De umas memórias inéditas
Eu tinha, então, quase onze anos. Em Julho, mandaram-me de visita ao meu parente T…v, à sua aldeia nas cercanias de Moscovo, onde naquele momento estavam reunidos cinquenta convidados ou mais… não me lembro, não os contei. O ambiente era ruidoso e divertido. Parecia uma festa que tinha começado para nunca mais acabar, e que o nosso anfitrião tinha jurado desbaratar o mais depressa possível a sua enorme fortuna; de resto, há pouco tempo ele conseguiu cumprir tal suposição, isto é, esbanjou tudo até à última migalha. A cada momento chegavam novos convidados. Moscovo ficava a dois passos, mesmo à vista, quem se ia embora cedia o seu lugar aos que chegavam, e a festa continuava. Os divertimentos sucediam-se uns aos outros, não tinham fim as novas invenções. Ora se faziam passeios a cavalo pelas redondezas, em grandes grupos; ora passeios à floresta ou pelo rio; ora piqueniques, almoços ao ar livre; ora jantares no grande terraço da casa, com três renques de flores preciosas nos vasos inundando com a sua fragrância o fresco ar noturno, com uma iluminação forte sob a qual as senhoras, quase todas muito lindas, pareciam ainda mais encantadoras com os rostos animados pelas sensações do dia, com os seus olhos brilhantes, com a animação das suas conversas cruzadas, acompanhadas pelos risos sonoros como campainhas; ora havia danças, músicas, cantos; quando o céu estava sombrio, inventavam-se quadros vivos, jogava-se às charadas, aos provérbios, organizavam-se espetáculos amadores. Havia muitos tagarelas, contadores de histórias, brincalhões.
Várias pessoas se destacavam em primeiro plano. É evidente que a má-língua e os mexericos seguiam o seu curso habitual, já que sem eles o mundo não existiria e milhões de pessoas, sem eles, morreriam de tédio como moscas. Porém, como eu tinha apenas onze anos, não prestava atenção a essas pessoas, distraído que era por outros assuntos, e mesmo que me desse conta era de pouca coisa. Só mais tarde me vi obrigado a lembrar. Apenas o lado brilhante da festa saltava aos meus olhos infantis, e aquela animação geral, o brilho, o barulho — tudo isso que eu nunca tinha visto nem ouvido antes — impressionou-me tanto que nos primeiros dias andava confuso e com a cabeça às voltas.
Mas, repito, trata-se dos meus onze anos e de eu ser tão-só uma criança. Muitas daquelas belas senhoras, ao acariciarem-me, ainda não pensavam em perguntar-me a idade. Porém — coisa estranha!
– Já se apoderava de mim uma sensação incompreensível; havia já qualquer coisa que me aflorava o coração, qualquer coisa que o meu coração até então desconhecia, ignorava; às vezes fazia-o arder e palpitar como que de susto e, não raro, um vermelho repentino inundava-me as faces. Às vezes tinha vergonha e chegava a ficar ofendido com os meus privilégios infantis. Outras vezes apoderava-se de mim uma espécie de espanto e ia para qualquer lado onde não pudessem ver-me, como se quisesse recuperar o fôlego e recordar uma coisa que até ao momento julgava conhecer muito bem mas que, de repente, esquecera, e sem a qual não podia passar nem aparecer entre as pessoas.
Por último, parecia-me que estava a ocultar qualquer coisa de toda a gente, mas não falava disso a ninguém porque o pequeno homenzinho que eu era se envergonhava até às lágrimas. No meio do turbilhão que me rodeava, não tardei a sentir uma espécie de solidão. Havia mais crianças, mas todas muito mais novas ou muito mais velhas do que eu; de resto, não me interessavam. É claro que não me teria acontecido nada se não estivesse numa situação excecional. Aos olhos de todas aquelas belas senhoras, eu era ainda uma criatura pequena e indefinida que elas gostavam de acarinhar e com que lhes era possível brincar como com um boneco pequeno. Sobretudo uma delas, uma loira fascinante, com um cabelo espesso e luxuoso, que eu nunca viria a ver mais nem, pelos vistos, verei, parecia ter jurado não me deixar em paz. A mim envergonhava, e a ela divertia, o riso que ela provocava à nossa volta com as brincadeiras bruscas e caprichosas que fazia comigo e que lhe davam um grande prazer. Entre as colegas do internato chamar-lhe-iam com certeza infantil. Era divinamente bela, e havia na sua beleza qualquer coisa que saltava à vista logo à primeira. E, é claro, em nada se parecia com aquelas pequenas loirinhas envergonhadas, branquinhas como penas e ternas como ratinhos brancos ou filhas de um padre protestante. Era de pequena estatura e um tanto gorducha, mas com finos e delicados traços de rosto, de contornos fascinantes. Havia naquele rosto uma qualquer cintilação de raio (aliás, toda ela era fogo: viva, rápida, leve). Dos seus olhos grandes e abertos pareciam cair faíscas; brilhavam como diamantes, e eu nunca trocaria aqueles olhos azuis-claros e faiscantes por quaisquer olhos negros, nem que fossem mais negros que o mais negro dos olhares andaluzes; a sério, a minha loira não era nada pior do que aquela famosa morena cantada pelo célebre e maravilhoso poeta que nos seus excelentes versos jurava por toda a Castela que estava pronto a partir os próprios ossos se lhe permitissem tocar só com a ponta do dedo a mantilha da sua bela. É de acrescentar que a minha bela era a mais alegre de todas as belas do mundo, a mais voluntariosa das amigas de rir, ágil como uma criança, apesar de estar casada havia já cinco anos. O riso nunca abandonava a sua boca, fresca como uma rosa matinal que, ao primeiro raio do sol, fazia desabrochar o seu botão vermelho e aromático em que ainda não tinham secado as gotas frias e graúdas de orvalho.
Lembro-me de que no segundo dia após a minha chegada foi organizado um teatro amador. A sala estava repleta e, não me lembro porquê, como cheguei atrasado e não havia um lugar livre, tive de me deliciar de pé com o espetáculo. A peça alegre como que me puxava para a frente e, a pouco e pouco, avancei até às primeiras filas, onde fiquei, apoiado ao espaldar da cadeira onde se sentava uma senhora. Era precisamente a minha loira, mas nessa altura ainda não nos conhecíamos. Então, sem querer, não tirava os olhos dos ombros dela, divinamente arredondados, sedutores, rechonchudos e brancos como espuma de leite, embora me fosse perfeitamente indiferente olhar para uns ombros femininos ou para a touca com laços cor de fogo que cobriam o cabelo branco de uma senhora idosa da primeira fila. Ao lado da loira estava sentada uma velha solteirona, uma daquelas que, como viria a acontecer-me reparar mais tarde, costumam acomodar-se pertinho das mulheres bonitas e jovens, preferindo aquelas que não gostam de afastar de si os jovens. Ora, não se trata disso: logo que a solteirona reparou nos meus olhares, inclinou-se para a sua vizinha e, com uns risinhos, segredou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Esta virou-se bruscamente e, lembro-me, os seus olhos de fogo cintilaram para mim na penumbra, e eu, como não estivesse preparado para o embate, estremeci como se me queimasse. A beldade sorriu.
– Está a gostar do espetáculo? — perguntou, fitando-me nos olhos com manha e ironia.
– Estou — respondi, olhando para ela com um espanto que, pelos vistos, lhe agradou.
– Mas por que está de pé? Assim fica cansado; não tem lugar?
– É por isso, não tenho — respondi, passando a comover-me mais com esta sua preocupação comigo do que com os olhos faiscantes da bela, e muito contente, a sério, por ter encontrado finalmente um bom coração a quem podia revelar o meu azar. — Já procurei, as cadeiras estão todas ocupadas — acrescentei, em tom de queixa.
– Anda cá — disse ela com prontidão, tão rápida em todas as suas decisões como em relação a qualquer ideia caprichosa que cintilasse na sua cabeça desvairada —, anda cá e senta-te ao meu colo.
– Ao colo?… — repeti, perplexo.
Disse já que os meus privilégios infantis começavam a ofender- me e a envergonhar-me seriamente. A senhora estava a levar a sua
brincadeira longe demais. Além disso eu, sempre tímido e envergonhado, com as mulheres ainda o era mais, por isso fiquei terrivelmente confuso.
– Sim, ao colo! Por que não queres sentar-te ao meu colo? — insistia ela, rindo-se cada vez mais, já às gargalhadas, sabia-se lá porquê, por fantasia sua ou por ver-me envergonhado. Era disso mesmo que ela precisava.
Corei e olhei em volta, envergonhado, procurando saída para fugir; mas já ela se me antecipava e me pegava na mão, impedindo- me a fuga, e, puxando-me para si, para meu grande espanto logo me apertou dolorosamente a mão nos seus dedinhos quentes e traquinas, e começou a torcer-me os dedos de tal modo que eu fazia grande esforço para não gritar, com caretas pelos vistos muito cómicas. Além disso, fiquei extremamente surpreendido, atrapalhado e até aterrorizado ao saber que existiam senhoras brincalhonas e mazinhas que diziam semelhantes disparates aos rapazes e os beliscavam tão cruelmente, sem qualquer motivo e, ainda por cima, na presença de toda a gente. Por certo que a minha cara refletia todas as minhas perplexidades porque a traquinas se ria na minha cara como uma maluca enquanto continuava a torcer e a beliscar os meus pobres dedos cada vez mais. Exultava com o prazer de ter feito uma asneira infantil, de envergonhar um pobre garoto, de o embaraçar. A minha situação tornava-se desesperada. Em primeiro lugar, ardia de vergonha porque quase toda a gente se tinha voltado para nós, alguns perplexos, outros a rirem por perceberem que a beldade fizera uma asneira. Além disso, tinha vontade de gritar porque ela, precisamente porque eu não gritava, me magoava os dedos com fúria; ora, como um espartano, eu decidi suportar a dor, com medo de provocar um alarido qualquer, não sabendo o que depois me poderia acontecer. Num acesso de desespero, comecei finalmente a lutar e a dar puxões à minha mão para a retirar, mas a tirana era muito mais forte. Por fim, não aguentei e gritei: era isso que ela queria! Largou-me logo e virou-me as costas, como se nada tivesse acontecido, como se não tivesse sido ela quem fez aquilo mas outro qualquer, tal qual um aluno da escola que, mal o professor vira costas, faz de imediato uma malandrice qualquer, belisca um rapaz mais pequeno e fraco, ou dá- lhe um piparote, ou um pontapé, ou uma cotovelada, e logo a seguir volta-se, enfia o nariz no livro e põe-se a decorar a lição, deixando o senhor professor, que se atira como um gavião para o centro de algazarra, com um nariz de palmo e meio.
