Há apenas uma razão ela qual os adultos não brincam com brinquedos; e é uma razão justa. É que brincar exige muito mais tempo e dedicação do que tudo mais. A brincadeira, da forma como as crianças a encaram, é a coisa mais séria do mundo; e assim que passamos a ter pequenos deveres ou pequenas penas temos de abandonar em parte esse plano de vida tão enorme e ambicioso. Temos força suficiente para a política e o comércio, a arte e a filosofia; não temos força suficiente para brincar. Esta é uma verdade que será reconhecida por qualquer um que, quando criança, já brincou com qualquer coisa: qualquer um que tenha brincado com blocos, com bonecas ou com soldados de chumbo. Meu trabalho como jornalista, que me dá dinheiro, não é executado com tão terrível persistência quanto aquele outro trabalho que não rendia nada.
Tome o exemplo dos blocos. Se você publicar amanhã um livro em doze volumes (seria típico de você) sobre a “Teoria e Prática da Arquitetura Européia”, seu trabalho poderá ser laborioso, mas é fundamentalmente frívolo. Não é sério como o de uma criança empilhando um bloco sobre o outro, pela simples razão de que se o seu livro é ruim ninguém conseguirá em última análise e completamente provar-lhe isso. Ao passo que, se o equilíbrio dos blocos for ruim, a pilha simplesmente cairá. E, se conheço algo sobre crianças, o menino voltará solene e tristemente ao trabalho de reconstruí-la. Ao passo que, se conheço algo sobre autores, nada o induzirá a reescrever seu livro, ou até a pensar nele novamente se puder evitar.
Tome o exemplo das bonecas. É muito mais fácil cuidar de uma causa educacional do que cuidar de uma boneca. É tão fácil escrever um artigo sobre educação quanto um artigo sobre caramelos ou bondes ou qualquer outra coisa. Mas é quase tão difícil cuidar de uma boneca quanto de uma criança. As menininhas que conheci nas ruelas de Battersea adoram suas bonecas de uma maneira que lembra não tanto brincadeira quanto idolatria. Em alguns casos, o amor e cuidado do símbolo artístico realmente tornaram-se mais importantes do que a realidade humana para que este fora, suponho, originalmente concebido para simbolizar.
Lembro-me de uma menina em Battersea que levava a passear sua irmã menor apertada em um carrinho de boneca. Quando questionada sobre isso, ela respondia: “Eu não tenho uma boneca, e a Bebê está fazendo de conta que é a minha.” A Natureza estava de fato imitando a arte. Primeiro uma boneca substituía uma criança; depois a criança se tornava um mero substituto de uma boneca. Mas isso abre outros assuntos; o ponto aqui é que tanta devoção exige a maior parte do cérebro e a maior parte da vida, quase como se fosse realmente a coisa que é simbolizada. O ponto é que o homem que escreve sobre a maternidade é meramente um educador; a criança que brinca com uma boneca é uma mãe.
Tome o exemplo dos soldados. Um homem que escreve um artigo sobre estratégia militar é simplesmente um homem escrevendo um artigo: uma visão repugnante. Mas um menino fazendo uma campanha com soldados de chumbo é como um general fazendo uma campanha com soldados reais. Ele precisa, até os limites da sua capacidade juvenil, pensar no assunto; ao passo que o correspondente de guerra não precisa pensar em nada. Lembro-me de um correspondente de guerra que declarou após a captura de Methuen: “Essa atividade renovada da parte de Delarey deve-se provavelmente à sua escassez de provisões.” O mesmo crítico militar mencionara alguns parágrafos antes que Delarey estava sendo duramente pressionado por uma coluna que o perseguia sob o comando de Methuen. Methuen perseguia Delarey ; e o movimento de Delarey era por falta de provisões. De outra forma ele teria permanecido quieto enquanto era perseguido. Eu corro atrás de Jones com uma machadinha, e se ele se vira e tenta se livrar de mim a única explicação possível é que ele tem uma quantidade muito pequena de dinheiro em sua conta bancária. Não creio que nenhum menino brincando com soldados de chumbo seria tão idiota assim. Mas também é verdade que qualquer um que brinque com qualquer coisa tem que ser sério. Ao passo que, como tenho ótimas razões para saber, se você está escrevendo um artigo pode dizer qualquer coisa que passe por sua cabeça.
