Uma vez, parece que séculos atrás, fui persuadido a ter um pequeno papel numa daquelas procissões históricas ou desfiles que por acaso estavam na moda por volta do ano de 1909. E já que tenho a tendência, como todos os que envelhecem, a voltar ao passado remoto como a um paraíso ou parque de diversões, vou desenterrar uma lembrança que pode servir para ficar entre aquelas memórias de pequenos mas estranhos incidentes com os quais às vezes enchi esta coluna. O episódio tem mesmo algumas das qualidades sombrias de uma novela policial; embora suponho que o próprio Sherlock Holmes teria dificuldade em solucioná-la agora, quando o rastro está tão velho e frio e a maioria dos atores, sem dúvida, mortos faz tempo.
Esse antigo desfile incluía uma série de personagens do século dezoito, e disseram-me que eu era exatamente como Dr. Johnson. Considerando que Dr. Johnson era cheio de marcas de varíola, tinha um colete todo sujo de molho, bufava e balançava ao andar, e era provavelmente o homem mais feio de Londres, menciono esta semelhança como um fato e não para vangloriar-me. Não tive nenhuma parte nos preparativos; e as breves sugestões que fiz não foram tomadas tão a sério quanto poderiam ter sido. Pedi que uma fileira de postes fosse erigida ao longo do gramado, de forma que eu pudesse tocar todos menos um e depois voltar e tocá-lo. Não sendo possível, pensava que o mínimo que podiam fazer era deixar vinte e cinco xícaras de chá esperando a intervalos regulares ao longo do percurso, cada uma levada por uma Mrs. Thrale completamente caracterizada. Minha melhor sugestão construtiva foi a mais asperamente rejeitada de todas. À minha frente na procissão caminhava o grande Bispo Berkeley, o homem que virou a mesa dos primeiros materialistas ao defender que a própria matéria possivelmente não existia. Dr. Johnson, vocês se lembram, não apreciava idéias tão insondáveis como as de Berkeley e chutou uma pedra dizendo: “É assim que refuto a ele!” Ora (como observei), chutar uma pedra não tornaria a discussão metafísica clara o suficiente; além disso, machucaria. Mas quão pitoresco e perfeito seria se eu atravessasse o gramado na posição simbólica de chutar o Bispo Berkeley! Que grupo alegórico completo: o grande transcendentalista caminhando com a cabeça entre as estrelas, mas atrás dele o realista coxo vingador com o pé levantado. Mas não devo ocupar espaço com essas frivolidades esquecidas; nós velhos nos tornamos muito tagarelas ao falar do passado distante.
Esta história dificilmente diz respeito a mim, seja na minha pessoa real ou na de minha personagem. Basta dizer que a procissão ocorreu à noite em um grande jardim e à luz de tochas (tão remota era a data), que o jardim estava cheio de puritanos, monges, homens de armas e especialmente antigos santos celtas fumando charutos, e elegantes cavalheiros renascentistas falando cockney. Basta dizer, ou melhor, é até desnecessário dizer, que eu me perdi. Perambulei até algum canto escuro daquele matagal escuro, onde não havia nada para fazer exceto tropeçar em cabos de tendas, e quase comecei a sentir-me como meu protótipo e a compartilhar seu horror à solidão e ódio à vida no campo.
Nesse isolamento e dilema, vi outro homem de peruca branca avançar por aquele trecho esquecido de grama; um homem alto e magro, que se curvava em suas longas vestes negras como uma águia. Quando pensei que passaria ao largo de mim, parou à minha frente e disse: “Dr. Johnson, eu suponho. Eu sou Paley.”
“Senhor”, eu disse, “o senhor costumava guiar os homens aos princípios do Cristianismo. Se puder agora guiar-me a seja onde for que esta coisa infernal começa, terá feito um trabalho ainda mais elevado e mais árduo.”
Sua fantasia e estilo eram tão perfeitos que por um instante realmente pensei que era um fantasma. Não tomou conhecimento de minha irreverência, mas, fazendo meia volta com seu manto negro, levou-me através de sombras verdejantes e caminhos sinuosos cheios de musgo, até que saímos para o brilho de lâmpadas de gás e risonhos homens mascarados e pude rir de mim mesmo à vontade.
E este, vocês dirão, foi o fim da história. Eu sou (vocês dirão) naturalmente obtuso, covarde e mentalmente deficiente. Eu não era, além disso, habituado a desfiles; senti-me assustado no escuro e tomei por um espectro um homem que, na luz, pude reconhecer como um cavalheiro moderno em uma fantasia mascarada. Não: longe disso. Aquele personagem espectral foi minha primeira introdução a um incidente especial que nunca foi explicado e que ainda me dá nos nervos.
