casinha onde trocam de roupa para tomar banho – responde uma lavadeira, estendendo a roupa de cama lavada numa vara horizontal. – Olho para lá e vejo que ele afunda; depois reaparece e mergulha de novo, aparece mais uma vez e tenta gritar: “Estou me afogando, gente!”. E de novo foi para o fundo e só subiram umas bolhazinhas. Foi então que entendi que o mujique estava se afogando. Comecei a berrar: “Gente, um mujique se afogou!”.

E a lavadeira, depois de colocar a vara sobre o ombro, inclinando-se para o lado, seguiu pela picada, afastando-se do lago.

– Veja só que pecado! – diz Iákov Ivánov, o administrador, com voz desesperada. – Vamos ter problemas com o tribunal do ziémstvo.3 Não vamos ter sossego.

Um mujique com uma foice na mão abriu caminho entre o bando de mulheres, crianças e velhos aglomerados na outra margem e, depois de pendurar a foice no galho de um salgueiro, lentamente se descalçou.

– Onde foi? Onde ele se afogou? – não paro de perguntar, querendo me atirar na água e fazer algo extraordinário.

Mas me apontam a superfície lisa do lago, que de vez em quando o vento arrepia. Não entendo como é possível que, tendo ele se fogado, a água continue lisa e bonita como antes, indiferente, brilhando dourada sob o sol do meio-dia; e parece-me que não posso fazer nada, não posso despertar a admiração de ninguém, ainda mais porque nado muito mal; mas o mujique já está tirando a camisa pela cabeça e logo vai entrar na água. Todos olham para ele com esperança, ansiosos; mas, quando está com a água nos ombros, o mujique lentamente volta e veste a camisa: ele não sabe nadar.

Continua a chegar gente, a multidão cresce mais e mais, as mulheres ficam de mãos dadas; mas ninguém oferece ajuda. Os que acabaram de chegar dão conselhos, lamentam-se e no rosto se exprimem o temor e o desespero; entre os que já estavam ali desde antes, alguns sentam no capim, cansados de ficar de pé, alguns começam a voltar. A velha Matriona pergunta para a filha se ela fechou a tampa da estufa; o menino com a sobrecasaca do pai atira pedrinhas com capricho na água.

Então, com um latido e olhando para trás, desconcertado, Trezorka, o cachorro de Fiódor Filíppitch, vem correndo da casa, morro abaixo; mas então a figura do próprio Fiódor Fi líppitch surge de trás dos canteiros de roseiras silvestres e corre morro abaixo, gritando algo.

– Por que estão parados? – grita, enquanto tira a sobrecasaca, sem parar de correr. – O homem se afogou e eles ficam parados! Deem uma corda!

Com temor e esperança, todos olham para Fiódor Filíppitch, enquanto ele, apoiando-se com a mão no ombro de um servo prestativo, empurra o salto da bota direita com a ponta da bota esquerda para se descalçar.

– Foi lá, onde está aquela gente, logo à direita do salgueiro, Fiódor Filíppitch, foi lá – diz alguém.

– Já entendi! – responde e, de sobrancelhas franzidas, talvez em resposta aos sinais de vergonha que surgem na multidão de mulheres, tira a camisa, a cruz, entrega para um menino jardineiro que está parado na sua frente numa atitude servil, avança com energia sobre o capim cortado e se aproxima do lago.

Trezorka, em dúvida sobre o motivo da rapidez dos movimentos de seu dono, se detém junto à multidão e, estalando os beiços, mordisca folhas de capim perto da margem, olha com ar interrogativo para ele e, de repente, depois de soltar um ganido alegre, se atira na água junto com o dono. No primeiro momento, não se vê nada, senão espuma e respingos que voam até nós; mas então Fiódor Filíppitch, movendo os braços de modo elegante e levantando e abaixando ritmadamente as costas brancas, nada com braçadas ligeiras até a outra margem. Já Trezorka, depois de afundar, volta afobado, se sacode perto da multidão e se enxuga deitado de costas na margem. Ao mesmo tempo que Fiódor Filíppitch nada rumo à outra margem, dois cocheiros correm na direção do salgueiro com uma rede presa numa vara. Por algum motivo, Fiódor Filíppitch levanta a mão para o alto, afunda uma vez, mais uma, uma terceira vez, e sempre que sobe à tona solta um jato de água pela boca, balança o cabelo de um jeito bonito e não responde às perguntas que chovem sobre ele de todos os lados. Por fim, sai pela margem e, até onde se pode distinguir, dá instruções sobre como abrir a rede. Puxam a rede, mas na malha não há nada, senão lodo e uns peixinhos, que se debatem no lodo. Quando jogam a rede mais uma vez, dou a volta e sigo a pé para aquela margem.

