Minha relação com os leitores desta página tem sido longa e prazerosa, porém – talvez por essa mesma razão – sinto que chegou o momento em que devo confessar o único grande crime da minha vida. Ocorreu há muito tempo; mas não é incomum que um acesso tardio de remorso revele esses negros episódios muito depois de terem acontecido. Não tem nada a ver com as orgias da Liga Antipuritana. Essa organização é tão ofensivamente respeitável que um jornal, ao descrevê-la um dia desses, referiu-se a meu amigo Mr. Edgar Jepson como Cônego Edgar Jepson; e acredita-se que títulos semelhantes estão preparados para todos nós. Não – não é pela conduta do Arcebispo Crane, do Decano Chesterton, do Reverendo James Douglas, de Monsenhor Bland ou mesmo daquele excelente e viril veterano eclesiástico, Cardeal Nesbit, que desejo (ou melhor, sou levado pela minha consciência) fazer essa declaração. O crime foi cometido na solidão e sem cúmplices. Sozinho o cometi. Deixem-me, com a sede característica dos penitentes de superar logo o pior da confissão, descrevê-lo de uma vez em sua forma mais terrível e indefensável. Há neste momento em uma cidade da Alemanha (a menos que tenha morrido de raiva ao descobrir o engano que sofreu) um dono de restaurante a quem ainda devo dois centavos. Da última vez que deixei seu restaurante ao ar livre, sabia que lhe devia dois centavos. Levei-os embora debaixo de seu nariz, embora fosse um nariz decididamente judeu. Nunca o paguei, e é altamente improvável que o pague um dia. Como essa infâmia pode ocorrer em uma vida que foi, falando de modo geral, deficiente na destreza necessária à fraude? A história é assim – e tem uma moral, embora possa não haver espaço para ela.
É uma regra geral para aqueles que viajam no Continente que a maneira mais fácil de falar em uma língua estrangeira é falar de filosofia. A conversa mais difícil é aquela sobre necessidades comuns. A razão é óbvia. Os nomes das necessidades comuns variam completamente em cada nação e são geralmente algo único e estranho. Como, por exemplo, um francês poderia supor que um depósito de carvão seria chamado de “alçapão”? Se alguma vez viu a palavra alçapão foi na Imprensa Jingoísta, onde o termo “política do alçapão” é usado sempre que abrimos mão de algo em favor de um pequeno Poder, como os Liberais, ao invés de abrir mão de tudo em favor de um grande Poder, como os Imperialistas. Qual inglês na Alemanha seria poético o suficiente para adivinhar que os alemães chamam uma luva de “sapato-de-mão”? As nações dão nome a suas necessidades por apelidos, por assim dizer. Chamam suas banheiras e banquetas por nomes únicos, élficos e quase afetuosos, como se fossem seus próprios filhos! Mas qualquer um que tenha chegado ao exercício quatro em uma cartilha consegue discutir sobre coisas abstratas em uma língua estrangeira. Pois assim que consegue montar uma sentença, descobre que as palavras em discussões filosóficas ou abstratas são quase as mesmas em todos os países. São as mesmas, pela simples razão de que vêm todas das coisas que foram as raízes comuns da nossa civilização. Do Cristianismo, do Império Romano, da Igreja medieval ou da Revolução Francesa. “Nação”, “cidadão”, “religião”, “filosofia”, “autoridade”, “a República” são palavras que são quase as mesmas em todos os países em que viajamos. Contenham, portanto, sua exuberante admiração pelo jovem que consegue discutir com seis ateus franceses assim que desembarca pela primeira vez em Dieppe. Até eu consigo fazer isso. Mas é muito provável que o mesmo jovem não saiba o termo francês para calçadeira. Mas há três grandes exceções a esta generalização. 1) No caso de países que não são europeus, e nunca tiveram nossos conceitos cívicos, ou a velha cultura latina. Não espero que a expressão patagônica para “cidadania” venha à mente de imediato, ou que a palavra Day ak para “República” seja familiar para mim desde o berçário. 2) No caso da Alemanha, onde, embora o princípio se aplique a muitas palavras como “nação” e “filosofia”, não se aplica de forma tão generalizada, pois lá houve uma política especial e deliberada de estimular a porção puramente alemã da língua. 3) No caso em que a pessoa não sabe nada do idioma, como é geralmente o meu caso.
Ao menos era essa a minha situação no negro dia em que cometi meu crime.
Duas das condições excepcionais que mencionei estavam combinadas. Eu andava por uma cidade alemã e não sabia nada da língua. Sabia, entretanto, duas ou três daquelas grandes e solenes palavras que mantém nossa civilização européia unida – uma das quais é “charuto”. Como fosse um dia quente e sonolento, sentei-me a uma mesa em uma espécie de restaurante ao ar livre e pedi um charuto e uma caneca de cerveja. Tomei a cerveja e paguei-a. Fumei o charuto, esqueci-me de pagá-lo e fui embora, contemplando embevecido o régio perfil das montanhas Taunus. Após cerca de dez minutos, lembrei-me repentinamente de que não pagara pelo charuto. Voltei ao restaurante e pus o dinheiro sobre a mesa. Porém, o proprietário também esquecera o charuto, e limitou-se a pronunciar sons guturais em tom de interrogação, perguntando-me, suponho, o que eu queria. Disse “charuto”, e ele me deu um charuto. Tentei afastá-lo com gestos de recusa ao mesmo tempo em que colocava o dinheiro na mesa. Ele pensou que a razão de minha rejeição era uma condenação àquele charuto em particular, e trouxe-me outro. Girei meus braços como um moinho de vento, procurando transmitir com a vasta universalidade de meu gesto que minha rejeição era de charutos em geral, e não daquele em particular. Ele o confundiu com a impaciência ordinária dos homens comuns, e avançou, com as mãos cheias de charutos variados, empurrando-os em minha direção. Em desespero, tentei outras formas de pantomima, mas quanto mais charutos recusava mais e mais raros e valiosos charutos eram trazidos das profundezas e recessos da loja. Tentei em vão pensar em uma maneira de transmitir-lhe o fato de que eu já fumara o charuto. Imitei a atitude de um cidadão fumando, apagando e jogando fora um charuto. O atento proprietário apenas pensou que eu estivesse ensaiando (como num êxtase de expectativa) as alegrias do charuto que ele me daria. Enfim retirei-me desconcertado: ele não receberia o dinheiro sem me dar os charutos. Assim este dono de restaurante (em cuja face o amor pelo dinheiro brilhava como o sol do meio-dia) simples e firmemente recusou-se a receber dois centavos que eu certamente lhe devia; e levei aqueles dois centavos embora comigo e esbanjei-os por meses. Espero que no último dia os anjos mostrem a verdade de forma bem suave para aquele pobre homem.
Esta é a verdadeira história da Grande Fraude do Charuto, e sua moral é esta – que a civilização está fundada sobre abstrações. A idéia de dívida não pode ser transmitida por movimentos físicos, porque é abstrata. E a civilização obviamente não seria nada sem dívidas. Assim, quando indivíduos de cabeça dura que estudam sociologia científica (que não existe) vêm e lhes dizem que a civilização é material ou indiferente ao abstrato, perguntem-se a si mesmos quantas das coisas que formam nossa Sociedade, a Lei ou as Ações da Bolsa ou a Dívida Pública, vocês conseguiriam transmitir com suas faces e dez dedos, fazendo caretas e gesticulando para um dono de restaurante alemão.