Não consigo lembrar-me se esse conto é verdadeiro ou não. Se o ler todo com muito cuidado suspeito que concluirei que não é. Mas, infelizmente, não posso lê-lo todo com muito cuidado porque, sabem, ainda não está escrito. Sua imagem e sua idéia prenderam-se a mim por grande parte da minha infância; posso tê-lo sonhado antes de aprender a falar ou contado a mim mesmo antes de aprender a ler ou lido antes que pudesse lembrar. Contudo, estou certo de que não o li, pois as crianças têm memórias muito claras sobre essas coisas, e dos livros de que realmente gostava ainda posso me lembrar, não apenas da forma e volume e da encadernação, mas até das posições das palavras impressas em muitas das páginas. Considerando tudo isso, inclino-me para a opinião de que o fato aconteceu comigo antes que eu nascesse.
De qualquer forma, contemos a história agora com todas as vantagens da atmosfera que se prendeu a ela. Vocês podem imaginar-me, para começar, sentado para o almoço em um desses restaurantes de refeição rápida na City, onde os homens ingerem sua comida tão rapidamente que ela não tem nenhuma das qualidades da comida e usam seu intervalo de meia hora tão rapidamente que ele não tem nenhuma das qualidades do lazer; afobar-se no período de folga é a ação mais improdutiva que existe. Todos usavam cartolas brilhantes, como se não pudessem perder um instante nem mesmo para pendurá- las em um cabide, e todos tinham um olho um pouco distante, hipnotizado pelo imenso olho do relógio. Em resumo, eram escravos do cativeiro moderno, era possível ouvir seus grilhões batendo. Cada um, de fato, estava preso por uma corrente; a corrente mais pesada já atada a um homem – chama-se corrente de relógio.
Então, do meio deles entrou e sentou-se à minha frente um homem que quase imediatamente iniciou um monólogo ininterrupto. Era semelhante a todos os outros por sua roupa, mas era espantosamente oposto a eles em seu comportamento. Usava uma cartola brilhante e uma longa casaca, mas da forma como essas coisas solenes foram feitas para serem vestidas: usava a cartola de seda como se fosse uma mitra, e a casaca como se fosse a éfode de um sumo sacerdote. Não apenas pendurou seu chapéu no cabide, mas pareceu (tal era sua imponência) quase pedir permissão ao chapéu para o fazer e desculpar- se com o cabide por usá-lo. Quando sentou-se em uma cadeira de madeira com o ar de quem considerasse seus sentimentos, e fez uma espécie de leve inclinação ou reverência à própria mesa de madeira, como se fosse um altar, não pude evitar que um comentário subisse aos meus lábios. Pois era um homem avantajado, de face sanguínea e aspecto próspero, e mesmo assim tratava todas as coisas com um cuidado que chegava quase ao nervosismo.
Para dizer alguma coisa que expressasse meu interesse, comentei: “A mobília é bem sólida; mas, é claro, as pessoas a tratam muito descuidadamente.”
Quando olhei para cima hesitantemente, meus olhos encontraram os seus e fiquei preso por seu olhar, fixo numa expressão apocalíptica. Eu pensara que ele era uma pessoa comum quando entrou, exceto por suas maneiras estranhamente cautelosas; mas se as outras pessoas o tivessem visto naquele momento, teriam gritado e esvaziado o recinto. Não o viram, e continuaram a fazer barulho com seus garfos, e um murmúrio com sua conversa. Mas o rosto do homem era o rosto de um maníaco.
“Você quis dizer alguma coisa em particular com esse comentário?”, perguntou por fim, e o sangue voltou lentamente a seu rosto.
“Absolutamente nada”, respondi. “Não é possível querer dizer nada aqui; estragaria a digestão das pessoas”.
Ele inclinou-se para trás e enxugou sua ampla testa com um grande lenço; e mesmo assim parecia haver uma espécie de remorso em seu alívio.
“Pensei que, talvez”, disse em voz baixa, “outra delas tivesse se desencaminhado.”
“Se você quer dizer outra digestão”, eu disse, “nunca ouvi falar de nenhuma aqui que tenha ido bem. Este é o coração do Império, e os outros órgãos estão em estado igualmente ruim.”
“Não, quero dizer outra rua desencaminhada”, e acrescentou pesada e quietamente, “mas como suponho que isso não lhe explica muito, acho que terei de lhe contar a história. Faço-o sem qualquer responsabilidade, pois sei que não acreditará. Por quarenta anos da minha vida invariavelmente saí de meu escritório, que é em Leadenhall Street, às cinco e meia da tarde, levando comigo um guarda-chuva na mão direita e uma maleta na mão esquerda. Por quarenta anos, dois meses e quatro dias saí pela porta lateral do escritório, andei pela rua na calçada da esquerda, tomei a primeira entrada à esquerda e a terceira à direita, onde comprava um jornal vespertino; seguia a rua pela calçada da direita ao redor de dois ângulos obtusos, e saía logo ao lado de uma estação de metrô, de onde tomava um trem para casa. Por quarenta anos, dois meses e quatro dias fiz este percurso por hábito adquirido: não era uma rua longa que atravessava, e levava cerca de quatro minutos e meio para fazê-lo. Depois de quarenta anos, dois meses e quatro dias, no quinto dia saí da mesma maneira, com meu guarda-chuva na mão direita e a maleta na esquerda, e comecei a notar que andar pela rua conhecida cansava-me um pouco mais do que o habitual; e quando fiz a curva convenci-me de que errara a entrada. Pois agora a rua subia em uma ladeira bastante íngreme, como só se vê nas partes montanhosas de Londres, e nesta parte não há quaisquer colinas. Mesmo assim não era a rua errada; o nome escrito nela era o mesmo; as lojas com venezianas fechadas eram as mesmas; os postes e todo o aspecto da perspectiva era o mesmo; só que estava inclinada para cima como uma tampa de caixa.