Só se ouvem a voz de Fiódor Filíppitch dando ordens, a batida da corda molhada na água e os suspiros de horror. A corda molhada, presa do lado direito, cada vez mais encoberta pelo capim, vai saindo da água pouco a pouco.

– Agora, puxem juntos, amigos, vamos lá! – grita a voz de Fiódor Filíppitch. Os flutuadores aparecem, encharcados de água.

– Tem alguma coisa, está pesado, irmãos – exclama uma voz.

E então as duas abas da rede, onde três ou quatro carpas se debatem, desdobram-se sobre a margem, molhando e comprimindo o capim. E através de uma camada fina e superficial de água fervilhante, surge algo branco na rede estendida. No meio do silêncio de morte, um suspiro de horror, baixo, mas audível de uma forma impressionante, percorre a multidão.

– Puxem, amigos, puxem para o seco! – ouve-se a voz decidida de Fiódor Filíppitch, e puxam o afogado na direção do salgueiro, arrastando a rede por cima dos pés de bardana ceifados.

E então vejo minha boa e velha tia, de vestido branco, vejo sua sombrinha lilás com franjas, que de algum modo, por sua simplicidade, se mostra incompatível com aquele horroroso quadro de morte, vejo seu rosto, pronto para chorar a qualquer instante. Lembro-me da decepção expressa naquele rosto, porque, no caso, de nada serviria usar arnica, e então me lembro do sentimento doloroso, triste, que experimentei quando ela, com o ingênuo egoísmo do amor, me disse: “Vamos, meu amigo. Ah, como isso é horrível! E você, que sempre nada e toma banho sozinho”.

Lembro como o sol ardia, radiante e candente, na terra seca que se esfarelava sob os pés, como o sol rebrilhava no espelho do lago, como as carpas fortes se debatiam na beira do lago e os cardumes de peixes rodopiavam rente à superfície lisa da água, como um gavião serpenteava no alto do céu, pairando acima de uns patinhos que, borbulhando e fazendo a água espirrar, subiam à tona na margem, através dos juncos; como nuvens brancas, encrespadas e chuvosas se avolumavam no horizonte, como o lodo arrastado para a margem pela rede aos poucos se dissolvia e passava pela barragem, e ouvi de novo o som dos golpes da pá de madeira na roupa lavada se propagando pelo lago.

Mas aquela pá de madeira soa como se duas pás vibrassem juntas num intervalo de terça e aquele som me aflige, me atormenta, ainda mais porque sei que aquela pá de madeira é uma sineta e Fiódor Filíppitch não vai silenciá-la. E aquela pá de madeira, como um instrumento de suplício, comprime meu pé, que está gelado – adormeço.

Acordo com a impressão de que estamos galopando muito depressa e duas vozes falam bem perto de mim.

– Escute, Ignat, ei, Ignat! – diz a voz de meu cocheiro. – Leve meu passageiro… você vai sozinho e tem de ir mesmo, mas para mim, de que adianta ficar viajando à toa? Leve!

A voz de Ignat responde, bem do meu lado:

– Mas o que vou ganhar de bom ficando responsável por um passageiro?

– Meio litro!… Meia garrafa já vai dar.

– Meia garrafa, pois sim! – grita a outra voz. – Matar os cavalos de cansaço por meia garrafa!

Abro os olhos. A mesma neve insuportável e palpitante surge diante de meus olhos, os mesmos cocheiros e cavalos, mas a meu lado vejo um trenó. Meu cocheiro alcançou o trenó de Ignat e andamos emparelhados durante muito tempo. Apesar de vozes dos outros trenós aconselharem a não aceitar menos do que meio litro, de repente Ignat detém sua troica.

– Passe para o meu trenó, vamos lá, você está com sorte. Me dê a meia garrafa amanhã, quando a gente voltar. Tem muita bagagem?

Meu cocheiro, com um entusiasmo incomum para ele, pula sobre a neve, me saúda e pede que eu passe para o trenó de Ignat. Estou plenamente de acordo; mas é claro que o mujique temente a Deus está tão satisfeito que deseja extravasar com alguém sua gratidão e sua alegria: me cumprimenta, me agradece, bem como a Aliocha e Ignachka.

– Pronto, agora sim, graças a Deus! Puxa vida! Viajamos metade da noite sem saber para onde.

Mas ele vai levar o senhor ao seu destino, patrão, e meus cavalos já estão para lá de cansados.

E arruma as bagagens com movimentos entusiasmados.