Felizmente para mim, a atenção geral estava nesse momento concentrada na mestria artística do nosso anfitrião que fazia na peça apresentada (uma comédia qualquer de Scribe) o papel principal. Toda a gente aplaudiu; eu, aproveitando-me disso, fugi e meti-me no canto mais longínquo da sala, donde, escondido por trás de uma coluna, olhava aterrorizado para a pérfida beldade, que continuava a rir-se, tapando a boca com o lenço. Durante muito tempo ainda ela se voltava na cadeira e me procurava por todo o lado, com pena, pelos vistos, que a nossa luta tivesse terminado tão depressa e inventando talvez mais alguma partida a pregar.
Assim começou o nosso conhecimento e, desde essa noite, ela não me largou mais. Perseguia-me com uma desvergonha desmedida, tornou-se a minha opressora, a minha tirana. A comicidade das suas brincadeiras comigo consistia em se declarar loucamente apaixonada por mim e em cobrir-me de vergonha na presença de todos. É evidente que para mim, um rapaz asselvajado, tudo isso era desagradável e penoso até às lágrimas; por várias vezes me vi em situações tão sérias e críticas que me senti disposto a andar à pancada com a minha pérfida admiradora. A minha confusão ingénua, a minha aflição desesperada apenas pareciam dar mais asas à sua vontade de me perseguir. Ela não conhecia a piedade, e eu não sabia onde esconder-me dela. Os risos que soavam à nossa volta, e que ela sabia tão bem provocar, incentivavam-na para novas partidas. As pessoas, porém, começaram finalmente a achar que ela ia longe demais com as suas brincadeiras. Efetivamente, quando recordo hoje tudo isso, vejo que ela se permitia coisas demais com a criança que eu era.
Mas era assim o feitio dela: uma brincalhona, nada a dizer. Ouvi mais tarde que aquilo era fruto do mimo que lhe dava o seu próprio marido, um homenzinho gorducho, de cara muito vermelha, muito rico e cheio de negócios, pelo menos aparentemente: era muito remexido, sempre atarefado, não parava no mesmo sítio mais de duas horas. Todos os dias tinha de ir a Moscovo, duas vezes nalguns dias, sempre para tratar de qualquer assunto, dizia ele. Era difícil encontrar-se fisionomia mais alegre e bondosa, mas também idónea. Não só amava a mulher até à fraqueza, a ponto de provocar compaixão nos outros, mas venerava-a como a um ídolo.
Não a limitava em nada. A senhora tinha um sem-fim de amigos e amigas. Em primeiro lugar, havia pouca gente que não gostasse dela; em segundo, a cata-vento não era muito exigente na escolha dos amigos, embora no seu caráter houvesse muito mais seriedade do que é possível imaginar-se, julgando pelo que acabei de contar. Entre todas as suas amigas, preferia e gostava mais de uma jovem senhora, sua parente longínqua, que também fazia parte dos convidados. Havia entre elas uma ligação terna e requintada, do género que surge às vezes entre dois caracteres diametralmente opostos, um mais sério, profundo e puro do que o outro que, dotado de muita resignação e do nobre sentimento da autocrítica, lhe obedece com amor, reconhecendo a superioridade do primeiro e transportando com felicidade a amizade do outro no coração. Acontece então este requinte meigo e nobre nas relações entre os dois caracteres; o amor e a condescendência até ao fim, por um lado; o amor e o respeito, pelo outro — um respeito que chega a ser uma espécie de medo, de medo por si aos olhos da pessoa a quem dá tão alto valor, e até o desejo ávido e ciumento de ficar mais íntimo no coração do amigo a cada passo que se dá na vida. As amigas eram da mesma idade, mas eram diferentes em tudo, começando na beleza. Madame M… também era muito bonita, mas parecia haver na sua beleza qualquer coisa que a salientava bruscamente no meio da multidão de mulheres bonitas; havia no seu rosto qualquer coisa que atraía imediata e irresistivelmente todas as simpatias, ou melhor, que despertava uma simpatia nobre e sublime em que a encontrasse. Existem rostos assim, felizes rostos. Ao pé dela, qualquer um se sentia melhor, mais livre, mais quente; entretanto, os seus olhos tristes e grandes, cheios de fogo e força, eram tímidos e inquietos, como que sob a pressão do medo permanente de qualquer coisa hostil e perigosa, e esta estranha timidez, por vezes, envolvia com tanta tristeza os seus traços meigos e serenos, traços que lembravam os rostos límpidos das Madonas italianas, que, olhando para ela, também nos sentíamos tristes, como se fosse a nossa própria mágoa. O seu rosto pálido e magro em que, através da beleza impecável dos traços regulares e puros e da mágoa sombria e oculta, transparecia muitas vezes a imagem inicial da inocência infantil — imagem dos recentes anos de felicidade confiante e ingénua; este sorriso meigo mas tímido, incerto — no seu todo impressionava e provocava tanta compaixão inconsciente por esta mulher que no coração de cada um nascia, involuntariamente, o sentimento doce e caloroso de lhe querer bem ainda à distância, só de nos aproximarmos dela, mesmo sem a conhecermos. Mas a bela senhora parecia taciturna, fechada, embora não houvesse criatura mais atenciosa e simpática quando alguém precisava de compaixão. Há mulheres que são como irmãs de misericórdia. Diante delas podemos não esconder nada do que dói e faz sofrer a alma. O sofredor pode procurá-las com esperança e sem medo de incomodar porque não fazemos sequer ideia de quanto amor infinitamente paciente, de quanta compaixão e misericórdia há nalguns corações femininos. Um tesouro enorme de simpatia, de consolação e de esperança é guardado nesses corações puros, tantas vezes também feridos porque o coração que ama muito também se angustia muito; mas a ferida é cuidadosamente escondida dos olhares curiosos, pois a desgraça profunda costuma calar-se e esconder-se. Estas mulheres não se assustam com a profundidade da ferida do outro, nem com o pus nem com o fedor dessa ferida: quem as procura é logo digno delas; elas, de resto, são como se nascessem destinadas para as grandes obras… Madame M… era alta, flexível e esbelta, mas magra demais. Todos os seus movimentos eram de uma certa maneira irregulares, ora vagarosos, fluentes e até imponentes, ora infantilmente precipitados; ao mesmo tempo saía dos seus gestos uma tímida resignação, alguma coisa de trémulo e desprotegido mas que não pede proteção a ninguém.
Disse já que os assédios censuráveis da pérfida loira me envergonhavam, me magoavam e feriam até ao sangue. Entretanto, havia para isso mais uma razão, estranha e estúpida que eu escondia, pela qual tremia como um avarento pelo seu tesouro, e só de pensar nisso, a sós com a minha cabeça transtornada, algures num cantinho secreto e escuro, onde não podia penetrar o olhar irónico e inquisitorial de nenhuma malandreca de olhos azuis, só de pensar nesse assunto quase sufocava de confusão, vergonha e medo — numa palavra, estava apaixonado, ou antes, disse um disparate: isso era impossível; no entanto, por que seria que, de entre todos os rostos que me rodeavam, apenas um era contemplado pela minha atenção? Por que razão era ela a única que eu gostava de seguir com o olhar, embora naquele tempo eu ainda não tivesse qualquer interesse em seguir as senhoras e travar conhecimento com elas? Isso acontecia principalmente à noite, quando a intempérie obrigava toda a gente a ficar dentro de casa e quando eu, escondido sozinho nalgum canto da sala, olhava distraidamente a toda a volta, sem encontrar qualquer outra maneira de passar o tempo porque era raro alguém, com excepção das minhas perseguidoras, falar comigo; nessas noites aborrecia-me insuportavelmente. Então estudava os rostos, escutava as conversas, conversas de que a maior parte das vezes não percebia nada, e era nessa altura que, só Deus saberia porquê, o olhar sereno, o sorriso meigo e o rosto bonito de Madame M… (porque era ela) atraíam a minha atenção fascinada e pronto, nunca mais se apagava aquela minha sensação estranha, indefinida mas incompreensivelmente deliciosa. Muitas vezes eu não conseguia descolar dela, durante horas a fio, o meu olhar; trazia decorados cada gesto, cada movimento dela, cada vibração da sua voz espessa, argentina mas um pouco abafada, e — coisa estranha! — de todas as minhas observações, juntamente com a impressão tímida e doce, resultou uma estranha curiosidade. Parecia andar em tentativa de desvendar um segredo qualquer…
O mais insuportável para mim eram as zombarias na presença de Madame M… No meu entendimento, tais zombarias, assim como as perseguições cómicas, só me humilhavam. E quando a risota geral incidia em mim, participando às vezes nela, involuntariamente, a própria Madame M…, eu, desesperado, fora de mim de amargura, libertava-me das minhas tiranas e fugia para o andar de cima, onde, como um selvagem, passava todo o fim de tarde sem me aparecer na sala. Aliás, eu próprio ainda não percebia a minha vergonha nem a minha emoção; vivia todo o processo, no meu íntimo, inconscientemente. Com Madame M… nem sequer trocara ainda duas palavras; também, era evidente que nunca me atreveria a isso. Ora, um fim de tarde, depois de um dia perfeitamente insuportável para mim, atrasei-me dos outros durante o passeio e, como estivesse cansadíssimo, resolvi ir para casa atravessando o jardim. Numa alameda deserta vi Madame M… sentada num banco. Estava sozinha, como se tivesse escolhido de propósito aquele lugar afastado, e reclinava a cabeça para o peito, amarrotando o lenço nas mãos maquinalmente. Estava tão mergulhada nos seus pensamentos que não me ouviu a aproximar.
Quando reparou em mim levantou-se rapidamente, voltou-me a cara e vi que limpava apressadamente os olhos com o lenço. Estivera a chorar. Limpos os olhos, sorriu-me e foi comigo para casa. Já não me lembro do que falámos; só sei que, a cada momento e pelos mais diversos pretextos, ela me afastava de si: que lhe fosse colher uma flor, que fosse ver quem ia a cavalo na álea ao lado. Mal eu me afastava dela, voltava a levar o lenço aos olhos e a limpar as lágrimas desobedientes que não queriam exaurir-se, lhe enchiam cada vez mais o coração e lhe corriam dos pobres olhos. Eu via que estava a incomodá-la muito, uma vez que estava sempre a mandar-me fazer coisas, e ela também reparou que eu já percebera isso, mas não conseguia dominar-se, o que me fazia sofrer ainda mais por ela. Desesperadamente enraivecido comigo mesmo, eu amaldiçoava a minha falta de jeito e a minha inépcia, mas não via maneira de, com delicadeza, a deixar sozinha sem lhe mostrar que notara a sua aflição; continuava a seu lado, num espanto triste, cheio de medo, confuso ao extremo, sem descortinar uma palavra para manter a nossa conversa.
