Uma estação ferroviária é um lugar admirável, embora Ruskin não pensasse assim; não pensava assim porque ele mesmo era ainda mais moderno do que a estação ferroviária. Não pensava assim porque ele mesmo era febril, irritável e resfolegante como uma máquina. Não conseguia perceber o remoto silêncio da estação.
“Em uma estação ferroviária”, dizia, “você está com pressa e, portanto, está infeliz”; mas você não precisa estar nenhuma das duas coisas a não ser que seja tão moderno quanto Ruskin. O verdadeiro filósofo não pensa em chegar em cima da hora para seu trem, exceto como uma aposta ou uma brincadeira.
A única maneira que já descobri de pegar um trem é chegar atrasado para o trem anterior. Faça isso, e você encontrará em uma estação ferroviária muito da quietude e consolo de uma catedral. Ela tem muitas características de uma grande construção eclesiástica: há vastos arcos, espaços vazios, luzes coloridas e, acima de tudo, há repetição ou ritual. É dedicada à celebração da água e do fogo, os dois elementos primordiais de todo o cerimonial humano. Por fim, uma estação lembra mais as religiões antigas do que as novas nisto – em que as pessoas vão até lá. Em conexão com isto deve-se também lembrar que todos os lugares populares, todos os sítios realmente usados por pessoas tendem a reter a melhor rotina de antiguidade muito mais do que quaisquer locais ou máquinas usados por qualquer classe privilegiada. As coisas não são alteradas tão rápida ou completamente por pessoas comuns quanto por pessoas influentes. Ruskin poderia encontrar mais memórias da Idade Média na rede ferroviária subterrânea do que nos grandes hotéis fora das estações. Os grandes palácios de lazer que os ricos constroem em Londres têm todos nomes descarados e vulgares. Seus nomes são esnobes, como o Hotel Cecil, ou (pior ainda) cosmopolitas como o Hotel Metrópole. Mas, quando tomo um vagão de terceira classe da estação mais próxima de Battersea até a estação mais próxima do Daily News, os nomes das estações são uma longa ladainha de memórias solenes e santas. Saindo de Victoria chego a um parque que pertence especialmente a São Tiago Apóstolo; de lá vou à ponte de Westminster, cujo próprio nome alude à impressionante Abadia; Charing Cross sustenta o símbolo do Cristianismo; a próxima estação chama-se Temple; e Blackfriars lembra o sonho medieval de uma Irmandade.
Se você quer ver o passado preservado, siga os milhões de pés da multidão. No pior dos casos, os ignorantes apenas desgastam as coisas velhas de tanto andar.
Mas os educados as derrubam em nome da cultura.
Sinto profundamente tudo isso enquanto perambulo pela estação vazia, onde não tenho nenhum tipo de compromisso. Extraí uma vasta quantidade de chocolates de máquinas automáticas; obtive cigarros, caramelos, perfume e outras coisas de que não gosto nas mesmas máquinas; pesei-me, com resultados sublimes; e essa sensação, não apenas da salubridade das coisas populares, mas também de sua essencial antiguidade e permanência, ainda domina minha mente. Caminho para a banca de livros, e minha fé sobrevive até mesmo ao espetáculo selvagem da literatura e jornalismo modernos. Mesmo nos aspectos mais crus e clamorosos do mundo da imprensa ainda prefiro o popular ao orgulhoso e enfadonho. Se tivesse de escolher entre comprar o Daily Mail ou o Times (o dilema lembra um pesadelo), certamente clamaria com todo o meu ser pelo Daily Mail. Mesmo a simples grandeza proclamada de forma frívola não é tão irritante quanto a simples mediocridade proclamada de forma grandiosa e solene. As pessoas compram o Daily Mail mas não acreditam nele. Acreditam no Times, e (aparentemente) não o compram. Mas quanto mais a produção de jornal no mundo moderno é estudada, mais se descobrirá como ela é em toda a sua essência antiga e humana, como o nome de Charing Cross. Demore-se por duas ou três horas em uma banca de livros de uma estação (como estou fazendo) e você descobrirá que ela gradualmente assume a grandeza e alusão histórica da Biblioteca Vaticana ou Bodleiana. A novidade é toda superficial; a tradição é toda interior e profunda. O Daily Mail tem edições novas, mas nunca uma idéia nova. Todas as coisas em um jornal que não vêm do antigo amor humano pelo altar ou pela pátria vêm do antigo amor humano pela fofoca. Os autores modernos freqüentemente ridicularizam as crônicas antigas porque registram principalmente acidentes e prodígios: uma igreja atingida por um raio ou um novilho com seis pernas. Parecem não perceber que essa velha história bárbara é igual ao novo jornalismo democrático. Não é que a crônica selvagem tenha desaparecido. É só que a crônica selvagem agora aparece toda manhã.
Assim, enquanto movia-me suave e vagamente em frente à banca, meus olhos perceberam um título súbito e escarlate que por um momento me fez cambalear. Na capa de um livro vi escritas em grandes letras: “Prospere ou Vá Embora”. O título do livro recordou-me com súbita reação e revolta tudo o que de fato parece inquestionavelmente novo e torpe; lembrou-me de que havia no mundo de hoje essa coisa completamente idiota, uma adoração do sucesso; algo que significa apenas suplantar qualquer um em qualquer coisa; algo que pode significar ser a pessoa mais bem sucedida em desertar de uma batalha; algo que pode significar ser o sonolento mais bem sucedido de todo o rol de homens sonolentos. Quando vi aquelas palavras o silêncio e santidade da estação ferroviária se obscureceram por um momento. Eis aqui, pensei, algo sem dúvida anárquico e violento e vil. Este título, de qualquer forma, representa o mais repugnante individualismo deste mundo individualista. Na fúria da minha amargura e paixão acabei comprando o livro, fazendo com que meu inimigo ganhasse algo do meu dinheiro. Abri-o preparado para achar alguma brutalidade, alguma blasfêmia que fosse realmente uma exceção ao silêncio geral e santidade da estação. Estava preparado para encontrar no livro algo que fosse tão infame quanto seu título.
Desapontei-me. Não havia nada que correspondesse à furiosa decisão da frase da capa. Após lê-lo com cuidado não consegui descobrir se devia progredir ou ir embora; mas tive uma vaga sensação de que preferiria ir embora. Uma parte considerável do livro, particularmente perto do fim, era ocupada por uma detalhada descrição da vida de Napoleão Bonaparte. Sem dúvida Napoleão progrediu. Ele também foi embora. Mas não consegui descobrir de maneira alguma como os detalhes de sua vida fornecidos aqui poderiam ajudar uma pessoa que buscasse o sucesso. Uma anedota descrevia como Napoleão sempre limpava sua pena na região posterior de seus joelhos. Suponho que a moral seja: sempre limpe a pena na parte de trás de seus joelhos, e você vencerá a batalha de Wagram. Outra história contava como ele havia soltado uma gazela entre as senhoras da sua Corte. Claramente, a inferência prática brutal é: solte uma gazela entre as senhoras de suas relações, e você será Imperador da França. Progrida com uma gazela ou vá embora. O livro me reconciliou inteiramente com a suave penumbra da estação. Súbito percebi que há uma divisão simbólica que poderia ter um paralelo com a biologia. Homens corajosos são vertebrados: têm a maciez na superfície e sua firmeza está no meio. Mas esses covardes modernos são crustáceos: sua dureza está toda na casca e sua moleza está dentro. Mas a suavidade está lá; tudo neste templo de penumbra é suave.