Enquanto arrumava as bagagens, fui caminhando no vento, que parecia me levantar do chão, e me aproximei do segundo trenó. Especialmente daquele lado em que os dois cocheiros estavam protegidos do vento por um armiak estendido acima de suas cabeças, um quarto do trenó estava coberto pela neve; atrás do armiak, estava confortável e calmo. O velhote continuava deitado do mesmo jeito, com as pernas balançando na beirada, e o contador de histórias continuava seu relato:

– Ao mesmo tempo que o general chega, quer dizer, a mando do rei, quer dizer, chega ao calabouço para encontrar Mária, ao mesmo tempo Mária diz para ele: “General! Não preciso de você e não posso amar você e, quer dizer, você não é meu bem-amado; meu bem-amado é aquele príncipe… Aí ao mesmo tempo… – quis continuar, mas, ao me ver, calou-se um minuto e pôs-se a soprar e avivar as brasas de seu cachimbo.

– E então, patrão, veio escutar uma historinha com a gente? – disse o outro, que eu chamava de conselheiro.

– Sim, é divertido ficar aqui com vocês! – respondi.

– Pois é! Espanta o tédio… pelo menos a gente não fica pensando.

– Mas então vocês não sabem onde é que estamos agora? A pergunta, me pareceu, não agradou aos cocheiros.

– Quem é que pode saber onde estamos? Vai ver já entramos pelas terras dos calmucos – respondeu o conselheiro.

– E o que vamos fazer? – perguntei.

– O que vamos fazer? Vamos andando, de um jeito ou de outro a gente acaba chegando lá – disse ele, num tom de voz descontente.

– Mas e se não chegarmos e os cavalos se cansarem de andar na neve, o que vai acontecer?

– O que vai acontecer? Nada.

– Podemos morrer congelados.

– Podemos, sim, é claro, porque a gente não encontra montes de feno em lugar nenhum: quer dizer, estamos viajando no meio das terras dos calmucos. A primeira coisa que a gente precisa fazer é olhar a neve com cuidado.

– E você não tem medo de morrer congelado, patrão? – perguntou o velhote, com voz trêmula. Apesar de parecer que estava zombando de mim, era evidente que ele estava gelado até os ossos.

– Pois é, está ficando muito frio – respondi.

– Ei, patrão! É melhor fazer que nem eu: de vez em quando dou uma corridinha e assim a gente esquenta.

– O melhor é correr atrás do trenó – disse o conselheiro.

VII

– Vamos lá: tudo pronto! – gritou Aliocha para mim, do trenó dianteiro.

A nevasca estava tão forte que só me inclinando muito para a frente e segurando com as duas mãos as abas do capote consegui a duras penas vencer os poucos passos que me separavam do trenó, andando sobre a neve instável, que o vento retirava de debaixo de meus pés. O meu cocheiro anterior já estava de joelhos no meio do trenó vazio, mas, ao me ver, tirou seu gorro grande, com o que na mesma hora o vento levantou seu cabelo com fúria, e me pediu vodca. Sem dúvida, ele não esperava que lhe desse algo, porque minha recusa não o desanimou nem um pouco. Agradeceu-me assim mesmo, tirou o gorro e me disse: “Que Deus o ajude, patrão…”, e, sacudindo as rédeas com força e estalando os lábios, afastou-se de nós. Em seguida, Ignachka moveu as costas de cima a baixo e gritou para os cavalos. De novo os sons da batida dos cascos, da gritaria e das sinetas encobriram o barulho do vento uivante, que se fazia ouvir nitidamente quando estavam parados.