Esquecendo qualquer preocupação sobre falta de ar ou fadiga, corri furiosamente para a frente, e cheguei à segunda de minhas entradas habituais, que deveria me levar quase à vista da estação. E quando dobrei aquela esquina quase caí na calçada. Pois agora a rua subia bem à minha frente como uma escada íngreme ou a parede de uma pirâmide. Antes não havia por milhas ao redor daquele lugar uma inclinação sequer como a de Ludgate Hill. E esta era uma ladeira como a do Matterhorn. A rua toda erguera-se como uma única onda, e mesmo assim cada ponto e cada detalhe dela era o mesmo, e vi na distância, como se fosse no topo de uma trilha nos Alpes, destacado em letras rosadas, o nome sobre a banca de jornais.
“Comecei a correr cegamente em frente, passando por todas as lojas e chegando a uma parte da rua onde havia uma longa fileira acinzentada de casas particulares. Eu tinha, não sei por que, um sentimento irracional de ser uma longa ponte de ferro no espaço vazio. Um impulso me tomou, e puxei a porta de ferro de um depósito de carvão. Olhando para dentro vi espaço vazio e uma escada.
“Quando olhei para cima novamente, um homem estava de pé em seu jardim, tendo aparentemente saído de sua casa; debruçava-se sobre a cerca e olhava para mim. Estávamos completamente sós naquela rua de pesadelo; sua face estava nas sombras; sua roupa era escura e comum; mas quando o vi de pé tão perfeitamente parado soube de alguma maneira que não era deste mundo. E as estrelas por trás de sua cabeça eram maiores e mais brilhantes do que o suportável para os olhos dos homens.
“Se você é um anjo bom”, eu disse, “ou um demônio sábio, ou tem qualquer coisa em comum com a humanidade, diga-me qual é esta rua endemoninhada.”
“Após um longo silêncio ele disse, “Qual você acha que ela é?”
“É Bumpton Street, é claro”, retruquei. “Ela vai até a estação de Aldgate”.
“Sim”, ele admitiu gravemente; “vai até lá às vezes. Neste momento, porém, ela vai para o céu.”
“Para o céu?” disse eu. “Por quê?”
“Está indo para o céu em busca de justiça”, ele replicou. “Você deve tê-la tratado mal. Lembre-se sempre de que há uma coisa que não pode ser suportada por nada nem ninguém. Esta coisa insuportável é ser explorado e também desprezado. Por exemplo, é possível explorar as mulheres – todos o fazem. Mas não se pode desprezar as mulheres – desafio-o a tentar. Ao mesmo tempo, você pode ignorar vagabundos e ciganos e todo o aparente refugo do Estado, desde que não os explore. Mas nenhum animal do campo, cavalo ou cão suporta por muito tempo que lhe peçam para fazer mais que o seu trabalho e além disso receber menos do que a sua honra. Com as ruas é o mesmo. Você fez esta rua trabalhar até a morte, mas nunca se lembrou de sua existência. Se vocês tivessem uma democracia saudável, mesmo de pagãos, teriam coberto esta rua de guirlandas e dado-lhe o nome de um deus. Então ela teria ido calmamente. Mas por fim a rua se cansou de sua incansável insolência; e ela está pinoteando e erguendo sua cabeça para o céu. Você nunca montou em um cavalo bravo?”
“Olhei para a longa rua cinzenta, que por um momento pareceu-me exatamente igual ao longo pescoço cinzento de um cavalo levantando-se até o céu. Mas em um momento minha sanidade retornou, e eu disse: “Mas isto é uma completa tolice. As ruas vão ao lugar a que têm que ir. Uma rua deve sempre chegar ao seu fim”.
“Por que você pensa isso de uma rua?”, ele perguntou, permanecendo muito imóvel.
“Porque sempre a vi fazer a mesma coisa”, repliquei, com uma razoável irritação. “Dia após dia, ano após ano, ela sempre foi até a estação de Aldgate; dia após…”
“Parei, pois ele erguera a cabeça com a fúria da rua em revolta.
“E você?”, gritou de forma terrível. “O que acha que a rua pensa sobre você? Será que a rua pensa que você está vivo? Você está vivo? Dia após dia, ano após ano, você foi à estação de Aldgate…” Desde então passei a respeitar as coisas ditas inanimadas”.
E inclinando-se ligeiramente para o pote de mostarda, o homem do restaurante retirou-se.