Em geral, portanto, o que impede os adultos de participarem nas brincadeiras de crianças não é que não tenham prazer nisso: é simplesmente que não têm o tempo livre para elas. É que não têm como gastar o esforço e o tempo e a consideração necessários para uma atividade tão grandiosa e grave. Eu mesmo venho há algum tempo tentando completar uma peça em um pequeno teatro de marionetes, do tipo que era chamado “simples por um penny, colorido por dois pence”; só que eu mesmo desenhei e colori as figuras e cenários. Tive de pagar apenas um shilling por cada folha de cartolina de boa qualidade e por uma caixa de aquarelas de má qualidade. O tipo de palco em miniatura que fiz é provavelmente familiar a todos: é nada mais do que um desenvolvimento do palco que Skelt montou e Stevenson celebrou.
Mas embora tenha trabalhado muito mais no teatro de marionetes do que já o fiz em qualquer conto ou artigo, não consigo terminá-lo; o trabalho parece pesado demais para mim. Preciso interrompê-lo e dedicar-me a tarefas mais leves, como as biografias de grandes homens. A peça de “São Jorge e o Dragão”, na qual consumi o óleo da meia-noite (você precisa colori-la à luz de lampiões porque é assim que será vista), ainda não tem, muito evidentemente – que pena! –, duas laterais do Palácio do Sultão e nem uma forma compreensível e viável de erguer a cortina.
Tudo isso inspira-me um sentimento a respeito do verdadeiro significado da imortalidade. Neste mundo não podemos ter um puro prazer. Isso em parte porque o puro prazer seria perigoso para nós e nossos vizinhos. Mas também em parte porque dá muito trabalho. Se eu algum dia estiver em um mundo diferente e melhor, espero ter o tempo suficiente para brincar com nada mais do que teatros de marionetes; e espero ter a energia divina e sobre-humana suficiente para representar ao menos uma peça neles sem atrapalhar-me.
Entretanto, a filosofia dos teatros de marionetes é digna da consideração de qualquer um. Toda a moral essencial que os homens modernos devem aprender poderia ser deduzida desse brinquedo. Artisticamente considerado, lembra-nos o princípio essencial da arte que está em maior perigo de ser esquecido em nosso tempo. Refiro-me ao fato de que a arte consiste na limitação; o fato de que a arte é limitação. A arte não consiste em expandir as coisas. Consiste em cortar as coisas, como corto com uma tesoura minhas horríveis figuras de São Jorge e o Dragão. Platão, que gostava de idéias definidas, teria gostado de meu dragão de cartolina, pois embora a criatura tenha poucos méritos artísticos adicionais realmente parece um dragão. O filósofo moderno, que gosta do infinito, faria muito bem em considerar uma simples folha de cartolina. O aspecto mais artístico da arte teatral é o fato de que o espectador observa tudo através de uma janela. Isto é verdade mesmo em teatros inferiores ao meu: mesmo no Teatro da Corte ou no de Sua Majestade você olha através de uma janela; uma janela excepcionalmente grande. Mas a vantagem do teatro pequeno é exatamente que você olha por uma janela pequena. Todos já não notaram quão doce e surpreendente é qualquer paisagem quando vista através de um arco? Esta forma forte e quadrada, esta exclusão de tudo o mais não é apenas um auxílio para a beleza: é o essencial dela. A parte mais bela de todo quadro é a moldura.
Isto é especialmente verdadeiro no teatro de marionetes; que, ao reduzir a escala dos eventos, permite apresentar eventos muito maiores. Porque é pequeno poderia facilmente representar o terremoto na Jamaica. Porque é pequeno poderia facilmente representar o Dia do Juízo Final. Na medida exata em que é limitado pode lidar facilmente com quedas de cidades ou estrelas cadentes.
Entretanto, os grandes teatros são obrigados a ser econômicos porque são grandes. Quando compreendermos este fato teremos compreendido em parte por que o mundo sempre foi inicialmente inspirado por nações pequenas. A vasta filosofia grega encaixava-se com mais facilidade na pequena cidade de Atenas do que no imenso império da Pérsia. Nas estreitas ruas de Florença Dante sentiu que havia espaço para o Purgatório, o Céu e o Inferno. Ele teria sido sufocado pelo Império Britânico. Grandes impérios são necessariamente prosaicos; pois está além do poder do homem encenar um grande poema em tão grande escala. Só é possível representar idéias muito grandes em espaços muito pequenos. Meu teatro de marionetes é tão filosófico quanto o drama de Atenas.