Durante quinze minutos após a mudança de trenó, não dormi e me distraí com a observação da figura do novo cocheiro e dos cavalos. Ignachka se sentava de maneira destemida, saltitava sem cessar, brandia um chicote na direção dos cavalos, dava gritos, batia um pé contra o outro e, curvando-se para a frente, corrigia a posição do arreio na anca do cavalo do meio, que a toda hora escorregava para o lado direito. Era um homem de pequena estatura, mas bem constituído, ao que parecia. Por cima do casaco curto de pele, vestia um armiak sem cinto cuja gola estava quase virada para trás, e o pescoço estava inteiramente descoberto; as botas não eram de feltro, mas de couro, e o gorro, que ele a todo momento tirava e ajeitava, era pequeno. As orelhas estavam cobertas apenas pelos cabelos. Em todos os seus movimentos se percebia não só a energia como também, mais que isso, assim me pareceu, o desejo de despertar ainda mais energia dentro de si. No entanto, quanto mais para longe andávamos, com frequência cada vez maior ele dava pulinhos na boleia e estalava um pé contra o outro a fim de se acomodar melhor, e se punha a conversar comigo e com Aliochka; pareceu-me que ele tinha medo de perder a coragem. E havia bons motivos para isso: embora os cavalos fossem bons, o caminho ficava mais árduo a cada passo e se percebia como os cavalos corriam de má vontade; já era preciso aplicar chicotadas e o cavalo do meio da troica, um animal bom, peludo e grande, tropeçou duas ou três vezes e no entanto, apesar de se assustar na hora, logo tocava adiante e erguia a cabeça peluda quase na altura da sineta. O cavalo da direita, que eu observava sem querer, assim como observava o comprido arreio de couro enfeitado com uma borla que escorregava e sacudia para o lado, tentava visivelmente se desvencilhar dos arreios, exigia o chicote, mas, por ser, de costume, um cavalo bom e até fogoso, parecia contrariado com a própria fraqueza, baixava e erguia a cabeça irritado, pedindo o rigor das rédeas. De fato, era terrível ver que a nevasca e a friagem ficavam cada vez mais fortes, os cavalos se enfraqueciam, o caminho piorava e nós, decididamente, não sabíamos onde estávamos e para onde devíamos ir, não só a fim de chegar à estação, mas a qualquer abrigo que fosse – e era estranho e irônico ouvir as sinetas soarem tão espontâneas e alegres e Ignatka dar gritos tão animados e bonitos como se estivéssemos passeando de trenó por uma rua de aldeia no meio-dia ensolarado de um enregelante feriado de Dia de Reis – e, acima de tudo, era estranho pensar que seguíamos sem parar, e com ímpeto, para não se sabia onde, mas certamente para longe do lugar onde estávamos. Ignatka começou a cantarolar uma canção num falsete de fato medonho, mas tão alto e com tais pausas – momento em que dava uns assobios – que, enquanto o ouvíamos, seria até estranho ter medo.

– Ei, ei! Segura essa garganta, Ignat! – ouviu-se a voz do conselheiro. – Pare aí, pare aí!

– O quê?

– Pare aíííí!

Ignat parou os cavalos. De novo tudo ficou em silêncio e o vento começou a uivar e chiar e a neve, rodopiando, começou a cair espessa sobre o trenó. O conselheiro aproximou-se de nós.

– E então?

– Pois é! Para onde vamos?

– Quem sabe?

– Seus pés estão congelados para ficar batendo assim com eles no chão?

– Está tudo dormente.

– É melhor descer: tem alguma coisa lááá… Vai ver é um acampamento de nômades calmucos.

Podia esquentar os pés.

– Certo. Segure os cavalos… tome. E Ignat correu na direção indicada.

– É preciso ir olhar tudo: assim dá para achar; de que adianta andar sem rumo desse jeito? – disse o conselheiro para mim. – Viu só como ele bateu nos cavalos?

O tempo todo que Ignat caminhava – e isso se prolongou tanto que até temi que ele tivesse se perdido –, o conselheiro me dizia, em tom confiante e sereno, o que era preciso fazer durante uma nevasca, que o melhor de tudo era desatrelar um cavalo e soltá-lo para que ele, assim como Deus é santo, os levasse para o caminho certo, ou então às vezes era possível se guiar pelas estrelas, e disse que, se ele mesmo tivesse conduzido o trenó da frente, já estaríamos na estação havia muito tempo.

– Então, o que tem lá? – perguntou para Ignat, que voltava andando com dificuldade, com a neve quase nos joelhos.

– Vi uma coisa, sim, um acampamento – respondeu Ignat, ofegante. – Só não sei de quem é. Irmão, parece que a gente se desviou para o lado de Prolgov. Agora a gente vai ter de ir para a esquerda.

– Que nada! É um acampamento da nossa gente mesmo, que fica atrás da aldeia dos cossacos – retrucou o conselheiro.

– Estou dizendo que não é!

– Pois eu vi, eu sei: não tem dúvida; se não for, é Tamíchevsko. É preciso seguir sempre para a direita: vamos dar direto na ponte grande… são oito verstas.

– Estou dizendo que não é isso! Fui eu que vi! – retrucou Ignat com irritação.

– Ah, irmão! E você ainda se diz cocheiro!

– Sou cocheiro mesmo! Vá lá olhar, então.

– Para que andar? Eu sei.

Era evidente que Ignat estava irritado: sem responder, pulou na boleia e tocou os cavalos adiante.

– Olhe, meus pés estão dormentes: não dá para esquentar – disse para Aliocha, enquanto batia cada vez mais com os pés um no outro e recolhia e jogava longe a neve que caía no cano das botas.

Eu sentia uma vontade terrível de dormir.

