O Barbeiro ortodoxo – G. K. Chesterton

Aqueles pensadores que não acreditam em nenhum deus freqüentemente afirmam que o amor pela humanidade ser-lhes-ia suficiente em si mesmo; e talvez fosse assim, se o tivessem. Há uma coisa muito real que pode chamar-se o amor pela humanidade: em nosso tempo, existe quase inteiramente entre os que são chamados de pessoas ignorantes, e não existe de forma alguma entre as pessoas que falam sobre ele.

Um prazer positivo em estar na presença de outros seres humanos é particularmente notável, por exemplo, nas massas em um feriado nacional; é por isso que estão tão mais perto do Céu (apesar das aparências) do que qualquer outra parcela da nossa população.

Lembro-me de ver um grupo de funcionárias de fábrica entrar em um trem vazio em uma estação de beira de estrada no interior. Havia cerca de vinte delas: entraram todas em um único vagão, e deixaram o restante do trem completamente vazio. Eis o verdadeiro amor pela humanidade. Eis o definitivo prazer pela proximidade imediata de um semelhante. Só que este rude, malcheiroso, verdadeiro amor pelos homens parece estar inteiramente ausente naqueles que propõem o amor pela humanidade como substituto para todos os outros amores: racionalistas e honrados idealistas.

Lembro-me bem da explosão de alegria humana que marcou a súbita partida daquele trem; todas as moças que não conseguiram sentar-se (e deviam ser a maioria) aliviavam seus sentimentos pulando para cima e para baixo. Ora, nunca vi nenhum idealista racionalista fazer isso. Nunca vi vinte filósofos modernos amontoarem-se em um vagão de terceira classe simplesmente pelo prazer de estarem juntos. Nunca vi vinte Mr. McCabes juntos em um vagão e pulando para cima e para baixo.

Algumas pessoas expressam o medo de que turistas vulgares irão devastar todos os lugares bonitos, como Hampstead ou Burnham Beeches. Mas seu medo é infundado, pois os turistas sempre preferem viajar juntos; aglomeram-se tanto quanto podem: têm uma sufocante paixão pela filantropia.

Mas dentre os aspectos menores e mais suaves do mesmo princípio não hesitarei em apresentar o problema do barbeiro coloquial. Antes de que qualquer homem moderno fale com autoridade sobre o amor pelos homens, insisto (insisto com violência) que deve sempre apreciar quando seu barbeiro tenta conversar. Seu barbeiro é a humanidade: que a ame. Se não o apreciar, não aceitarei qualquer substituto como um interesse pelo Congo ou pelo futuro do Japão. Se um homem não ama seu barbeiro a quem vê, como amará o japonês a quem não vê?

Alega-se contra o barbeiro que ele começa falando sobre o tempo; da mesma forma fazem todos os duques e diplomatas, com a diferença que falam sobre o tempo com ostensiva fadiga e indiferença, ao passo que o barbeiro o faz com um impressionante, ou melhor, incrível interesse. Argumenta-se que ele diz às pessoas que estão ficando calvas. Isto é, suas próprias virtudes são lançadas contra ele: é acusado porque, como especialista, é um especialista sincero, e porque, sendo um comerciante, não é um completo escravo. Mas a única prova de tais coisas é pelo exemplo; assim, provarei a excelência da conversação dos barbeiros com um caso específico. Antes que alguém me acuse de tentar prová- lo por meios fictícios, afirmo com toda a seriedade que, embora tenha me esquecido da linguagem exata empregada, a seguinte conversa que tive com um verdadeiro barbeiro da raça humana (creio eu) realmente ocorreu há alguns dias.

Eu fora convidado a uma recepção para conhecer os Ministros das Colônias e, para evitar que fosse confundido com um bandoleiro parcialmente reabilitado do interior da Austrália, entrei em uma barbearia na Strand para fazer a barba. Enquanto me submetia à tortura, o homem me disse:

“Parece haver um bocado nos jornais sobre essa nova maneira de fazer a barba. Parece que é possível barbear-se com qualquer coisa – com um graveto ou uma pedra ou uma estaca ou um atiçador” (aqui comecei pela primeira vez a detectar uma entonação sarcástica), “ou uma pá ou um…”

Aqui ele hesitou em busca de uma palavra, e eu, embora nada soubesse do assunto, ajudei-o com sugestões na mesma linha retórica.