Este encontro deixou-me de tal forma abalado que, durante todo aquele fim de tarde, não consegui mais tirar os olhos de Madame M…, observando-a disfarçadamente com uma curiosidade ávida. Mas aconteceu que, por duas vezes, me apanhou a olhar para ela e, na segunda vez, sorriu. Foi o seu único sorriso naquela tarde. A tristeza ainda não lhe abandonara o rosto, agora muito pálido. Não parava de falar, em voz baixa, com uma senhora idosa, uma velha má e resmungona de que ninguém gostava por ter o hábito de espiar as pessoas e lançar boatos, mas que, por outro lado, toda a gente temia e se via na obrigação de agradar de todas as maneiras e feitios…
Por volta das dez horas chegou o marido de Madame M… Até então eu estivera a observá-la com toda a atenção, sem desviar os olhos dela; agora, com a entrada inesperada do marido, vi que ela estremeceu e o seu rosto ficou ainda mais pálido, branco como o papel. Isso foi tão evidente que os outros também o notaram: ouvi por perto frases de uma conversa que me levaram a conjecturar que Madame M… não estava nada bem. Diziam que o marido de Madame M… era ciumento como um africano, mas não por amor, antes por amor-próprio. No entanto, ele era um europeu, um homem moderno, gostando mesmo de exibir com vaidade elementos das ideias novas. Fisicamente era um senhor alto e corpulento, de cabelo preto, suíças talhadas à moda europeia, bochechas rosadas e uma expressão presunçosa na cara, os dentes brancos como açúcar e um porte impecável de gentleman. Apelidavam-no de homem inteligente. Assim se denomina em determinados círculos aquele tipo especial de homens que engordaram por conta alheia, que não fazem nem querem fazer absolutamente nada e que, por preguiça e ócio eternos, têm um naco de gordura no lugar do coração. Da boca deles ouvimos constantemente que não têm nada que fazer por causa de sabe-se lá que circunstâncias emaranhadíssimas e hostis que lhes «exaurem o génio» e, por isso, provocam «a pena de olhar para eles». Usam esta frase empolada, é o seu mot d’ordre, a sua senha, a frase que estes meus gordos cevados espalham por todo o lado a cada passo, e que já começa a aborrecer como uma tartufice, uma conversa oca. Aliás, alguns destes mandriões que não adregam arranjar ocupação para si — sem nunca a terem procurado, aliás — pretendem precisamente que toda a gente pense que eles não têm um naco de gordura no lugar do coração mas, pelo contrário, qualquer coisa muito profunda; mas o quê, exatamente, isso não poderia dizê-lo o melhor dos cirurgiões – por delicadeza, é claro. Estes senhores fazem carreira dirigindo todos os seus instintos para, precisamente, a má-língua grosseira, a censura mais míope e o orgulho mais desmesurado. Como não têm mais nada que fazer senão descobrir e registar os erros e as fraquezas alheios, e os seus bons sentimentos são tantos quantos os de uma ostra, não lhes custa nada, com esses meios de proteção, viver a sua vidinha entre as pessoas de forma bastante prudente. Envaidecem-se muito com isso. Têm quase a certeza, por exemplo, de que a maior parte do mundo lhes deve pagar tributo; que o mundo é como uma ostra, de novo, que encomendam para o caso de lhes apetecer comê-la; que toda a gente, menos eles, é parva; que todo e qualquer um, que não eles, se assemelha a uma esponja ou a uma laranja que espremem quando precisam de sumo; que são senhores de tudo e que toda esta louvável ordem das coisas existe precisamente pelo facto de eles serem tão inteligentes e especiais. No seu orgulho desmedido, não admitem ter defeitos, alguns defeitos. Assemelham-se à raça do trivial vigarista do dia-a- dia, são Tartufos e Falstaffes natos que de tal modo se habituaram à vigarice que acabam por se convencer de que a vida é mesmo assim, isto é, aldrabar para viver; e passaram tanto tempo a convencer toda a gente de que são honestos que acabam por se convencer também de que o são e de que a sua vigarice é precisamente isso: honestidade. Para um juízo íntimo de si, com consciência, para a nobre autoavaliação, para isso nunca terão capacidade, há coisas para as quais são demasiado gordos. Colocam em primeiro plano, sempre e em tudo, a sua pessoa, que é a sua joia preciosa, o seu Moloch e o seu Baal, o seu ego magnífico. Para eles, toda a natureza, todo o mundo, não é mais do que um espelho maravilhoso onde só o deusinho se reflecte e se admira constantemente, não vendo mais ninguém atrás de si; por isso não é de espantar que veja tudo de uma forma tão monstruosa. Têm uma frase feita de reserva para tudo, uma frase que — cúmulo da sua habilidade — é a frase que está na moda. São eles próprios, inclusive, que contribuem para esta moda, divulgando em todas as encruzilhadas a ideia que farejaram poder vir a ter êxito. São precisamente eles quem possui o faro para descobrir uma frase da moda e se apropriar dela antes dos outros, como se fosse da sua própria autoria. Costumam munir-se das suas frases, sobretudo, para exprimirem a sua profundísssima simpatia pela humanidade, para definirem qual a mais correta e razoável filantropia e, por último, para castigarem implacavelmente o romantismo, ou seja, tudo o que, em cada seu átomo, é mais belo, verdadeiro e valioso do que toda a raça de lesmas a que pertencem esses senhores. Não reconhecem a verdade na sua forma incerta, transitória e não acabada, rejeitam tudo o que ainda não amadureceu, não se estabilizou, tudo o que está ainda a fermentar. O homem cevado vive toda a sua vida alegremente, com tudo feito e servido, nunca fez nada nem sabe como é duro o trabalho, por isso é perigoso tocar com alguma aspereza os seus sentimentos gordos: nunca perdoa isso, guarda rancor e vinga-se com prazer. Resumindo: o meu herói é nem mais nem menos um saco gigantesco, cheio até mais não poder ser, atafulhado de sentenças, de frases da moda e de etiquetas de todos os géneros.
Monsieur M…, além disso, tinha outra, e notória, particularidade: era brincalhão, tagarela e contador de histórias, tendo sempre à sua volta nos salões um círculo de ouvintes. Na noite de que falo conseguiu causar um efeito especial. Como estava de maré, animado, contente por qualquer coisa que lhe acontecera, conseguiu monopolizar a conversa, concentrar em si todas as atenções. Somente Madame M… permaneceu como que adoentada, com o rosto tão triste que a mim pareceu que a qualquer momento as lágrimas lhe voltariam a tremer nas pestanas. Tudo isso, como já disse, muito me espantou. Saí de lá com um sentimento de extrema curiosidade, e toda a noite, apesar de antes nunca ter tido pesadelos, sonhei com Monsieur M….
No dia seguinte, de manhã cedo, chamaram-me para o ensaio dos quadros vivos, em que eu também tinha um papel. Os quadros vivos, o teatro e, depois, o baile, tudo numa noite, tinham sido marcados para dali a cinco dias, por motivo de uma festa na família: o aniversário da filha mais nova do nosso anfitrião. Para esta festa quase improvisada foram convidados de Moscovo e das vizinhas casas de campo mais umas cem pessoas, pelo que a azáfama, os preparativos e as correrias eram grandes. Os ensaios, ou melhor, a revista dos trajos, foram feitos a uma hora incómoda, de manhã, porque o nosso encenador, o célebre pintor R…, amigo e convidado do nosso anfitrião, que acedera por amizade a criar e a encenar os quadros vivos, e também a ensaiar-nos, estava com pressa de ir à cidade comprar os adereços e o mais que era necessário para a festa, pelo que não havia tempo a perder. Eu participava num quadro juntamente com Madame M… Era uma cena da vida medieval e chamava-se «A castelã e o seu pajem».
Senti um indizível embaraço quando me encontrei com Madame M… no ensaio. Tive a impressão de que ela leria de imediato nos meus olhos todos os meus pensamentos, as minhas dúvidas e as suposições que na véspera me tinham passado pela cabeça. Além disso, sentia uma espécie de culpa para com ela porque a vira a chorar e a incomodara na sua tristeza, o que a levaria, mesmo involuntariamente, a olhar-me de soslaio como testemunha desagradável e protagonista inconveniente do seu segredo. Mas, graças a Deus, tudo se passou sem grandes problemas: ninguém fez caso de mim, pura e simplesmente. Ao que parecia, ela não estava para mim nem para o ensaio: distraída, triste e sombriamente pensativa, via-se que a atormentava uma grande preocupação. Acabando de ensaiar o meu papel, corri para mudar de roupa e, uns dez minutos depois, saí para o terraço que dava para o jardim. Quase ao mesmo tempo, saiu da outra Madame M… e, ao seu encontro, também o seu presunçoso marido que voltava do jardim: tinha acompanhado até lá um grupo de senhoras, entregando-as, depois, aos cuidados de um cavalier servant3. Aquele encontro dos esposos foi, pelos vistos inesperado. Madame M…, não sei porquê, embaraçou-se e esboçou um gesto que denotava algum desgosto e impaciência. O marido, que vinha a assobiar despreocupadamente uma ária e a cofiar as suíças com ar de sábio, ao ver a mulher carregou o sobrolho e passou por ela um olhar verdadeiramente inquisitorial (assim o recordo hoje).
– Vai para o jardim? — perguntou ele ao reparar no guarda-sol e num livro que a mulher levava.
– Não, vou até ao bosque — respondeu ela, corando ao de leve.
– Sozinha?
– Com ele… — disse Madame M…, apontando para mim. — De manhã passeio sozinha — acrescentou com uma voz irregular, indefinida, a voz de quem mente pela primeira vez na vida.
– Humm… Acabei de levar para lá todo um rancho de senhoras. Juntou-se toda a gente ali, ao pé do pavilhão das flores, para se despedir de N… Ele vai-se embora, a senhora sabe… aconteceu uma desgraça qualquer lá em Odessa… A sua prima (estava a falar da loira) tanto ri como chora, não se percebe. Aliás, ela disse-me que a senhora estava zangada com N… por qualquer razão e que por isso não ia despedir-se dele. Com certeza um disparate dela, não?
– É ela a brincar — respondeu Madame M…, descendo a escada do terraço.