VIII

“Será que estou morrendo congelado?”, pensei no meio do sono. “O congelamento sempre começa com o sono, é o que dizem. É melhor se afogar do que morrer congelado, assim vão me puxar numa rede; de resto, tanto faz afogar ou congelar, contanto que aquele pedaço de pau não me empurre pelas costas e que eu perca a consciência.”

Desfaleço por um segundo.

“Então será que está tudo acabado?”, pergunto de repente, em pensamento, abrindo os olhos por um instante e vislumbrando a vastidão branca. “Será que está tudo acabado? Se não encontrarmos montes de feno e os cavalos se cansarem, o que parece que vai ocorrer daqui a pouco, vamos todos morrer congelados.” Embora eu tivesse um pouco de medo, confesso que o desejo de que acontecesse conosco algo fora do comum e um pouco trágico era mais forte do que o pequeno temor que havia dentro de mim. Parecia-me que não seria ruim se, já de manhã, os cavalos sozinhos nos levassem, já meio congelados, e alguns de nós até completamente congelados, para alguma aldeia distante e desconhecida. E sonhos desse teor se desenrolavam na minha frente com uma nitidez e uma velocidade fora do comum. Os cavalos param, a neve se avoluma cada vez mais e dos cavalos só se veem as orelhas e o arco dos arreios; mas de repente Ignachka surge com sua troica e passa por nós. Imploramos, aos gritos, que ele nos leve também; mas o vento carrega a voz, a voz não soa. Ignachka dá risadas, grita para os cavalos, assovia e se esconde de nós numa profunda ravina coberta pela neve. O velhote salta para cima de um cavalo, movimenta os cotovelos e quer galopar, mas não consegue nem sair do lugar; meu cocheiro anterior, com o gorro grande, se atira sobre o velhote, o derruba no chão e o pisoteia sobre a neve. “Você é um bruxo”, grita, “é um safado! Vamos ficar perdidos juntos!” Mas o velhote, com a cabeça, abre um buraco na neve; ele é menos um velhote do que uma lebre e pula para longe de nós. Todos os cachorros pulam atrás dele. O conselheiro, que é Fiódor Filíppitch, diz a todos que se sentem numa roda, que não importa se a neve nos cobrir: vamos ficar aquecidos. De fato, ficamos aquecidos e confortáveis; só que sinto vontade de beber. Pego a arca em que estão as bebidas, sirvo rum e açúcar para todos e eu mesmo bebo com grande prazer. O conselheiro conta uma história qualquer sobre o arco-íris – e acima dele já há um teto de neve e um arco-íris.

“Agora cada um de nós vai fazer um quartinho na neve e vamos dormir!”, digo. A neve está macia e morna, como um pelo. Faço um quartinho para mim e quero entrar nele; mas Fiódor Filíppitch, que viu meu dinheiro na arca de bebidas, diz: “Espere! Me dê o dinheiro. Vamos todos morrer mesmo!”. E me puxa pelo pé. Entrego o dinheiro e só peço que me soltem; mas eles não acreditam que aquele é todo o dinheiro que tenho e querem me matar. Agarro a mão do velhote e, com um prazer indescritível, começo a beijá-la; a mão do velhote é tenra e doce. De início, ele tenta puxar a mão, mas depois se rende e até me afaga com a outra mão. No entanto Fiódor Filíppitch se aproxima e me ameaça. Corro para meu quarto; mas não é um quarto e sim um corredor comprido e branco, e alguém me agarra pelo pé. Escapo. Nas mãos de quem me segura, ficam minhas roupas e uma parte da pele; mas só sinto frio e vergonha – fico ainda mais envergonhado porque minha tia, com sua sombrinha e sua farmácia de homeopatia, de braço dado com o afogado, vem em minha direção. Eu me jogo no trenó, os pés se arrastam na neve; mas o velhote me persegue, abanando os cotovelos. O velhote já está perto, porém escuto dois sinos ressoando à minha frente e entendo que estou salvo quando corro na direção deles. Os sinos ressoam com nitidez cada vez maior; mas o velhote me alcança e cai com a barriga em cima da minha cara, de tal modo que mal consigo ouvir os sinos. De novo agarro sua mão e começo a beijá-la, mas o velhote não é o velhote, e sim o afogado… e grita: “Ignachka! Espere, aquilo lá são as medas de feno de Akhmétkin, eu acho! Vá dar uma olhada!”. Isso é terrível demais. Não! É melhor acordar…

Abro os olhos. O vento empurrou para trás a aba do capote de Aliocha, que cobria meu rosto, meus joelhos estão descobertos, avançamos sobre uma fina camada de gelo nu, sobre a neve, e o som do intervalo de terça das sinetas soa no ar com clareza, junto com sua quinta vibrante.