Misturei-me aos homens do século dezoito, e brincamos como se faz em um baile à fantasia. Lá estava Burke em carne e osso e de aspecto bem mais atraente. Lá estava Cowper muito maior do que na vida real; deveria ser um homenzinho com uma touca de dormir, com um gato debaixo de um braço e um spaniel debaixo do outro. Do jeito que estava, era uma pessoa magnífica, e parecia-se mais com o Senhor de Ballantrae do que Cowper. Por fim consegui persuadi-lo a usar a touca de dormir, mas não o cão e o gato, infelizmente. Quando voltei na noite seguinte Burke ainda era o mesmo belo melhoramento de si mesmo; Cowper ainda chorava por seu cão e gato e não podia ser consolado[ 260 ]; o Bispo Berkeley ainda esperava para ser chutado em prol da filosofia. Em resumo, encontrei todos os meus antigos amigos menos um. Onde estava Paley ? Eu fora misticamente tocado por sua presença; sua ausência tocava-me ainda mais. Por fim vi avançando até nós através do jardim mal iluminado um homenzinho com um grande livro e uma face alegre e atraente. Quando aproximou-se o suficiente disse, em uma voz pequena e clara: “Eu sou Paley ”. A coisa era muito natural, é claro: o homem adoecera e mandara um substituto. Mesmo assim, de alguma forma o contraste foi um choque.
Na noite seguinte eu já me tornara bastante amigo de meus quatro ou cinco colegas; descobrira o que se chama um amigo em comum com Berkeley e vários pontos de divergência com Burke. Acho que foi Cowper que me apresentou a um amigo seu, um rosto jovem, quadrado e robusto, contornado por uma peruca branca. “Este”, ele explicou, “é meu amigo Fulano de Tal. Ele é Paley.” Olhei ao redor para todos os rostos a esta altura fixos e familiares; estudei-os; contei-os; a seguir inclinei-me para o terceiro Paley como algo inevitável. Até então a situação estava bem dentro dos limites da coincidência.
Parecia certamente estranho que este clérigo em particular fosse tão variável e esquivo. Era singular que apenas Paley, entre todos os homens, devesse crescer e encolher-se e mudar como um fantasma, enquanto todo o resto permanecia sólido. Mas a coisa era explicável; dois homens ficaram doentes e isso era tudo; só que voltei na noite seguinte, e um jovem elegante de pele clara, com o cabelo empoado, juntou-se a mim e disse-me com entusiasmo juvenil que ele era Paley.
Pelas vinte e quatro horas seguintes permaneci na condição mental do mundo moderno. Quero dizer a condição em que todas as explicações naturais foram destruídas e nenhuma explicação sobrenatural foi estabelecida. Minha estupefação chegara ao tédio quando cheguei novamente à cor e ao barulho da festa, e fiquei ainda mais satisfeito porque encontrei um velho colega de escola e nos reconhecemos mutuamente sob nossas roupas pesadas e perucas grisalhas. Conversamos sobre todas aquelas coisas grandiosas para as quais a literatura é muito pequena e apenas a vida é grande o bastante: lembranças ardentes e aqueles gigantescos detalhes que forjam o caráter dos homens. Ouvi tudo sobre os amigos com quem ele perdera o contato e aqueles com quem o mantivera; ouvi sobre sua profissão, e por fim perguntei como viera parar no desfile.
“O fato é”, disse-me, “um amigo meu pediu-me, apenas hoje, que representasse um indivíduo chamado Paley ; não sei quem ele era…”
“Não, com os trovões!” exclamei, “e ninguém sabe.”
Esse foi o último golpe, e a noite seguinte passou como num sonho. Mal notei a figura esguia, jovial e completamente nova que entrou nas fileiras no lugar de Paley, tantas vezes falecido. O que isso queria dizer? Por que o inconstante Paley era infiel entre os fiéis? Essas contínuas mudanças provavam a popularidade ou a impopularidade de ser Paley? Será que nenhum ser humano podia suportar ser Paley por uma noite e sobreviver até a manhã? Ou será que os portões estavam abarrotados de multidões ansiosas do público britânico desejosas de ser Paley e que só podiam ser admitidas uma pessoa por vez? Ou há alguma antiga vendetta contra Paley? Alguma sociedade secreta de deístas ainda assassina qualquer um que adote o nome?
Não posso fazer mais conjeturas sobre este verdadeiro conto de mistério; e isso por duas razões. A primeira é que a história é tão verdadeira que tive de incluir nela uma mentira. Todas as palavras desta narrativa são verdadeiras, exceto a palavra Paley. E a segunda, porque tenho de ir ao quarto ao lado e fantasiar-me de Dr. Johnson.