Alguns policiais e uma moral – G. K. Chesterton

Outro dia quase fui preso por dois animados policiais em um bosque em Yorkshire. Eu estava de férias, e ocupava-me naquela rica e intrincada massa de prazeres, deveres e descobertas que, para evitar profanações, disfarçamos com o nome esotérico de “Nada”. No momento em questão estava atirando uma grande faca de Mora em uma árvore, praticando (infelizmente sem sucesso) aquele útil truque de arremesso de facas com que os homens matam-se uns aos outros nos romances de Stevenson.

De repente a floresta encheu-se com dois policiais; havia algo sobre sua aparição entre as árvores que me lembrou, não sei como, alguma alegre comédia elizabetana. Perguntaram-me o que era a faca, quem eu era, por que a estava arremessando, qual era meu endereço, profissão, religião, opinião sobre a guerra japonesa, nome do gato favorito e assim por diante. Disseram também que eu estava estragando a árvore; o que era, lamento dizer, falso, porque não conseguira acertá-la. A importância filosófica peculiar do incidente, porém, era esta. Após cerca de meia hora de conversação animada, da exibição de um envelope, de um poema inacabado – que foi lido com grande cuidado e acredito que com algum proveito –, e de mais um ou dois sutis truques de detetive, o mais velho dos dois paladinos convenceu-se de que eu realmente era o que afirmava ser, que era um jornalista, que escrevia no Daily News (esse foi o verdadeiro golpe; eles foram sacudidos por um terror comum a todos os tiranos), que morava em um determinado lugar como afirmara, e que estava hospedado com determinadas pessoas em Yorkshire, que por acaso eram ricas e bem conhecidas na vizinhança.

De fato, o policial líder tornou-se enfim tão amável e cortês que acabou revelando-se um leitor do meu trabalho. E quando isso foi dito, tudo se arranjou. Eles me inocentaram e deixaram-me ir.

“Mas”, eu disse, “e essa árvore mutilada? Foi em resgate dessa dríade, acorrentada à terra, que vocês acorreram como cavaleiros andantes. Vocês, os
humanitários superiores, não são enganados pela aparente imobilidade das coisas verdes, uma imobilidade como a de uma catarata, um impetuoso e esmagador silêncio. Vocês sabem que uma árvore é apenas uma criatura atada ao solo por uma perna, e não deixarão que assassinos com suas facas suecas derramem o sangue verde de um desses seres. Mas se é assim, por que não estou preso? Onde estão minhas algemas? Tirem, de alguma parte de suas roupas, minha cama de palha e minha janela com grades. Os fatos de que acabo de convencê-los, que meu nome é Chesterton, que sou jornalista, que estou hospedado na casa do renomado e filantrópico Mr. Blank de Ilkley, não têm nada a ver com a questão de se sou culpado de crueldade contra os vegetais. A árvore foi danificada, mesmo que possa refletir com sombrio orgulho que o foi por um cavalheiro ligado à imprensa liberal. Feridas na casca não se fecham mais rapidamente por serem infligidas por pessoas hospedadas com Mr. Blank de Ilkley. Aquela árvore, ruína do que já foi, escombros do que outrora fora um gigante da floresta, agora despedaçada e derrubada pela superioridade bruta de uma faca de mora, tal tragédia, senhor policial, não pode ser apagada mesmo se eu ficasse hospedado por mais vários meses com um ricaço. É incrível que vocês não tenham o direito de prender até mesmo as pessoas mais augustas e famosas por causa disso. Pois se é assim, por que me abordaram afinal?”