Olho e procuro as medas de feno; mas em lugar disso, já com os olhos abertos, vejo uma casa com varanda e o muro de uma fortaleza com ameias. Tenho pouco interesse em observar melhor a casa e a fortaleza: quero, acima de tudo, ver de novo o corredor branco pelo qual eu corria, ouvir o som do sino da igreja e beijar a mão do velho. Fecho os olhos mais uma vez e adormeço.

IX

Dormi profundamente; mas a terça das sinetas se fazia ouvir o tempo todo e, no sono, me aparece ora na forma de um cachorro que late e se atira sobre mim, ora na forma de um órgão, do qual eu sou um dos tubos, ora na forma de versos franceses, que eu estou compondo. Ora me parecia que aquela terça era uma espécie de instrumento de tortura, que não parava de apertar meu calcanhar direito. Isso foi tão forte que acordei e abri os olhos, esfregando o pé. Tinha começado a congelar. A noite continuava fresca, branca e turva como antes. O mesmo movimento sacudia a mim e ao trenó; o mesmo Ignachka estava sentado de lado e batia os pés um no outro; o mesmo cavalo do lado da troica, com o pescoço esticado e erguendo as patas muito pouco, andava a galope sobre a neve funda, a mesma borla balançava no arreio e açoitava a barriga do cavalo. A cabeça do cavalo do meio da troica, com a crina esvoaçante, balançava ritmadamente, esticando e relaxando as rédeas presas ao arco dos arreios. Porém tudo isso estava velado, encoberto pela neve, ainda mais do que antes. A neve rodopiava pela frente, pelos lados, engolia os esquis do trenó e as patas dos cavalos até os joelhos e, mais acima, se acumulava nas golas e nos gorros. O vento batia ora da direita, ora da esquerda, levantava as golas, a aba do armiak de Ignachka, a crina do cavalo do meio da troica e uivava por cima do arco dos arreios e por trás dos varais em que estavam atrelados os cavalos.

O frio tornou-se horroroso e, mal eu baixava a gola, a neve seca e enregelante, que rodopiava, se acumulava nas pestanas, no nariz, na boca e entrava de um salto por trás do pescoço; quando se olhava em redor, tudo estava branco, iluminado e fresco, não havia nada em lugar nenhum, a não ser a luz turva e a neve. Senti medo de verdade. Aliocha dormia aos meus pés, bem no fundo do trenó; suas costas estavam cobertas por uma espessa camada de neve. Ignachka não desanimava: sacudia as rédeas sem parar, dava gritos e batia os pés no chão. A sineta soava maravilhosa como antes. Os cavalos bufavam, mas corriam, tropeçando cada vez mais, e um pouco mais devagar. Ignachka deu um pulo outra vez, abanou a luva e começou a cantar uma canção com sua voz tensa e fina. Antes de terminar a canção, deteve a troica, jogou as rédeas na borda da frente do trenó e desceu. O vento uivava com violência; como se caísse a pazadas, a neve se espalhava sobre as abas do casaco de pele. Olhei para trás: a terceira troica já não estava conosco (tinha ficado para trás em algum ponto). Perto do segundo trenó, dentro de uma nuvem de neve, via-se que o velhote pulava ora num pé, ora no outro. Ignachka afastou-se três passos do trenó, sentou na neve, desamarrou as botas e começou a descalçá-las.

– O que está fazendo? – perguntei.

– Tenho de tirar as botas; senão meus pés vão congelar de uma vez – respondeu e continuou sua tarefa.

Eu estava com frio demais para esticar o pescoço de dentro da gola e espiar o que ele estava fazendo. Fiquei sentado, reto, olhando para o cavalo do lado da troica, que, com as patas afastadas, de um jeito doloroso e cansado, balançava o rabo amarrado e coberto de neve. O tranco que Ignat causou no trenó ao pular na boleia me acordou.

– Onde estamos agora? – perguntei. – Vamos chegar lá pelo menos ao raiar do dia?

– Fique tranquilo: vamos chegar – respondeu. – Agora o que interessa é que os pés ficaram aquecidos, já que troquei de botas.

E tocou os cavalos para a frente, as sinetas soaram, o trenó recomeçou a balançar e o vento voltou a assoviar por baixo dos varais. E nós, mais uma vez, saímos a navegar pelo infinito mar de neve.