– Então, é este o seu cavalier servant de todos os dias? — perguntou ainda Monsieur M…, torcendo a boca e apontando para mim o lornhão.
– Pajem! — gritei, irritado com o lornhão e o gozo, e, rindo-me na cara dele, saltei três degraus de uma vez…
– Bom passeio! — murmurou Monsieur M… e seguiu o seu caminho.
É claro que, mal Madame M… me apontara ao marido, me tinha logo aproximado dela com o ar de ter sido convidado por ela havia já uma hora e de ter passeado com ela todos os dias de manhã havia já um mês. Mas não alcançava compreender: por que razão ela se atrapalhara tanto, por que ficara tão confusa e o que teria na cabeça quando resolveu recorrer à sua pequena mentira? Por que não disse simplesmente ao marido que ia sozinha? Agora nem sabia como poderia olhar para ela; a pouco e pouco, porém, surpreendido com o sucedido, comecei a espreitar-lhe ingenuamente para a cara; mas, tal como uma hora atrás, no ensaio, ela não reparava nos meus olhares nem nas minhas perguntas mudas. Havia no seu rosto a mesma preocupação dolorosa, mas ainda mais evidente, mais profunda do que antes, e visível em tudo: na expressão, no ar emocionado, no andar. Ia com pressa, estugava cada vez mais o passo, deitava miradas preocupadas para cada alameda, para cada clareira do bosquezinho, virava a cabeça para o jardim. Eu também estava à espera de qualquer coisa. De repente ouviu-se atrás de nós o bater de cascos de cavalos. Era toda uma cavalgada de amazonas e cavaleiros que acompanhavam o tal N… que tão subitamente abandonava a nossa companhia.
Entre as senhoras estava também a minha loira, a mesma de quem Monsieur M… referira as lágrimas. Porém, segundo o seu costume, a loira, cavalgando um excelente baio, ria como uma criança. Ao passar por nós, N… tirou o chapéu, mas não parou nem disse uma única palavra a Madame M… Não tardou a que o grupo desaparecesse da nossa vista. Olhei para Madame M… e por pouco não gritei de espanto: estava parada, branca como a cal, com lágrimas graúdas caindo-lhe dos olhos. Os nossos olhares cruzaram-se: Madame M… corou de repente, virou-me as costas por um instante, e ainda lhe vi de relance na cara o desgosto e a preocupação. Eu incomodava-a, mais ainda do que no dia anterior, mas onde poderia meter-me?
De súbito, Madame M…, como se tivesse uma ideia, abriu o livro que tinha na mão e, corando e tentando não olhar para mim, disse como se acabasse de reparar:
– Ah! É a segunda parte, enganei-me; por favor, não queres ir buscar-me o primeiro volume?
Estava tudo claro: o meu papel acabara e não poderia haver maneira mais direta de ser corrido.
Deitei a correr com o livro dela na mão e não voltei. Nessa manhã, o primeiro volume permaneceu calmamente em cima da mesa…
Entretanto, eu ficara muito desconcertado, batia-me com força o coração, como se tivesse acabado de apanhar um susto. Fazia tudo para não me encontrar por acaso com Madame M… Mas olhava com louca curiosidade para a presunçosa figura de Monsieur M…, como se agora ele estivesse revestido de qualquer coisa especial. Não compreendo, francamente, o que provocava em mim aquela curiosidade cómica; lembro-me, isso sim, do espanto em que andava depois de tudo o que me calhara ver nessa manhã. O meu dia, porém, apenas começava, e viria a ser, para mim, um dia cheio de aventuras.
Desta vez almoçou-se muito cedo. Estava marcado para a tarde um passeio comum a uma aldeia vizinha onde haveria uma festa popular, por isso precisávamos de tempo para os preparativos. Sonhava com este passeio havia já três dias, na esperança de um mar de divertimentos. Estava reunida no terraço, para tomar café, quase toda a gente. Introduzi-me lá sorrateiramente, nas costas dos outros, e escondi-me atrás de três filas de cadeiras. Era fortíssima a minha curiosidade, mas de modo nenhum queria ser visto por Madame M… Quis porém o destino colocar-me bem perto da minha loira perseguidora. Acontecera com ela, neste dia, um milagre inimaginável: ficou duas vezes mais bonita. Não sei como nem porquê isto acontece, mas um tal milagre não é assim tão raro entre as mulheres. Na altura tínhamos um convidado novo, um jovem alto e pálido, admirador oficial da nossa loira, recém-chegado de Moscovo para, nem de propósito, substituir o outro que partira, o senhor N…, sobre quem corriam murmúrios de que estava loucamente apaixonado pela nossa beldade. Quanto ao recém- chegado, havia muito que estava com ela nas mesmas relações que Benedito e Beatriz em Muito Barulho para Nada de Shakespeare. Em resumo, era um dia em que a nossa bela estava extraordinariamente na berra. O seu tagarelar e o seu brincar eram tão graciosos, tão ingénuos, tão toleravelmente afoitos, a sua presunção de ser admirada por unanimidade era tão amorosa que, de facto, quase todos a veneravam. À sua volta estava sempre um círculo apertado de ouvintes pasmados, fascinados por ela, que nunca esteve tão sedutora. Qualquer palavrinha dela encantava, soava a inédita, e era captada e transmitida aos outros; nenhuma das suas brincadeiras ou afrontazinhas caíam em saco roto. Parecia até que ninguém estava à espera de tanto gosto, tanto brilho e tanto espírito da parte dela, já que todas as suas melhores qualidades eram, no dia-a-dia, obnubiladas pelos seus caprichos voluntariosos, pela insistência em brincadeiras infantis que chegavam a atingir foros de palhaçadas; raras pessoas reparavam nas suas qualidades e, mesmo que reparassem, não acreditavam nelas; assim, o seu extraordinário êxito neste dia foi recebido por um sussurro uníssono de admiração.
De resto, contribuía para este êxito uma circunstância especial e bastante delicada, pelo menos a julgar pelo papel que, ao mesmo tempo, o marido de Madame M… desempenhava. A brincalhona resolveu (é de acrescentar: para o prazer geral, ou, pelo menos, para o prazer de toda a juventude) atacá-lo impiedosamente por muitas e variadas razões, no seu entender bastante importantes, por certo. Travou com ele um verdadeiro tiroteio de brincadeiras, facécias, sarcasmos dos mais avassaladores e ambíguos, pérfidos, bem acabados, daqueles que atingem o alvo mas que não dão azo ao atingido de se agarrar seja ao que for para ripostar e apenas o deixam esgotado nas suas tentativas infrutíferas, levando-o à fúria e ao mais cómico dos desesperos.
Não tenho a certeza, mas parece-me que toda esta afronta da parte dela foi intencional e não improvisada. O arrojado duelo começou ainda durante o almoço. Digo «arrojado» porque Monsieur M… não depôs as armas assim tão depressa. Precisou de juntar todo o seu sangue-frio, todo o seu espírito, todo o seu engenho para não sofrer uma derrota total, para não ser reduzido a pó, para não se cobrir completamente de infâmia. O desenrolar do duelo era acompanhado pelos risos ininterruptos e irrefreáveis de todas as testemunhas e dos participantes. Fosse como fosse, esse dia foi, para ele, muito diferente do anterior. Notava-se que Madame M… tentava travar a sua imprudente amiga (fê-lo várias vezes) no seu desejo de vestir ao marido ciumento as vestes de palhaço ridículo e, supostamente, por tudo o que me ficou gravado na memória e pelo papel que me coube desempenhar na contenda, apresentá-lo também na função de Barba Azul.
Aconteceu de repente, de forma muito cómica, sem eu esperar e, nem de propósito, quando eu estava à vista de todos, sem suspeitar do perigo e esquecendo as minhas recentes precauções. De repente, fui guindado a primeiro plano e eleito inimigo contumaz e rival natural de Monsieur M…, na minha qualidade de louca e desesperadamente apaixonado pela mulher, por obra da minha tirana que jurou, com palavra de honra à mistura e declarando ter provas, que vira no próprio dia, por exemplo, na floresta…
Não teve tempo de acabar porque a interrompi no momento de maior desespero para mim. Este momento tinha sido calculado de forma tão impiedosa, preparado tão traiçoeiramente com vista ao final, ao desenlace histriónico e encenado de modo tão cómico que uma explosão de riso geral irrefreável saudou esta última afronta da loira. Então, embora eu já tivesse adivinhado que não era a mim que ela destinara o papel mais desagradável, fiquei tão confuso, irritado e assustado que, ofegando de vergonha, com lágrimas de angústia e desespero nos olhos, me enfiei entre duas filas de cadeiras, dei um passo em frente e, dirigindo-me à minha tirana, gritei em voz entrecortada pelo choro e pela indignação:
– Não tem vergonha… em voz alta… na presença de todas as senhoras… dizer essa… essa mentira tão maldosa?! Como uma criança, a senhora… diante de todos os homens… O que é que eles vão dizer?… A senhora… uma adulta… casada!
Mas não acabei: o aplauso foi ensurdecedor. A minha refutação causou um verdadeiro furore. O meu gesto ingénuo, as minhas lágrimas e, sobretudo, o facto de eu supostamente ter defendido Monsieur M…, tudo isso provocou um riso tão infernal que, mesmo agora, basta-me recordá-lo para me dar grande vontade de rir… Fiquei aturdido, quase enlouqueci de terror e, ardendo como pólvora, tapando a cara com as mãos, ejetei-me para fora, dei uma pancada num lacaio que estava à entrada, derrubando-lhe a bandeja das mãos, e corri para cima, para o meu quarto. Arranquei a chave da porte de fora da fechadura e fechei-me no quarto. E fiz bem, porque estava a ser perseguido. Não tardou um minuto e já a minha porta era assediada por uma chusma das mais lindas senhoras. Ouvia os seus risos sonoros, o metralhar das suas vozes; chilreavam todas ao mesmo tempo como andorinhas. Todas elas, todas, pediam, imploravam que eu lhes abrisse a porta nem que fosse por um instante; juravam que não me fariam mal, apenas me cobririam de beijos. Mas… o que poderia haver de mais pavoroso do que aquela nova ameaça? Eu ardia de vergonha por trás da minha porta, com a cara enfiada nas almofadas, e não abri, nem sequer lhes respondi. Ainda bateram e suplicaram durante muito tempo, mas eu permaneci insensível e surdo como pessoa de onze anos que era.
