Semeado em algum lugar distante nos suaves vales de Hertfordshire há um vilarejo de grande beleza, e não duvido que de admiráveis virtudes, mas de gosto literário excêntrico e desequilibrado, que pediu a este escritor que fosse até lá em uma tarde de domingo e desse uma palestra.
Só que era muito difícil chegar até lá no domingo à tarde, devido ao indescritível estado em que caíram nossas leis e costumes nacionais com relação ao sétimo dia. Não é Puritanismo; é simplesmente anarquia. Eu teria alguma simpatia pelo Sábado judeu, se fosse um Sábado judeu, e isso por três razões: primeira, que a religião é uma coisa intrinsecamente simpática; segunda, que não consigo conceber nenhuma religião digna desse nome sem alguma observância fixa e material; e terceira, que a obrigação de ficar sentado e não trabalhar está particularmente de acordo com o meu temperamento.
Porém o absurdo da convenção inglesa moderna é que não permite que um homem fique sentado; apenas faz perpetuamente com que tropece após tê-lo forçado a caminhar. Nosso “Sabatismo” não nos proíbe de pedir a um homem de Battersea que venha falar em Hertfordshire; apenas impede que chegue lá. Posso compreender que uma deidade seja adorada com louvores, com flores e com fogos de artifício no velho estilo europeu. Posso compreender que uma deidade seja adorada com lamentações. Mas não consigo imaginar uma deidade sendo adorada com inconveniências. Que o bom muçulmano vá a Meca, ou que permaneça em sua tenda, conforme seus sentimentos com relação a símbolos religiosos. Mas certamente Alá não deve ver nada particularmente digno no fato de seu servo ser enganado pelos horários de trens, descobrir que o velho expresso para Meca não está funcionando, perder sua conexão em Bagdá ou ter de esperar três horas em uma pequena estação secundária nas proximidades de Damasco.
Foi o que me aconteceu nessa ocasião. Descobri que não havia serviço de telégrafo para aquele lugar; descobri que havia apenas um fraco serviço de trem.
Agora, se isso fosse a autoridade da verdadeira religião inglesa, eu me submeteria imediatamente. Se acreditasse que o funcionário do telégrafo não podia enviar o telegrama por estar naquele momento rígido em um êxtase místico, consideraria todos os meus telegramas insignificantes em comparação. Se pudesse acreditar que os funcionários da estrada de ferro, ao serem liberados de seus deveres, acorressem com paixão ao local de culto mais próximo, diria que todas as palestras e tudo o mais deveriam ceder lugar a essa consideração. Não reclamaria se a fé nacional me proibisse de assumir compromissos de trabalho ou autoexpressão no Sábado. Mas, da forma como é, apenas me diz que vou muito provavelmente respeitar o Sábado não respeitando o compromisso.
Mas devo voltar aos detalhes reais de minha história. Descobri que havia apenas um trem em todo o domingo com o qual poderia chegar a muitas horas e muitas milhas do tempo e lugar desejados. Assim fui ao telefone, que é um de meus brinquedos favoritos, e no qual já gritei muitos monólogos valiosos, mas prematuramente interrompidos, sobre arte e moral. Lembro-me de um leve choque de surpresa quando descobri que era possível usar o telefone no domingo; não esperava que estivesse desligado, mas sim que zumbisse mais que em dias normais para o progresso de nossa religião nacional. Através desse instrumento, em menos palavras que o habitual e com uma relativa economia de epigramas, pedi um táxi para levar-me à estação de trens.
De maneira geral, não tenho nada a dizer seja contra os telefones ou os táxis; parecem-me duas das mais puras e poéticas criações da moderna civilização científica. Infelizmente, quando o táxi partiu, fez exatamente o mesmo que fez a moderna civilização científica – quebrou. O resultado foi que quando cheguei a King’s Cross meu único trem havia partido. Havia uma calma sabática na estação, uma calma nos olhares dos funcionários, e em meu peito, se havia calma, era um calmo desespero.
Não houve, porém, muita calma de qualquer espécie em meu peito ao fazer a descoberta; e transformou-se em completo horror quando soube que não poderia sequer mandar um telegrama aos organizadores do evento. Desamparar minha audiência era suficientemente exasperador; fazê-lo sem qualquer espécie de aviso era simplesmente uma baixeza. Procurei argumentar com o funcionário. Disse-lhe: “Quer realmente dizer que se meu irmão estivesse morrendo e minha mãe estivesse nesse lugar não poderia comunicar-me com ela?” Era um homem de mente literal e laboriosa; perguntou-me se meu irmão estava morrendo.