X

Adormeci profundamente. Quando acordei e abri os olhos, depois que Aliochka empurrou minha cabeça, já era de manhã. Parecia mais frio do que na noite anterior. Do alto, não vinha neve; mas o vento forte e seco continuava a espalhar o pó de neve pelo campo e sobretudo embaixo dos cascos dos cavalos e dos esquis do trenó. O céu estava pesado à direita, no leste, com uma cor azul-escura; porém claras faixas diagonais alaranjadas surgiam no céu de maneira cada vez mais luminosa. No alto, acima de nós, por trás de nuvens que corriam brancas, levemente coloridas, via-se um azul pálido: à esquerda, havia nuvens claras, leves e em movimento. Em toda parte ao redor, até onde os olhos podiam alcançar, jazia sobre o campo a neve profunda, branca, disposta em camadas espessas. Aqui e ali se viam montinhos cinzentos, em torno dos quais revoava teimosamente um pó de neve seco e fino. Não se via nenhuma pegada ou marca sobre a neve, nem de homem, nem de bicho, nem de trenó. O contorno e a cor das costas do cocheiro e dos cavalos eram visíveis de modo claro e distinto, contra o fundo branco… A fita azul- escura do gorro de Ignachka, o colarinho, o cabelo e até as botas estavam brancos. O trenó estava totalmente coberto. O cavalo cinza-escuro do meio da troica tinha a crina e todo o lado direito da cabeça cobertos pela neve; o cavalo do meu lado tinha as pernas afundadas na neve até os joelhos, bem como o lado direito da garupa suada, cujo pelo tinha encrespado. A borla presa no arreio continuava a balançar como antes, no mesmo ritmo, como se quisesse imaginar uma melodia, e o própro cavalo corria como antes, só que pela barriga afundada, que baixava e levantava muitas vezes, e pelas orelhas caídas percebia-se como estava exausto. Só um novo objeto chamou a atenção: um marco das verstas da estrada, do qual a neve caía na terra e junto ao qual, do lado direito, o vento havia acumulado um monte de neve e continuava a desprender e a atirar a neve ressecada de um lado para outro. Fiquei horrivelmente surpreso ao ver que tínhamos andado a noite inteira puxados pelos mesmos cavalos, durante doze horas, sem saber para onde e sem parar, e mesmo assim, de algum modo, havíamos encontrado o caminho. Nossas sinetas pareciam tocar mais alegres ainda. Ignat se agasalhava e dava gritos; atrás, os cavalos bufavam e ressoavam as sinetas da troica do velhote e do conselheiro; mas aquele que antes dormia tinha seguramente ficado para trás de nós, em algum lugar da estepe. Depois de percorrer meia versta, encontramos marcas frescas, e ainda não cobertas de neve, de um trenó e de uma troica e, sobre elas, esparsas manchas rosadas de sangue de um cavalo que, com certeza, se ferira ao bater uma pata na outra.

– É o Filipp! Veja só, chegou antes de nós! – disse Ignachka.

Então surge um casebre com uma tabuleta, sozinho na beira da estrada e no meio da neve, que por muito pouco não o cobriu até as janelas e o telhado. Ao lado da taberna está uma troica de cavalos cinzentos, com os pelos encrespados pelo suor, patas afastadas e cabeça baixa. A área junto à porta foi limpa e uma pá está ali encostada: mas o vento que zune continua a varrer e rolar para baixo a neve do telhado.

Ao som de nossas sinetas, um cocheiro grande, corado e ruivo aparece na porta com um copo de vinho nas mãos e grita alguma coisa. Ignachka se volta para mim e pede permissão para parar. Ali, vejo pela primeira vez sua fisionomia.

XI

Seu rosto não era seco, de nariz reto e pele escura, como eu esperava, a julgar por seus cabelos e por seu físico. Era um rosto redondo, alegre, de nariz arrebitado, boca grande e olhos redondos, brilhantes e azul-claros. As bochechas e o pescoço eram vermelhos, como se tivessem sido lustrados com um pano; as sobrancelhas, as pestanas compridas e a penugem que cobriam por igual a parte inferior do rosto estavam recobertas pela neve e completamente brancas. Até a estação, faltava só meia versta, então paramos ali.

– Mas não vamos demorar – avisei.

– Só um minuto – respondeu Ignachka, pulando da boleia e aproximando-se de Filipp. – Me dê um pouco, irmão – disse ele, tirando a luva da mão direita e jogando na neve, junto com o chicote. Depois inclinou a cabeça para trás e sorveu de um só gole o copinho de vodca que o outro lhe dera.

O vendedor de bebidas, na certa um cossaco aposentado, saiu pela porta com uma garrafinha na mão.

– Quem vai querer? – disse.