O que faria agora? Tinha sido tudo descoberto, desvendado, tudo o que eu escondia, que guardava em tão rigoroso segredo… Tombaria sobre mim a vergonha e o opróbrio eternos!… Eu próprio não sabia dar nome ao que tinha sido a causa do meu medo e que tinha preferido manter oculto; o certo era que a descoberta dessa causa do meu medo ainda me fazia tremer como uma folha. Até ao momento eu não sabia: isso era bom ou mau, glorioso ou ignóbil, louvável ou reprovável? Uma coisa eu sabia, no momento da angústia e do tormento que me tinham sido impostos: isso era ridículo e vergonhoso! Por instinto, sabia ao mesmo tempo que tal sentença era falsa, desumana e grosseira; mas estava derrotado, desfeito; era como se o trabalho da minha consciência se tivesse emaranhado e parado; eu era incapaz de me opor a esta sentença ou de refletir sobre ela como era devido; tinha a mente turvada, apenas sentia que o meu coração tinha sido vergonhosamente ferido, de maneira desumana, e banhava-me em lágrimas de impotência. Estava irritado, ferviam dentro de mim uma indignação e um ódio que nunca antes conhecera porque era a primeira vez na vida que experimentava uma desgraça a sério, um insulto, uma ofensa — e de verdade, sem exageros. Tinha sido brutalmente ofendido na criança que eu era o primeiro sentimento que brotara, ainda indeciso, imaturo; tinha sido precocemente desnudado e profanado em mim o primeiro pudor casto e límpido; tinha sido ridicularizada em mim a primeira, e talvez muito séria, impressão estética. É claro que os zombadores não conheciam nem sentiam muita coisa dos meus tormentos. Incluía-se nesses tormentos uma circunstância que eu receava e ainda não tivera tempo de desvendar. Cheio de angústia e desespero, continuava deitado na cama, escondendo o rosto nas almofadas; ora tinha calor, ora tinha frio. Atormentavam-me duas perguntas: o que tinha visto ou, de uma maneira geral, o que poderia ter visto a maldosa loira na floresta, entre mim e Madame M…? A segunda: como, com que olhos e de que maneira poderia eu agora olhar Madame M… na cara para não morrer de desespero e vergonha no próprio momento e lugar?
Um barulho invulgar no terreiro despertou-me do meu quase desfalecimento. Levantei-me, fui à janela. O terreiro estava atulhado de carruagens, de cavalos de sela e de criados em azáfama. Pelos vistos, toda a gente se preparava para partir; uns convidados já montavam os cavalos, outros já estavam acomodados nas carruagens… Foi então que me lembrei da viagem à aldeia, e foi-se- me infiltrando no coração uma inquietude; procurei com os olhos o meu pónei, mas não estava lá — logo, tinham-se esquecido de mim. Não aguentei e corri tão veloz quanto pude pelas escadas abaixo, sem pensar já nos encontros desagradáveis e no meu recente opróbrio…
Esperava-me uma notícia terrível: não havia cavalo de sela para mim, nem lugar em qualquer carruagem, estava tudo distribuído e ocupado, eu tinha de ceder o meu lugar a alguém.
Abalado com esta nova desgraça, parei na escada de entrada e fiquei a olhar com tristeza para a longa fila de coches, cabriolés, caleches, em que não sobrava o mais pequeno cantinho para mim, e para as amazonas aperaltadas em cima dos cavalos impacientes executando as suas danças.
Um dos cavaleiros, por qualquer razão, demorava a aparecer. Toda a gente estava só à espera dele para partir. À entrada estava o cavalo do retardatário, mordendo o freio e escarvando a terra com as patas, estremecendo e corcoveando a cada instante. Dois estribeiros seguravam-no pelas rédeas e toda a gente se mantinha a uma distância respeitosa do animal.
Na verdade, aconteceu um azar que me impedia de ir com os outros. Além de terem chegado muitos convidados novos a quem foram destinados os lugares e as montadas, dois cavalos de sela adoeceram: um deles era o meu pónei. De resto, não fui o único prejudicado: também não havia montada para o jovem convidado de rosto pálido (que já mencionei) que tinha acabado de chegar. Para resolver o problema, o nosso anfitrião foi obrigado a recorrer a uma medida excecional: propor ao jovem um garanhão furioso, não domado, e, para ficar de consciência limpa, avisou que era impossível montá-lo e que o cavalo até estava à venda por causa do seu caráter selvagem, no caso de encontrar comprador, é claro. O convidado acedeu, dizendo que sabia montar bem e que queria tanto ir à festa que montaria fosse o que fosse. O anfitrião calou-se, mas, agora, parece-me que na altura lhe vi um sorriso ambíguo e manhoso a aflorar-lhe os lábios. Enquanto se esperava pelo retardatário que se gabara da sua arte equestre, o nosso anfitrião não montou o seu cavalo e esfregava as mãos com impaciência; volta e meia olhava para a porta. Os dois estribeiros que seguravam o indomado e quase arfavam de orgulho, tomados decerto pela mesma sensação do amo, exibiam-se ao público ao lado de um cavalo pronto a matar alguém a qualquer momento. Qualquer coisa parecida com o sorriso do amo se refletia nos olhos dos estribeiros, esbugalhados da espera e dirigidos para a porta donde deveria sair o destemido convidado. O próprio cavalo dava o ar de quem estava em conspiração com o seu senhor e os estribeiros: orgulhoso e altivo, deliciando-se com as dúzias de olhares curiosos em cima dele e vangloriando-se da sua reputação criminosa, tal qual um estróina incorrigível que se orgulha das suas devassidões. Parecia desafiar o primeiro atrevido que ousasse atentar contra a sua independência.
Esse atrevido, finalmente, saiu. Envergonhado por ter feito esperar os outros e calçando apressadamente as luvas, desceu os degraus de entrada e só levantou os olhos quando estendeu a mão para se agarrar à crina do cavalo impaciente, mas logo o espantou o empinanço furioso do bicho e o grito uníssono de aviso que todo o público soltou. O jovem recuou e, perplexo, olhou para o selvagem que tremia todo, rouquejava de raiva, movia os olhos ensanguentados e curveteava a cada instante, como se quisesse levantar voo e levar consigo os dois estribeiros. O jovem ficou por um momento perplexo; depois, ligeiramente corado, ergueu os olhos e passou o olhar em volta pelas senhoras assustadas.
– O cavalo é excelente! — disse como que de si para si. — E, a julgar pelo que vejo, deve ser muito agradável montá-lo, mas… mas sabe? Não o vou montar — concluiu, dirigindo-se ao nosso anfitrião com um sorriso largo e ingénuo que ficava muito bem à sua cara bondosa e inteligente.
– Mesmo assim, considero-o um excelente cavaleiro, juro — respondeu o proprietário do cavalo invencível, todo contente e apertando a mão do convidado com ardor e, até, com gratidão — precisamente porque o senhor, ao primeiro olhar, percebeu logo com que fera estava a lidar — acrescentou com dignidade. — Não sei se vai acreditar, mas eu, que fui hussardo durante vinte e três anos, tive o prazer de bater com os costados no chão por três vezes, tantas quantas montei este… parasita. Tancredo, meu amigo, estas pessoas aqui não te convêm; o teu cavaleiro, pelos vistos, é algum Iliá Múromets que está agora sem se mexer na aldeia de Karatchárovo e espera que te caiam os dentes4. Muito bem, levai-o! Que não fique aqui a assustar mais as pessoas! Nem valia a pena tê-lo trazido! — concluiu, esfregando as mãos com satisfação.
É de mencionar que Tancredo não lhe dava qualquer proveito, comia o seu pão como parasita; além disso, o antigo hussardo destruíra a sua reputação de hábil comprador de cavalos por que pagara uma fortuna pelo parasita inútil, ou seja, pagou muito apenas pela beleza do animal… Mesmo assim o senhor estava contentíssimo porque o Tancredo não perdera a dignidade, desencorajando mais um cavaleiro e ganhando assim mais uns inúteis louros.
– O quê, o senhor não vai? — gritou a loira que precisava obrigatoriamente que, dessa vez, o seu cavalier servant estivesse junto dela. — Será que se acobardou?
– Francamente, sim! — respondeu o jovem.
– Está a falar a sério?
– Oiça, quer realmente que eu parta o pescoço?
– Então monte no meu, rápido! Não tenha medo, ele é manso. Fazemos a troca num instante e não atrasamos ninguém. Vou tentar montar o seu, não pode ser que o Tancredo seja sempre tão mal- educado.
Dito e feito! A doidivanas apeou-se de um salto e acabou de falar já à nossa frente.
– Conhece mal o Tancredo se acha que ele admite que lhe ponha a sua sela inútil! E eu também não permito que a senhora parta o pescoço; seria uma pena, francamente! — disse o nosso anfitrião em tom ríspido, sublinhando até a sua habitual, estudada e afetada rispidez e mesmo grosseria, o que ele achava que lhe dava o ar bonacheirão de antigo militar que deveria agradar sobremaneira às senhoras. Era uma das suas fantasias, a mania preferida que todos lhe conhecíamos.
– E tu, choramingas, não queres experimentar? Já que queres tanto ir à festa — disse a valente amazona, ao reparar em mim, e, com ar provocador, apontou com a cabeça para Tancredo; apenas o fez, na verdade, para não sair dali ingloriamente depois de se ter apeado em vão, e para não me deixar sem uma alfinetada, uma vez que tive a culpa de lhe cair debaixo de olho.
– Tu, com certeza, não és como… bom, para quê adiantar mais? És um famoso herói e envergonhas-te da cobardia; sobretudo porque estão a olhar para si, lindo pajem — acrescentou, olhando de relance para Madame M… que estava na carruagem mais próxima da entrada.
O ódio e o sentimento de vingança inundavam-me o coração quando a bela amazona se aproximara de nós com a intenção de montar o Tancredo… Mas com este desafio da doidivanas é indizível o que senti. Perdi as estribeiras quando captei o olhar que ela lançou a Madame M… Como um relâmpago, passou-me pela cabeça uma ideia… foi só um instante, menos do que um instante, uma explosão de pólvora, ou talvez transbordasse a minha taça e todo o meu espírito ressuscitado se indignasse, e tanto que tive vontade de derrubar de uma vez todos os meus inimigos e, na presença de todos, vingar-me deles por tudo o que me tinham feito e mostrar-lhes o homem que eu era realmente; ou, talvez por qualquer milagre, nesse instante alguém me tenha dado uma lição de história medieval, de que ainda não sabia nada, e na minha cabeça estonteada tivessem relanceado torneios, paladinos, heróis, belas damas, a glória dos vencedores; ouviram-se as trombetas dos arautos, o tilintar das espadas, os gritos e os aplausos da multidão, e, no meio de todos esses gritos, o grito tímido de um coração assustado que, mais do que a vitória e a glória, deleita a alma orgulhosa — não sei, francamente, se todo aquele absurdo surgiu realmente na minha cabeça ou se foi antes uma premonição daqueloutro absurdo ainda futuro e inevitável, mas o certo é que ouvi soar a minha hora. O meu coração estremeceu, deu um pulo, e já não me lembro como desci de um salto a escada e parei ao lado de Tancredo.