Respondi que tinha excelente e até ofensiva saúde, mas que a pergunta era sobre uma questão de princípio. O que aconteceria se a Inglaterra fosse invadida, ou se apenas eu soubesse como desviar um cometa ou impedir um terremoto. Ele descartou com um gesto essas hipóteses da forma mais irresponsável, mas tinha absoluta certeza de que telegramas não chegariam a este vilarejo em particular. Então algo explodiu em mim: aquele elemento de ultraje que é a mãe de todas as aventuras brotou de forma ingovernável e resolvi que não seria um malcriado apenas porque alguns de meus ancestrais remotos foram calvinistas. Cumpriria meu compromisso mesmo que gastasse todo o meu dinheiro e imaginação. Saí para a quieta rua londrina, onde meu quieto táxi ainda aguardava seu pagamento na manhã fria e enevoada. Sentei-me confortavelmente no táxi londrino e disse ao condutor que me levasse ao outro lado de Hertfordshire. E assim ele o fez.
Não esquecerei aquela viagem. Era duvidoso se, mesmo em um táxi motorizado, a coisa seria possível com qualquer consideração pelo motorista, sem falar de uma ligeira consideração pelas pessoas na rua. Insisti com o motorista para que comesse e bebesse alguma coisa antes de partir, mas ele me disse (com não sei que orgulho profissional ou delicado senso de aventura) que o faria quando chegássemos – se chegássemos. Não tive nem de longe a mesma delicadeza: comprei uma seleção variada de tortas de carne de porco em uma lojinha que estava aberta (por que a loja estava aberta? – tudo é mistério) e comi-as no caminho. O começo foi sombrio e irritante. Eu estava aborrecido, não com as pessoas, mas com as coisas, como um bebê; com o motor por ter quebrado e com o domingo por ser domingo. E a visão dos bairros pobres do norte expandiu e enobreceu, mas não reduziu minha melancolia: Whitechapel tem uma ostentação oriental em sua miséria; Battersea e Camberwell têm um indescritível alvoroço de democracia; mas as regiões pobres do norte de Londres… bem, talvez as tenha visto da maneira errada naquela manhã cinzenta e naquela missão estúpida.
Era um desses dias que mais de uma vez este ano quebraram o fim do inverno; um dia de inverno que começou tarde demais para ser primavera. Já não éramos mais retidos pela multidão e apressamos o passo através de uma fronteira de hortas e tavernas isoladas, quando o cinza revelou faixas douradas e uma boa luz começou a brilhar em tudo. O táxi ia cada vez mais rápido. O campo rodopiava de forma cada vez mais ampla; mas não perdi a sensação de combate e oposição que sentira nas vielas abarrotadas. Ao contrário, a sensação aumentou, devido à grande dificuldade de espaço e tempo. Quanto mais rápido ia o carro, tanto mais feroz e acirrada eu sentia a luta.
Toda a paisagem parecia atirar-se contra mim – e errar por um triz. A grama alta e brilhante passava como uma chuva de flechas; as próprias árvores assemelhavam-se a lanças arremessadas contra meu coração, e errando-o por um fio de cabelo. Através de um vale vasto e suave, vi uma faia erguendo-se pequena e desafiadora ao lado da estrada branca. Tornou-se cada vez maior com ofuscante rapidez. Atirou-se contra mim como um cavaleiro em um torneio, pareceu golpear minha cabeça e passou. Às vezes, quando fazíamos uma curva, o efeito era ainda mais terrível. Era como se uma árvore ou moinho de vento se voltasse para golpear como um bumerangue. O sol a essa altura era um fato ofuscante; e vi que toda a Natureza é cavalheiresca e militante. Fazemos mal em buscar a paz na Natureza: deveríamos, ao contrário, buscar a espécie mais nobre de guerra e ver todas as árvores como estandartes verdes.
Dei minha palestra, após chegar bem no momento em que todos decidiam ir embora. Quando meu táxi chegou balançando ao mercado, resolveram, com evidente desapontamento, ficar. Sobre a conferência estenderei um véu. Quando voltei para casa fui chamado ao telefone, e uma voz suave expressou pena pelo defeito do táxi e disse mesmo algo sobre um pagamento razoável. “A quem posso pagar por minha magnífica experiência? Qual é a taxa habitual para ver as nuvens quebradas pelo sol? Qual é o preço de mercado de uma árvore azulada contra o horizonte e depois branca sob o sol? Diga seu preço por aquele moinho que estava atrás das malvas no jardim. Deixe-me pagá-lo por…” Acredito que foi nesse ponto em que fomos interrompidos.