O alto Vassíli, mujique louro e magro, de barbicha de bode, e o conselheiro, gordo, muito louro, de barba branca e espessa, que envolvia o rosto vermelho, se aproximaram e também beberam um copinho de um só gole. O velhote também quis se juntar ao grupo de bebedores, mas não lhe serviram bebida e ele se afastou para junto de seus cavalos amarrados atrás do trenó, e pôs-se a afagar um deles, nas costas e na garupa.

O velhote era exatamente como eu o havia imaginado: pequeno, magrinho, com o rosto enrugado e azulado, barbicha rala, nariz pontudo e dentes amarelos e roídos. Seu gorro era bastante novo, do correio, mas o curto casaco de pele, surrado, manchado de piche e rasgado no ombro e nas abas, não chegava a cobrir os joelhos e, quanto à roupa que usava por baixo, feita de cânhamo, a calça estava enfiada por dentro dos canos das enormes botas de feltro. Andava todo curvado, encolhido e, com os joelhos e o rosto trêmulos, vagava em redor do trenó, obviamente para tentar se aquecer.

– Puxa, Mítritch, tome aí uma garrafinha; é bom para esquentar – disse-lhe o conselheiro.

Mítritch tremia. Ajeitou os arreios de seu cavalo, arrumou o arco do arreio e aproximou-se de mim.

– E então, patrão – disse ele, tirando o gorro de seus cabelos grisalhos e curvando-se bastante num cumprimento –, andamos sem rumo com o senhor a noite inteira, procuramos um caminho; o senhor podia me agraciar com uma meia garrafa. É sim, paizinho, Vossa Excelência! Não tenho nada para me aquecer – acrescentou com um sorrisinho servil.

Dei-lhe uma moeda de vinte e cinco copeques. O vendedor de bebidas trouxe a garrafinha e serviu o velhote. Ele tirou a luva, soltou o chicote e levou a mão miúda, morena, retorcida e um pouco azulada na direção do copo; mas seu polegar, como se fosse alheio, não lhe obedecia; ele não conseguia segurar o copo, derramou a bebida e deixou o copo cair na neve.

Todos os cocheiros gargalharam.

– Olhe só, o Mítritch ficou congelado! Nem consegue segurar a vodca. Mas Mítritch se aborreceu muito por ter derramado a vodca.

No entanto serviram mais um copo e lhe deram de beber na boca. Na mesma hora ele se alegrou, foi para dentro da taberna, acendeu um cachimbo, pôs-se a sorrir com os dentes amarelados e roídos e, em cada palavra que dizia, misturava xingamentos. Depois de beberem a última garrafinha, os cocheiros se dispersaram em direção às suas troicas e partimos.

A neve se tornava cada vez mais branca e mais clara, de tal modo que olhar para ela fazia doer a vista. As faixas alaranjadas e vermelhas ficavam cada vez mais altas, dissipavam-se cada vez mais claras no céu; até o círculo vermelho do sol se fez visível no horizonte, através de nuvens acinzentadas; o azul tornou-se mais brilhante e mais escuro. As marcas na neve perto da aldeia dos cossacos estavam bem claras, nítidas, amareladas, aqui e ali havia buracos; no ar gélido e rarefeito, faziam-se sentir uma leveza e um frescor agradável.

Minha troica corria muito veloz. A cabeça do cavalo do meio e seu pescoço, com a crina que esvoaçava até o arco dos arreios, balançavam ligeiro, quase sem sair do lugar, embaixo das sinetas de caçador, cujo badalo já não batia mais, apenas raspava suas paredes. Os bons cavalos laterais da troica puxavam em harmonia os tirantes congelados e tortos, saltavam com energia, a borla batia embaixo do arreio e da barriga. Às vezes um cavalo lateral se desviava da estrada batida e esbarrava num monte de neve, a qual espirrava em seus olhos enquanto ele tentava afoitamente se desvencilhar. Ignachka dava alegres gritos de tenor; a geada seca uivava por baixo dos varais; atrás, duas sinetas ressoavam festivas e tilintantes e se ouviam os gritos embriagados dos cocheiros. Virei-me para trás: os cavalos laterais, cinzentos e de pelo encrespado, com o pescoço esticado, respirando ritmadamente e com o bridão torto, davam saltos sobre a neve. Filipp, brandindo o chicote, ajeitou o gorro, o velhote, com as pernas penduradas como antes, estava deitado no meio do trenó.

Dois minutos depois, o trenó rangeu sobre as tábuas rachadas da entrada da estação. Ignachka virou para mim seu rosto alegre, coberto pela neve, bafejado pela friagem.

– Está entregue, patrão!

11 de fevereiro de 1856

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