– Acha que tenho medo, é? — gritei ousada e orgulhosamente, desvairado, exaltado, sufocando de emoção e tão vermelho que as lágrimas me vieram aos olhos. — Vai ver! — E, agarrando-me à crina do Tancredo, meti o pé no estribo antes que tivessem tempo de me deter; no mesmo instante o Tancredo empinou-se, lançou a cabeça para trás, num puxão libertou-se das mãos dos estribeiros pasmados e voou como um furacão; as pessoas apenas gritaram.
Só Deus sabe como eu consegui lançar a outra perna sobre as costas do cavalo que corria a toda a brida; não percebo também como não perdi as rédeas. Tancredo transpôs o portão gradeado, virou bruscamente à direita e galopou ao longo da cerca, sem ver o caminho. Só nesse instante ouvi atrás de mim um grito de cinquenta vozes, e esse grito ecoou no meu coração desfalecido com tanta alegria e orgulho que nunca esquecerei aquele momento louco da minha infância. O sangue subiu-me à cabeça, fez calar o medo, afogou-o. Perdi o sentido da realidade. De facto, agora que me lembro disso, vejo nesse momento qualquer coisa de verdadeiramente cavaleiresco.
De resto, a minha façanha cavaleiresca, felizmente, acabou num instantinho, senão o cavaleiro passaria um mau bocado. Mesmo assim não sei como me salvei. Sabia montar, tinham-me ensinado. Mas o meu pónei parecia mais uma ovelha do que um cavalo de sela. É evidente que cairia do alto do Tancredo se este tivesse tido tempo de me arremessar; mas, tendo galopado uns cinquenta passos, o Tancredo assustou-se de repente com uma grande pedra que estava à beira do caminho e voltou bruscamente para trás. Virou sem parar e com tanta brusquidão que até hoje não percebi como me aguentei na sela e não voei como uma bola a três braças de distância e não parti todos os membros, e também como o Tancredo, na sua viragem, não luxou as patas. Arrepiou então caminho até ao portão, abanando a cabeça de um lado para o outro, como que ébrio de fúria, levantando as patas desordenadamente, sacudindo-me a cada pulo e fazendo-me deslizar do seu lombo, como se levasse às costas um tigre a ferrar-lhe os dentes e a cravar-lhe as garras na carne. Mais um instante e eu cairia; aliás, estava a cair, mas já vários cavaleiros corriam para me salvar. Dois deles barraram o caminho no campo; dois outros aproximaram-se tanto do Tancredo que por pouco não me esmagavam as pernas, apertando-o de ambos os lados com os flancos dos seus cavalos, segurando as rédeas do Tancredo. Segundos depois estávamos junto à entrada.
Tiraram-me de cima do cavalo, pálido, quase sem fôlego. Eu tremia como uma erva ao vento, como tremia o Tancredo, parado, de patas fincadas no chão, puxando para trás com todo o corpo, soltando gravemente a respiração fogosa das narinas vermelhas, fumegantes, como que paralisado pelo insulto e pela raiva que o atrevimento impune de uma criança lhe infligira. À minha volta ouviam-se gritos de pânico e espanto.
Nesse instante o meu olhar vago cruzou-se com o de Madame M…, preocupada, pálida e — não posso esquecê-lo — o meu rosto inundou-se de vermelho, ardeu como fogo; não sei bem o que era aquilo mas, confuso e assustado com a minha própria sensação, baixei timidamente os olhos. Mas o meu olhar fora captado, fora-me roubado. Todos os olhos se viraram para Madame M… que, apanhada desprevenida, corou por sua vez como uma criança presa de um qualquer sentimento involuntário e ingénuo e tentou disfarçar desajeitadamente, com um riso forçado…
Sem dúvida que aquilo, visto de fora, era muito cómico; um episódio inesperado e simples, porém, salvou-me dos risos do público, dando um colorido especial a toda a aventura. A culpada de toda aquela azáfama, até ao momento minha inimiga irreconciliável, a minha bela tirana, precipitou-se para mim para me abraçar e beijar. Ela nem quisera acreditar nos seus próprios olhos quando eu ousara aceitar o seu desafio e me atrevera a apanhar a luva que ela me atirara depois de ter lançado um olhar a Madame M… Por pouco não morrera de medo e de remorsos por mim quando eu voava montado no Tancredo; mas, depois de tudo ter acabado e de ela ter captado o meu olhar a Madame M…, depois de ter visto a minha confusão corada; quando atribuiu àquele instante — graças ao pendor romântico da sua cabecinha leviana — um significado novo, secreto, inexprimível; depois disso tudo, ficou tão admirada com o meu «cavaleirismo» que se atirou a mim e me apertou contra o seu peito, comovida, orgulhosa por mim e feliz. Levantou a sua carita ingénua e séria em que cintilavam duas lágrimas cristalinas, passou o olhar a toda a volta, e disse numa voz séria e solene, que ninguém ainda lhe ouvira, apontando para mim: «Mais c’est très sérieux, messieurs, ne riez pas!»5, sem reparar que todos à sua roda estavam encantados e admirados com o puro enlevo dela. Todo aquele seu impulso rápido e espontâneo, aquela carita séria, aquela ingenuidade, aquelas lágrimas cordiais e até então inacreditáveis que lhe marejavam os olhos sempre risonhos, tudo isso era tão inesperado nela que as pessoas ficaram especadas, como que hipnotizadas com o seu olhar e a sua palavra, o seu gesto apressado e fogoso. Era como se ninguém conseguisse desviar os olhos com medo de perder aquele momento raro no seu rosto inspirado. O próprio anfitrião corou como uma papoila, e viriam a afirmar que o ouviram depois confessar que ele, «para sua vergonha», esteve apaixonado quase um minuto pela sua bela convidada. É evidente que, depois disso tudo, eu passei a cavaleiro e herói.
– Delorges! Toggenburg6! — soavam as vozes.
Ouviram-se aplausos.
– Bravo, nova geração! — acrescentou o nosso anfitrião.
– Ele tem de ir, tem de ir connosco sem falta! — gritou a beldade. — Nós arranjamos, temos de arranjar lugar para ele. Senta-se ao meu lado, ao meu colo… não, isso não, foi um lapso!…
– emendou ela, a rir-se, incapaz de conter o riso ao recordar o nosso primeiro encontro. Sempre a rir-se, afagava a minha mão, acariciando-me para que eu não me ofendesse.
– Tem de ir! Sem falta! — apoiaram-na várias vozes. — Tem de ir, conquistou o seu lugar.
E tudo se resolveu num instantinho. Aquela mesma solteirona com quem eu travara conhecimento juntamente com a loira foi logo assediada por todos os jovens que lhe pediam para ficar em casa e me ceder o lugar; e foi obrigada a cedê-lo, para seu grande desgosto, sorrindo e, ao mesmo tempo, resmungando para si mesma de raiva. A sua protetora, minha ex-inimiga e recente amiga, a quem a solteirona se agarrava sempre, já galopava no seu cavalo ágil, rindo como uma criança, e gritava que tinha inveja dela, que se pudesse era ela própria quem ficaria em casa com prazer porque ia cair uma chuvada de todo o tamanho que ameaçava encharcar toda a gente.
Foi como se as suas palavras provocassem a chuva. Uma hora depois desabou o aguaceiro, o nosso passeio foi um fiasco. Fomos obrigados a esperar várias horas, recolhidos nas isbás dos camponeses, e voltámos a casa já depois das nove horas, por um tempo húmido, desagradável. Quanto a mim, comecei a sentir-me ligeiramente febril. No momento de entrarmos nas carruagens e partirmos, Madame M… aproximou-se de mim e surpreendeu-se por eu ter apenas um casaquinho leve vestido e o pescoço aberto. Disse-lhe que não tivera tempo de pegar na minha capa. Ela pregou-me um alfinete no colarinho da camisa, tirou do seu pescoço um lenço de gaza vermelha e atou-me ao pescoço, para que eu não resfriasse a garganta. Estava tão apressada, Madame M…, que nem tive tempo de lhe agradecer.
Quando chegámos a casa fui encontrá-la na sala de estar pequena na companhia da loira e do jovem de cara pálida que naquele dia ganhara a fama de bom cavaleiro por ter medo de montar o Tancredo. Aproximei-me dela para lhe agradecer e lhe devolver o lenço. Mas, findas todas aquelas aventuras, eu sentia de novo como que vergonha de qualquer coisa; o que eu queria era sair dali o mais depressa possível e ir para cima, para a paz e sossego do meu quarto, refletir em tudo. Abarrotava de sensações. Ao entregar o lenço, como era de prever, corei.
– Posso apostar que lhe apetecia ficar com este lenço — disse o jovem, rindo-se —, vê-se-lhe nos olhos que está com pena de se despedir deste lenço.
– Exatamente, nem mais! — apoiou-o a loira. — Apre! Ah!… — já começava ela com visível desgosto e abanando a cabeça; mas parou a tempo, ao reparar no olhar sério de Madame M… que não queria levar a brincadeira muito longe.
Afastei-me apressadamente.
– Irra, como tu és! — disse-me a brincalhona ao apanhar-me noutra sala e pegando-me amigavelmente nas mãos. — Se querias ficar com o lenço, podias simplesmente não lho devolver. Dizias que te esqueceste dele em qualquer lado, e estava o assunto resolvido. Apre, como tu és! Nem isso soubeste fazer! És tão cómico!
E deu-me com o dedo uma pancadinha leve no queixo; e, como eu fiquei vermelho como um lagostim, riu-se.
– Agora sou uma amiga tua, não sou? Acabou a nossa inimizade? Sim ou não?
Ri-me e apertei-lhe em silêncio os dedinhos.
– Ainda bem, então!… Por que estás tão pálido e a tremer? Tens arrepios de frio?
– Não me sinto bem.
– Ah, coitado! É das impressões fortes! Sabes o que é melhor para ti? Vai dormir, não esperes pelo jantar, isso até amanhã passa- te. Vamos.
