Ele era um homem quieto, vestido em roupas escuras, com um grande e amolecido chapéu de palha; com algo quase militar em seus bigodes e suíças, mas uma curvatura de ombros nada militar e olhos muito sonhadores. Olhava com um interesse assaz melancólico para o agrupamento, dir-se-ia quase o novelo, de pequenas embarcações, que se tornava mais intenso à medida que nosso barco de passeio entrava no porto em Yarmouth. Um barco que entre nesse porto, como todos sabem, não o faz de frente para a cidade como um estrangeiro, mas chega sorrateiramente por trás como um traidor tomando a cidade pela retaguarda. A passagem do rio parece quase pequena demais para o tráfego, e em conseqüência as embarcações maiores parecem colossais. Ao passarmos por trás de um navio de madeira da Noruega, que parecia obstruir os céus como uma catedral, o homem com chapéu de palha apontou para uma estranha figura de proa de madeira esculpida como uma mulher e disse, como se continuasse uma conversa: “Agora, por que será que deixaram de usá-las? Elas não faziam mal a ninguém.”
Retruquei com certa leviandade que a esposa do capitão ficava enciumada; mas sabia no fundo do coração que o homem havia tocado um ponto fundamental. Há algo em nossa mais recente civilização que é misteriosamente hostil a tais símbolos tão saudáveis e humanos.
“Eles odeiam qualquer coisa que seja humana e bela, como aquela”, prosseguiu, ecoando exatamente meus pensamentos. “Acredito que tenham quebrado todas as velhas e alegres figuras de proa com machadinhas e que tenham se divertido com isso.”
“Como o sr. Quilp”, respondi, “quando quebrou o Almirante de madeira com o atiçador.”
Sua face subitamente se encheu de vida, e pela primeira vez ele se ergueu e me encarou.
“Você está vindo para Yarmouth por isso?”, perguntou-me.
“Por quê?”
“Por Dickens”, respondeu ele, e batucou com os pés no convés.
“Não,” respondi; “Venho por diversão, embora na prática seja a mesma coisa”.
“Eu venho sempre,” disse-me quietamente, “para encontrar o barco de Peggotty. Não está aqui.”
E quando ele o disse, compreendi-o perfeitamente.
Há duas Yarmouths; ouso afirmar que há duzentas para as pessoas que vivem lá. Eu mesmo nunca cheguei ao fim da lista de Batterseas. Mas para o estrangeiro e o turista há duas: a parte pobre, que é cheia de dignidade, e a parte próspera, que é selvagemente vulgar. Meu novo amigo costumava aparecer na primeira como um fantasma; à última ele aludia apenas a distância.
“O lugar está bastante estragado agora… turistas, sabe,” dizia-me, sem qualquer escárnio, simplesmente com tristeza. Era o mais perto que chegava de um reconhecimento do monstruoso balneário que ficava em frente, ofuscando o sol e mais ensurdecedor que o mar. Mas por trás – fora do alcance dessa barulheira – há becos tão estreitos que parecem entradas secretas a um recôndito lugar de repouso. Há praças tão repletas de silêncio que adentrá-las é como mergulhar em uma piscina. Nesses lugares, o homem e eu passeamos para cima e para baixo falando sobre Dickens, ou melhor, fazendo o que todos os verdadeiros apreciadores de Dickens fazem: citar literalmente um para o outro longas passagens que ambos já conhecíamos bastante bem. Estávamos realmente na atmosfera da velha Inglaterra. Passavam por nós pescadores que poderiam muito bem ter sido personagens como Peggotty ; entramos numa embolorada loja de curiosidades e compramos limpadores de cachimbo esculpidos com imagens de Pickwick. A tarde estava terminando entre os edifícios com aquele dourado lento que parece embeber todas as coisas quando entramos na igreja.
Na crescente escuridão da igreja, meus olhos caíram sobre os vitrais coloridos, que na clareza daquela tarde dourada estavam inflamados com toda a heráldica apaixonada da mais feroz e extática arte cristã. Por fim disse a meu companheiro:
“Você está vendo aquele anjo ali? Acho que representa o anjo do sepulcro.”
Ele percebeu que eu estava singularmente impressionado por algum motivo e ergueu as sobrancelhas.
“Suponho que sim,” disse-me. “O que há de estranho nisso?”
Após uma pausa, eu disse: “Você se lembra do que o anjo do sepulcro disse?” “Não exatamente,” respondeu; “mas aonde vai você com tanta pressa?”
Abandonei-o e atravessei rapidamente a praça silenciosa e fui além dos albergues de pescadores, em direção à costa, enquanto ele continuava a perguntar-me com indignação aonde ia.
“Eu vou”, disse-lhe, “pôr moedas em máquinas automáticas na praia. Vou escutar os negros. Vou tirar minha fotografia. Vou beber j injibirra direto da garrafa. Vou comprar cartões postais. Quero um barco. Estou preparado para ouvir uma sanfona, e não fosse pelos defeitos em minha educação deveria estar preparado para tocá-la. Quero montar num burro; isto é, se o burro quiser. Estou disposto a ser um burro, pois tudo isso me foi ordenado pelo anjo no vitral.”
“Eu realmente acho,” disse o dickensiano, “que é melhor colocá-lo sob os cuidados de seus parentes.”
“Senhor,” respondi, “há certos escritores a quem a humanidade deve muito, mas cujo talento é ainda assim de um tipo tão tímido ou delicado ou retrospectivo que fazemos bem em ligá-los a certos lugares fantásticos ou certas associações decadentes. Não seria anormal procurar pelo espírito de Horace Walpole em Strawberry Hill, ou mesmo pela sombra de Thackeray em Old Kensington. Mas não sejamos antiquados com relação a Dickens, pois Dickens não é uma antiguidade. Dickens não olha para trás, mas para a frente; ele olharia para nossas multidões modernas com sátira ou com fúria, mas adoraria olhá-las. Poderia açoitar nossa democracia, mas isso porque, por ser um democrata, exigiria muito dela. Não encontraremos todos os seus livros agrupados sob o título “A Loja de Antiguidades”. Antes, estarão agrupados sob o título “Grandes Esperanças”. Onde houvesse humanidade, far-nos-ia encará-la e dar-lhe seu valor, engoli-la com um canibalismo sagrado e assimilá-la com a digestão de um gigante. Devemos encarar esses turistas como ele o faria, e arrancar-lhes sua tragédia e sua farsa. Lembra-se agora do que o anjo disse no sepulcro? ‘Por que buscais entre os mortos aquele que vive? Não está aqui: ressuscitou.’”
Com isso saímos subitamente para a larga faixa de areia, que estava negra com a aglomeração de nossa risonha e tão desesperada democracia. E o pôr-do-sol, que agora estava em sua glória final, jogou sobre todos eles um resplendor e brilho rubros como a gigantesca lareira de Dickens. Naquela estranha luz cada figura parecia ao mesmo tempo grotesca e atraente, como se tivesse uma história para contar. Ouvi uma menininha (que estava sendo sufocada por outra) dizer como vingança: “Minha cunhada tem quatro anéis além da aliança!”
Parei e esperei para ouvir mais, mas meu amigo foi embora.