“Ou um gancho para abotoar,” falei, “ou um bacamarte ou um aríete ou uma biela…”

Ele continuou, reanimado com essa ajuda: “Ou um varão ou um candelabro, ou um…”

“Limpa-trilhos”, sugeri avidamente, e continuamos nesse dueto extasiado por algum tempo. Então perguntei-lhe o que significava aquilo, e ele me contou.

Explicou tudo longa e eloquentemente.

“O engraçado”, disse, “é que não é uma coisa nem um pouco nova. Já se falava disso desde que eu era menino, e bem antes. Sempre houve uma noção de que a navalha poderia ser substituída de alguma forma. Mas nenhuma dessas propostas nunca deu em nada; e eu por mim não acredito que essa agora dê.”

“Bom, quanto a isso”, eu disse, levantando-me lentamente da cadeira e tentando vestir meu casaco do avesso, “não sei como será no seu caso e no dessa nova forma de barbear. Fazer a barba, com todo o respeito, é algo materialista e trivial, e nessas coisas criam-se às vezes invenções impressionantes. Mas o que me diz lembra-me escura e vagamente de outra coisa. Lembrei-me especialmente quando me disse, com experiência e sinceridade tão evidentes, que a nova forma de barbear na realidade não é nova. Meu amigo, a raça humana está sempre tentando essas evasivas de tornar tudo inteiramente fácil; mas a dificuldade que tira de uma coisa é colocada em outra. Se um homem não tem o trabalho de preparar o queixo de alguém, suponho que outro homem terá o trabalho de preparar algo muito curioso para aplicar no queixo de alguém. Seria bom se pudéssemos barbear-nos sem incomodar ninguém. Seria ainda melhor se pudéssemos não fazer a barba sem incomodar ninguém…

‘Mas, Ó sábio amigo, Barbeiro da rua Strand, Irmão, nem tu nem eu fizemos o mundo.’

“Seja quem for que o tenha feito, e que é mais sábio e, esperamos, melhor do que nós, o fez com estranhas limitações, e com dolorosas condições ao prazer.

“No primeiro e mais escuro de seus livros está escrito ferozmente que um homem não pode comer seu bolo e tê-lo ao mesmo tempo; e, ainda, que se todos os homens discutissem até que as estrelas envelhecessem ainda assim seria verdade que um homem que perdeu sua navalha não pode barbear-se com ela. Mas a todo momento aparecem homens com o novo isso ou aquilo e dizem que é possível ter tudo sem sacrifício, que o mal é bom desde que você seja esclarecido, e que não há diferença real entre estar ou não barbeado. A diferença, dizem, é apenas de grau; tudo é evolutivo e relativo. A cara rapada é imanente ao homem. Qualquer prego de dez centavos é uma Navalha Potencial. As pessoas supersticiosas do passado (dizem eles) acreditavam que um monte de pêlos negros saindo em ângulos retos da face de alguém fosse uma coisa positiva. Mas a crítica mais elevada nos ensina mais. Pêlos são simplesmente negativos. São uma Sombra onde devia haver um Barbear.

“Bem, isso continua, e suponho que signifique algo. Mas um bebê é o Reino de Deus, e se você tentar beijar um bebê ele saberá se você está barbeado ou não. Talvez eu esteja confundindo barbear-se com salvar-se: minhas simpatias democráticas sempre me levaram a abandonar os “h’s”. Mais um momento e eu chegarei a sugerir que os bodes representam os condenados porque têm barbas longas. Isso está se tornando alegórico demais.

“De qualquer forma”, acrescentei ao pagar a conta, “fiquei de fato profundamente interessado no que você me contou sobre o Novo Barbear. Já ouviu falar alguma vez de uma coisa chamada a Nova Teologia?” Ele sorriu e disse que não.

231 Visualizações

Leave a Comment