Levou-me para cima, parecia que os seus cuidados não teriam fim. Deixou-me sozinho para eu me despir, correu para baixo, ela própria me trouxe chá, já eu estava deitado. E também um cobertor quente. Aqueles cuidados espantaram-me e comoveram-me, ou talvez fosse essa a minha predisposição depois da viagem, do dia de emoções, e também porque tinha febre; quando me despedi dela, abracei-a com força e calor, como à minha melhor amiga, e então todas as emoções me afluíram de chofre ao coração amolecido. Quase chorava quando me apertei contra o peito dela. Pois, e parece que a minha doidivanas também ficou comovida.
– És muito bondoso — sussurrou ela, pousando em mim os seus olhos serenos. — Por favor, não fiques zangado comigo, está bem? Não te vais zangar comigo?
Em resumo, tornámo-nos os mais ternos e fiéis amigos.
Era bastante cedo quando acordei, mas a luz forte do sol já inundava o quarto. Saltei da cama, perfeitamente curado e cheio de ânimo, como se não tivesse tido febre na véspera. Era indizível a minha alegria. Lembrei-me do dia anterior e senti que trocaria a felicidade de toda a minha vida se pudesse voltar a abraçar naquele momento a minha nova amiga, a nossa beldade loira; mas ainda era cedo, toda a gente dormia. Vesti-me à pressa, desci para o jardim e, de lá, fui para o pequeno bosque. Ia por onde a mata era mais espessa, onde o odor resinoso das árvores era mais forte, onde os raios de sol penetravam com maior alegria, contente por conseguir atravessar aqui e ali a espessura brumosa da folhagem. Era uma manhã maravilhosa.
A pouco e pouco fui-me embrenhando cada vez mais longe, até que, finalmente, saí no outro extremo do bosque, na margem do rio Moskvá. Corria a uns duzentos passos de onde estava, no sopé da colina. Na margem oposta estavam a segar o feno. Fiquei a olhar demoradamente para as filas de gadanhas aguçadas que se inundavam todas de reflexos luminosos a cada movimento do segador, voltando logo a desaparecer, como pequenas cobras de fogo a esconderem-se; via o feno cortado rente a amontoar-se na terra em montículos espessos e frescos, a saltar para os lados e a dispor-se em filas nos regos compridos e direitos. Não me lembro de quanto tempo passei naquela contemplação até que, de repente, caí em mim ao ouvir barulho de cascos impacientes e do resfolegar de cavalo na mata, a uns vinte passos de mim, num caminho formado pelo desbaste de árvores, perto da estrada que seguia até à casa senhorial. Não sei se ouvi o cavalo logo após ter chegado com o seu cavaleiro, ou se o barulho já aflorava havia muito o meu ouvido que não queria dar-lhe atenção para não me distrair da minha contemplação sonhadora. Cheio de curiosidade, entrei no bosque e, depois de alguns passos, comecei a ouvir vozes, rápidas e baixas. Aproximei-me mais um pouco, arredei com cuidado os últimos ramos dos últimos arbustos que ladeavam uma clareira e, logo a seguir, recuei com espanto: relanceara-me nos olhos o vestido branco que eu conhecia tão bem, e, como uma música, ecoou no meu coração uma voz feminina, baixinha. Era Madame M… Estava ao lado de um cavaleiro que, sem se apear, falava apressadamente com ela; para meu pasmo, reconheci N…, o jovem senhor cuja despedida, já na manhã do dia anterior, tanto tinha mexido com Monsieur M… Tinha-se mesmo dito, na véspera, que o senhor N… partia para muito longe, para o Sul da Rússia; foi por isso que me surpreendeu tanto vê-lo de novo, e a sós com Madame M…
Ela estava numa emoção e numa veemência como nunca a vira, com as lágrimas a brilharem-lhe nas faces. O jovem pegava-lhe na mão e, inclinando-se, beijava-lha. Apanhei já o momento da despedida. Pareciam ter pressa. Por fim, ele tirou do bolso um envelope lacrado, entregou-o a Madame M…, abraçou-a com um braço, sem se apear, e beijou-a longamente. Logo a seguir chicoteou o cavalo e meteu-se a galope, passando mesmo a meu lado, rápido como uma flecha. Madame M… seguiu-o com os olhos durante uns segundos e, depois, triste e pensativa, dirigiu-se para casa. Deu uns passos pelo estradão mas, como se caísse em si, afastou rapidamente os ramos dos arbustos e foi pelo meio do bosque.
Eu fui atrás dela, perturbado e espantado com o que vira. O meu coração batia com força, como se tivesse apanhado um susto. Caminhava hirto, com a cabeça turvada, confuso, distraído; do que mais me lembro era da tristeza que, sem saber porquê, me acometera. De vez em quando via através da folhagem o seu vestido branco. Seguia atrás dela maquinalmente, sem a perder de vista, mas com cuidado para que ela não me visse. Por fim, saiu para a vereda que ia dar ao jardim. Esperei meio minuto e saí também; mas qual não foi o meu espanto quando vi caído na areia vermelha da vereda o envelope lacrado que reconheci de imediato: era o que tinha sido entregue a Madame M… dez minutos atrás.
Levantei-o do chão: era um sobrescrito branco sem nada escrito; era pequeno mas cheio e pesado, como se tivesse dentro três ou mais folhas de papel de carta.
O que significava aquele envelope? Era nele que residia, com certeza, a explicação de todo o mistério. Talvez dentro dele estivesse a explicação do que N… não tivera tempo de dizer durante o curto e apressado encontro entre os dois. Nem sequer se apeara… Tinha pressa, ou então tinha medo de mudar de ideias na hora da despedida… sabe-se lá…
Sem entrar na vereda, atirei com o envelope para um lugar mais aberto, não tirando os olhos dele à espera que Madame M… desse pela sua falta e voltasse para o recuperar. Esperei cerca de quatro minutos e, como ela não voltasse, não me contive, voltei a apanhar o envelope e corri atrás de Madame M… Apanhei-a já no jardim, na alameda grande; ela ia para casa em passo rápido, mas pensativa, de olhos postos no chão. Eu estava indeciso. Aproximo-me, devolvo-lhe o envelope? Isso significava confessar que sabia tudo, que tinha visto tudo. Logo que eu abrisse a boca ficaria desmascarado. E como poderia depois olhar para ela? E ela para mim?… Eu continuava a esperar que ela desse pela falta do envelope e voltasse atrás pelo mesmo caminho. Então poderia atirar o envelope para a vereda sem ser visto e ela encontrá-lo-ia. Mas não! Já estávamos perto de casa; as pessoas já a tinham visto…
Nem de propósito, nessa manhã quase toda a gente se levantara muito cedo, já que na véspera, como o passeio falhasse, tinha sido logo planeado outro, de que eu ainda não sabia. Estavam pois todos à espera do passeio, tomando o pequeno-almoço no terraço. Esperei dez minutos, para não aparecer na companhia de Madame M… e, dando uma volta pelo jardim, saí do outro lado da casa e entrei mais tarde do que ela. Madame M… andava de um lado para o outro pelo terraço, pálida e preocupada, com os braços cruzados sobre o peito e — via-se bem — esforçando-se por reprimir uma qualquer angústia torturante, insuportável, que se lhe refletia nitidamente nos olhos, no andar, nos gestos. Por vezes descia a escada e dava uns passos por entre os canteiros, na direção do jardim. Os seus olhos procuravam qualquer coisa com uma impaciência ávida e imprudente na areia das veredas e no chão do terraço. Não havia dúvida: dera pela falta e pensava que deixara cair o envelope algures por ali, perto de casa — sim, era de certeza o que ela pensava!
Uma agora, outra depois, as pessoas foram-se apercebendo da sua palidez e inquietação. Choveram as perguntas sobre a sua saúde, as irritantes expressões de compaixão; ela tinha de responder em tom de brincadeira, rir-se, parecer animada. De vez em quando olhava para o marido que estava de pé no extremo do terraço, conversando com duas senhoras, e então tomaram conta da pobre coitada o mesmo tremor e a mesma confusão que eu vira na primeira noite em que o marido chegara. Metendo a mão no bolso e segurando com força o envelope que lá estava, afastado dos outros, eu suplicava ao destino que fizesse com que Madame M… me prestasse atenção. Queria animá-la, acalmá-la, nem que fosse com o olhar; dizer-lhe alguma coisa sorrateiramente. Mas quando ela olhou para mim por acaso, estremeci e baixei os olhos.
Via que ela passava por um tormento e não me enganava. Até hoje não conheço de que segredo se tratava, não sei nada além do que vi com os meus próprios olhos e acabei agora de contar. Talvez aquela relação não fosse nada do que se afigurava à primeira vista.
Talvez aquele beijo fosse um beijo de despedida, talvez a única e fraca recompensa que recebeu pelo seu sacrifício feito em prol do sossego e da honra dela. N… ia-se embora, para sempre, talvez nunca mais a visse. Por fim, a carta que eu tinha nas mãos… quem sabe o que ela continha? Quem somos nós para julgar, quem poderia acusá-la? Sem dúvida, porém, que a revelação do segredo seria um golpe assestado na vida dela, um terror. Lembro-me do seu rosto naquele momento: era impossível um sofrimento maior. Sentir, saber, ter a certeza, esperar como quem espera a execução que dentro de um quarto de hora, de um minuto, tudo seria descoberto, o envelope seria encontrado por alguém, apanhado do chão; não tinha destinatário, poderia ser logo aberto, e então… o que aconteceria? Que castigo poderia ser mais pavoroso do que aquele que a esperava? Ela circulava no meio dos seus futuros juízes. Dali a um minuto, aquelas caras sorridentes e bajuladoras seriam severas e implacáveis. Iria ver o gozo, a raiva e o desprezo gélido naqueles rostos, e depois seria a noite, sem vislumbres de futuro na sua vida… Bom, naquela altura eu não compreendia tudo aquilo da forma como o penso agora. Era capaz apenas de pressentir, de adivinhar e de sofrer do fundo do coração por um perigo de que nem sequer tinha plena consciência. Porém, fosse qual fosse o segredo dela, com aqueles momentos de tristeza de que eu fui testemunha muita coisa terá sido redimida, se, é claro, havia alguma coisa para redimir.
Mas, eis que se ouve o alegre clamor da partida; todos se animaram, se azafamaram; por todos os cantos conversas e risos. Dois minutos depois o terraço estava vazio. Madame M… recusou- se a ir, confessando finalmente que estava adoentada. Todos partiram enfim, graças a Deus; toda a gente estava com tanta pressa que não houve tempo para a incomodarem com condolências, perguntas, conselhos. Poucos ficaram em casa. O marido, à partida, disse-lhe algumas palavras; ela respondeu-lhe que não se preocupasse, que ficaria boa ainda no próprio dia, que nem precisava de se deitar, que ia dar uma volta pelo jardim, sozinha… comigo… Então olhou para mim. Não podia haver sorte maior! Corei de alegria. Um minuto depois já estávamos a passear.