Fiz a última e maior parte desse discurso para a floresta silenciosa, pois os dois policiais haviam desaparecido quase tão rapidamente quanto apareceram. É bem possível, é claro, que fossem fadas. Nesse caso o caráter algo ilógico de sua visão de crime, lei e responsabilidade pessoal teria uma explicação brilhante e élfica; talvez se eu tivesse permanecido na clareira até o alvorecer veria grupos de minúsculos policiais dançando na relva, ou correndo ao redor com cintos de vaga-lumes, prendendo gafanhotos por estragarem folhas de grama. Mas considerando a hipótese mais ousada, de que realmente fossem policiais, encontro-me em certa dificuldade. Fui certamente acusado de algo que ou era um delito ou não. Fui deixado livre porque provei que era um hóspede de uma casa importante. A inferência parece dolorosamente clara: ou não é uma prova de infâmia atirar facas em uma floresta solitária, ou então conhecer um homem rico é uma prova de inocência. Suponha que uma pessoa muito pobre, ainda mais pobre do que um jornalista, um pedreiro ou trabalhador sem instrução, perambulando em busca de trabalho, mudando com freqüência de casa, talvez com freqüência atrasando o aluguel. Suponha que ele tenha se embriagado com a verde formosura da floresta antiga. Suponha que tenha arremessado facas em árvores e não pudesse dar outra descrição de um endereço exceto que fora despejado do último. Enquanto voltava para casa através de um nevoento e avermelhado crepúsculo, eu imaginava como ele iria se virar.

Moral. Nós ingleses sempre nos gabamos de que somos muito ilógicos; não há grande mal nisso. Não há nenhum sutil mal espiritual no fato de que as pessoas sempre se vangloriam de seus vícios; é quando começam a vangloriar-se de suas virtudes que se tornam insuportáveis. Mas deve ser dito que a falta de lógica na constituição ou nos sistemas legais pode tornar-se muito perigosa se por acaso houver um grande vício ou tentação nacional que possa tirar partido do caos. De modo similar, um bêbado deveria ter regras e horários estritos; um homem temperante pode seguir seus instintos.

Tome uma anomalia absurda na lei britânica – o fato, por exemplo, de que um homem que deixa de ser um membro do Parlamento tem de se tornar Administrador das Centenas de Chiltern, um cargo que acredito ter sido criado originalmente para reprimir ladrões perto de Chiltern, seja lá onde isso for. Obviamente esse tipo de falta de lógica não importa muito, pela simples razão de que não há uma grande tentação para tirar vantagem dela. Homens que se afastam do Parlamento não têm nenhum impulso furioso de caçar ladrões pelas montanhas. Mas caso houvesse um perigo real de que sábios, encanecidos e veneráveis políticos afastando-se da vida pública desejassem fazê-lo (se houvesse algum dinheiro nisso, por exemplo), então claramente, se continuássemos a dizer que a falta de lógica não importava quando Sir Michael Hicks-Beach prosaicamente enforcasse comerciantes de Chiltern a cada dia para tomar suas propriedades, seríamos muito tolos. A falta de lógica passaria a importar, pois teria se tornado uma desculpa para a indulgência. Apenas os muito bons podem viver a vida desenfreadamente.

Ora, é exatamente isso que acontece em casos de investigação policial como o narrado acima. Introduz-se nessas coisas um grande pecado nacional, um vício bem maior que a bebida – o hábito de respeitar um cavalheiro. O esnobismo tem, como a bebida, algo de grande poesia. E o esnobismo tem essa peculiar e diabólica qualidade do mal, que é ser exuberante entre pessoas extremamente amáveis, com corações e casas abertas. Mas é o nosso grande vício inglês: ser vigiado mais atentamente do que a varíola. Se um homem quiser ouvir o que há de pior e mais infame na Inglaterra resumido em palavras inglesas casuais, não o encontraria em pragas sórdidas ou discussões blasfemas. Encontrá-lo-ia no fato de que o melhor tipo de trabalhador, quando quer elogiar um homem, chama-o “cavalheiro”. Nunca lhe ocorre que poderia chamá-lo “marquês” ou “conselheiro”, isto é, que está simplesmente dizendo um cargo ou classe, e não um termo para um bom homem. E essa perene tentação de admiração envergonhada deve constantemente invadir, e acredito que realmente o faz, para distorcer e envenenar nossos métodos policiais.

Neste caso devemos ser lógicos e exatos, pois temos que vigiar-nos a nós mesmos. O poder da riqueza, e esse poder em sua pior forma, está crescendo no mundo moderno. Um povo muito bom e justo, sem essa tentação, talvez não precisasse criar regras e sistemas claros para defender-se do poder de nossos grandes financistas. Mas isso é porque um povo muito justo os teria fuzilado há muito tempo, por simples e bons sentimentos naturais.

313 Visualizações

Leave a Comment