Ela percorreu em sentido contrário as mesmas alamedas, veredas e sendas que tomara quando voltara do bosque para casa, e, recordando instintivamente o seu caminho, olhando fixamente em frente, sem tirar os olhos do chão, procurava, procurava, sem falar comigo, talvez esquecida de que eu a acompanhava.
Quando chegámos ao sítio onde eu apanhara a carta (no fim da vereda), Madame M…, de repente, parou e, com uma voz fraca, esmorecida de angústia, disse que se sentia pior e que queria voltar para casa. Porém, quando chegámos ao gradeamento do jardim, voltou a parar e pôs-se a refletir durante um minuto; um sorriso de desespero surgiu-lhe nos lábios e, fraca, extenuada, pronta para tudo e resignada com tudo, voltou em silêncio pelo mesmo caminho, esquecendo-se dessa vez de me avisar…
Eu estava meio morto de tristeza e não sabia o que fazer.
Fomos, ou melhor, levei-a ao lugar donde eu ouvira uma hora atrás o barulho do cavalo e a conversa entre eles. Perto, junto de um ulmeiro frondoso, havia um banco talhado numa rocha enorme, à volta do qual serpenteava a hera e crescia o jasmim dos campos e a roseira brava. (Todo aquele bosque estava cheio de pontezinhas, pavilhões, grutas e outras surpresas semelhantes.) Madame M… sentou-se no banco, olhando sem ver para a divina paisagem à nossa frente. Um momento depois abriu o livro e cravou nele o olhar, sem o folhear, sem o ler, quase sem consciência do que estava a fazer. Já eram nove e meia. O sol ia mais alto e navegava luxuosamente por cima das nossas cabeças pelo céu azul, profundo, e parecia fundir-se no seu próprio fogo. Os segadores, longe, já trabalhavam: era quase impossível enxergá-los da nossa margem. Atrás deles, as filas de feno tombado estendiam-se interminavelmente e, de vez em quando, a brisa preguiçosa trazia até nós os vapores aromáticos da erva segada. A toda a roda tocava a orquestra incansável daqueles que «não semeiam nem ceifam» mas são livres como o ar que cortam com as suas asas ágeis. Parecia naquele momento que cada flor, cada ervinha, fumegando aromas sacrificiais, dizia ao seu Criador: «Pai! Sou beatífica e feliz!…»
Olhei para a pobre mulher que, no meio daquela vida alegre, era a única que parecia morta: das suas pestanas pendiam, imóveis, duas lágrimas grandes, espremidas do coração com uma dor aguda. Estava em meu poder reanimar e dar felicidade àquele pobre coração esmorecido, e apenas não sabia como abordar o problema, como dar o primeiro passo. Eu sofria. Cem vezes estive prestes a aproximar-me dela, e de cada vez um qualquer sentimento impeditivo me paralisava, e de cada vez o meu rosto ardia como fogo.
De repente, acendeu-se uma ideia na minha cabeça. Encontrara o meio, como que ressuscitava.
– Quer que lhe arranje um ramo de flores? — disse eu num tom de voz tão feliz que Madame M… levantou de repente a cabeça e olhou para mim com atenção.
– Está bem — disse por fim, numa voz fraca, sorrindo ao de leve; logo depois voltou a baixar a cabeça para o livro.
– Senão, daqui a pouco vêm também segar para aqui e deixa de haver flores! — gritei, partindo alegremente para a minha expedição. Colhi rapidamente flores para fazer um ramo, simples e pobre.
Teria vergonha de o levar para o quarto; mas como era alegre o bater do meu coração quando o fazia e atava! Ao pé do banco, parti alguns ramos de jasmim e de roseira brava. Sabia que havia perto um campo de centeio quase maduro. Corri lá para arranjar centáureas azuis. Misturei-as com espigas compridas de centeio, tendo escolhido as mais compridas e grossas. Também encontrei por lá perto um lugarzinho cheio de orelhas-de-rato, e o meu ramo começou a ganhar forma. Mais longe, no prado, encontrei campânulas azuis e cravos do campo, e, para arranjar nenúfares amarelos, fui ao rio. Por fim, quando já estava de volta e entrei por um momento no bosque para arrancar umas folhas palmiformes e verdes-vivas de ácer, para com elas compor o meu ramo, descobri por acaso uma família inteira de amores-perfeitos, salpicados de orvalho brilhante e escondidos na erva espessa e vicejante, que me foram felizmente denunciados pela fragrância. O ramo estava pronto. Atei-o com um entrançado de ervas finas e compridas, e, com cuidado, meti a carta dentro do ramo, cobrindo-a com flores mas de modo a que fosse fácil descobri-la à mínima atenção que dessem ao meu ramo.
Levei-o a Madame M…
Pelo caminho, pareceu-me que a carta estava demasiado à vista; cobri-a mais. Quando estava mais perto, enfiei-a dentro das flores e, quando estava quase a chegar, empurrei-a para tão fundo que já não se via nada. Ardia uma fogueira nas minhas bochechas. Apetecia-me tapar a cara com as mãos e fugir, mas Madame M… olhou para as minhas flores como se já se tivesse esquecido de que eu tinha ido colhê-las. Maquinalmente, quase sem olhar, estendeu a mão e pegou na minha prenda, mas logo a pousou em cima do banco, como se tivesse sido para isso que lhe fora oferecida, e voltou a baixar os olhos para o livro. Parecia amodorrada. Aquele falhanço dava-me vontade de chorar. «Ao menos o ramo fica ao lado dela — pensava eu —, mas queira Deus que ela não se esqueça dele!» Deitei-me na erva perto dela, meti o braço direito debaixo da cabeça e fechei os olhos, fingindo-me cheio de sono. Entretanto, não tirava os olhos dela e esperava…
Assim se passaram uns dez minutos; parecia-me que ela ficava cada vez mais pálida… De repente, o bendito acaso veio dar-me uma ajuda.
Era uma grande abelha dourada que o bom vento trouxera para minha felicidade. A abelha primeiro zuniu à volta da minha cabeça, depois foi ter com Madame M… Esta enxotou-a com a mão uma vez, outra vez, mas não levava a melhor à impertinência da abelha. Por fim, Madame M… pegou no meu ramo e abanou-o à sua frente. O envelope voou do meio das flores e caiu diretamente no livro aberto. Estremeci. Durante algum tempo Madame M… ficou a olhar, muda de pasmo, ora para a carta, ora para o ramo que tinha nas mãos, e parecia não acreditar nos seus próprios olhos… De repente fez-se vermelha como o fogo e olhou para mim. Fechei logo os olhos, como se estivesse a dormir; por nada deste mundo a olharia agora nos olhos. O meu coração batia e esmorecia como um passarinho caído nas mãos de um garoto do campo. Não me lembro de quanto tempo fiquei deitado com os olhos fechados: dois, três minutos. Por fim, ousei abri-los. Madame M… lia avidamente a carta e, pelas suas faces ardentes, pelo seu olhar húmido e brilhante, pelo seu rosto desanuviado e tremente de alegria, percebi que aquela carta lhe trouxera a felicidade e que toda a sua amargura se dispersara como fumo. Um sentimento ao mesmo tempo delicioso e martirizado apegou-se ao meu coração, já me era difícil fingir…
Nunca me esquecerei daquele momento!
De repente, ainda longe de nós, ouviram-se vozes:
– Madame M…! Nathalie! Nathalie!
Madame M… não respondeu, mas levantou-se muito depressa do banco, aproximou-se e inclinou-se por cima de mim. Eu sentia o olhar dela na minha cara. Tremeram-me as pestanas, mas aguentei e não abri os olhos. Tentava fazer uma respiração regular e tranquila, mas o meu coração, com as suas palpitações desordenadas, estrangulava-me. A respiração quente de Madame M… queimava-me as faces; inclinou-se muito perto, como se estivesse a estudar a minha cara. Por fim, caíram lágrimas e um beijo na minha mão, a mão que eu tinha sobre o peito. Ela beijou-a duas vezes.
– Nathalie, Nathalie, onde estás? — ouviu-se muito perto de nós.
– Já vou! — disse Madame M… com a sua voz profunda, argentina mas abafada e trémula de lágrimas, e tão baixinho que só eu pude ouvi-la. — Já vou!
Neste momento o coração traiu-me, finalmente, e pareceu mandar todo o seu sangue para a minha cara. No mesmo instante, um beijo rápido e quente queimou-me os lábios. Soltei um gritinho, abri os olhos, mas nisto caiu sobre eles o lenço vermelho de gaza: como se ela quisesse proteger-me do sol. Um momento depois, ela desapareceu. Ouvi apenas o restolhar dos seus passos a afastarem-se muito depressa. Estava sozinho.
Tirei o lenço de cima da cara e beijei-o, aturdido de felicidade; durante alguns minutos portei-me como um louco!… Incapaz de recuperar o fôlego, apoiando-me com os cotovelos no chão de erva, olhava com fixidez para a minha frente, sem consciência de nada, olhava para as colinas cobertas de campos multicores, para o rio que serpenteava contornando-as e, ao longe, até onde alcançava a vista, para onde o rio corria no meio de novas colinas e aldeias que, manchas pequenas, mal se distinguiam no horizonte completamente inundado de luz; e olhava para as florestas azuis, quase indistintas, que pareciam fumegar no extremo do céu incandescido… e uma calma deliciosa, como que trazida pelo sopro do silêncio solene da paisagem, venceu a pouco e pouco o meu coração perturbado. Senti-me aliviado, já respirava livremente… Mas, surda e deliciosamente, toda a minha alma enlanguescia, como se tivesse a percepção de alguma coisa nova, como se tivesse um pressentimento. O meu coração assustado adivinhava, tímida e alegremente, palpitando de espera, qualquer coisa desconhecida… De repente o meu peito tremeu, doeu como se apunhalado, e lágrimas doces jorraram-me dos olhos. Tapei a cara com as mãos e, trémulo como uma erva, entreguei-me todo à revelação da minha consciência, à descoberta do meu coração, à primeira e ainda vaga percepção da minha natureza… Acabava naquele momento a minha primeira infância…
Quando, duas horas depois, voltei para casa, já lá não encontrei Madame M…; partira com o marido para Moscovo, por qualquer razão inesperada. Nunca mais a vi.